Eduardo Bolsonaro usou nesta terça-feira (4) um vídeo oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a urna eletrônica para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alimentar suspeitas contra o processo eleitoral brasileiro. A publicação ocorre no momento em que o presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, promove uma ofensiva de exposição pública do equipamento e de aproximação com representantes estrangeiros.
Não há evidência de que Eduardo e Nunes Marques tenham coordenado as ações. Na prática, porém, o deputado federal licenciado pelo PL de São Paulo aproveitou uma iniciativa comandada pelo TSE para construir uma narrativa política contra Lula e voltar a levantar dúvidas sobre as eleições.
https://x.com/BolsonaroSP/status/2084791390219673986
Na publicação, Eduardo compartilhou um trecho da transmissão realizada pelo TSE em 3 de agosto, durante a abertura da 1ª Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. O evento incluiu a desmontagem de uma urna eletrônica diante das câmeras.
“Não é piada!”, ironizou o filho de Jair Bolsonaro. Em seguida, afirmou que um funcionário do TSE havia aberto o equipamento “para dizer que é seguro” e acusou Lula de impedir uma autoridade estrangeira de conhecer o processo eleitoral brasileiro.
Eduardo também questionou “quem teme mais transparência” e perguntou qual narrativa o presidente estaria tentando formar. A publicação reproduz uma estratégia já utilizada pelo bolsonarismo: apresentar iniciativas de transparência da Justiça Eleitoral como se elas fossem, por si mesmas, sinais de fragilidade ou suspeição.
Eduardo Bolsonaro distorce evento do TSE sobre urna eletrônica
A abertura do equipamento não foi organizada como resposta improvisada a uma falha de segurança. Segundo o TSE, a demonstração integrou uma programação nacional prevista para ocorrer entre 3 e 9 de agosto, com atividades educativas, visitas, palestras e ações contra a desinformação.
A transmissão reuniu o TSE, tribunais regionais eleitorais e emissoras públicas. O objetivo declarado pela Corte foi explicar a estrutura física da urna, seus mecanismos de funcionamento e os procedimentos empregados para proteger o registro dos votos.
Ao contrário do que sugere Eduardo, abrir a carcaça de uma urna não permite alterar eleições. O sistema utiliza diferentes camadas de verificação, programas assinados digitalmente, lacres, testes públicos e instrumentos de auditoria acompanhados por entidades fiscalizadoras.
O próprio Nunes Marques já afirmou, durante o julgamento que tornou Jair Bolsonaro inelegível em 2023, que o sistema brasileiro possui “irrefutável integridade” e que o país dispõe de um processo eleitoral confiável.
Nunes Marques amplia exposição das urnas a diplomatas
Desde que assumiu a presidência do TSE, Nunes Marques tem procurado ampliar a interlocução da Corte com atores políticos e representantes internacionais. Em junho, o ministro apresentou o sistema eletrônico de votação a um grupo de embaixadores.
Uma nova reunião com representantes diplomáticos foi marcada para 17 de agosto. De acordo com informações divulgadas pelo Tribunal, o encontro deverá apresentar novamente o funcionamento das urnas eletrônicas e os mecanismos de fiscalização das eleições de 2026.
A estratégia busca reduzir o espaço para contestações antecipadas do resultado eleitoral. Ao mesmo tempo, fornece imagens e declarações que passam a ser recortadas e reutilizadas por integrantes do bolsonarismo para insinuar justamente o contrário.
Foi o que Eduardo fez ao transformar a demonstração técnica em munição contra Lula. A postagem não apresentou indícios de fraude, adulteração de votos ou falha concreta no sistema eletrônico.
Ataque a Lula mistura vistos e fiscalização eleitoral
O deputado também associou o vídeo à controvérsia envolvendo pedidos de visto de autoridades dos Estados Unidos. A publicação, no entanto, não identificou nominalmente a pessoa supostamente impedida de entrar no Brasil nem demonstrou que ela participaria de uma inspeção formal das urnas.
O TSE informou anteriormente que representantes de todas as embaixadas instaladas no país foram convidados para atividades diplomáticas sobre o processo eleitoral. Os funcionários norte-americanos mencionados em publicações nas redes não estavam entre os convidados para examinar o equipamento, segundo verificação publicada sobre o episódio.
A fiscalização das urnas tampouco depende de agentes enviados unilateralmente por governos estrangeiros. A legislação brasileira estabelece quais instituições podem acompanhar o desenvolvimento dos sistemas, os testes de segurança, a preparação dos equipamentos e a totalização dos votos.
Entre as entidades fiscalizadoras estão partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Congresso Nacional, universidades e organizações técnicas credenciadas.
Família Bolsonaro retoma ofensiva contra eleições
A publicação de Eduardo se soma a novas investidas da família Bolsonaro contra o sistema eleitoral às vésperas da disputa de 2026. Sem apresentar provas, aliados do ex-presidente voltaram a relacionar as urnas brasileiras a suspeitas levantadas em outros países.
A ofensiva repete elementos da campanha que antecedeu as eleições de 2022. Naquele período, Jair Bolsonaro utilizou uma reunião com embaixadores para difundir acusações sem provas contra a Justiça Eleitoral.
O encontro foi um dos fundamentos da decisão que declarou o ex-presidente inelegível por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Nunes Marques votou contra a condenação, embora tenha defendido expressamente a integridade das urnas.
Agora, Eduardo Bolsonaro tenta explorar as ações de transparência conduzidas pelo próprio ministro para atacar Lula e manter sob suspeita um processo eleitoral que, até o momento, não teve nenhuma fraude demonstrada pelo deputado.
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