O Banco Master entrou no radar do Ministério Público argentino em uma investigação que alcança a Associação de Futebol Argentino (AFA) e a concessão de um dos estádios mais simbólicos do país. Em meio à crise diplomática entre os governos de Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva, promotores analisam a possibilidade de abrir uma cooperação internacional com a Polícia Federal brasileira para cruzar as apurações realizadas nos dois países.
O elo brasileiro é um empréstimo de R$ 450 milhões do Banco Master à Revee, empresa então ligada ao empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag. Segundo revelação do colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, a cédula de crédito foi traduzida para o espanhol e apresentada como demonstração da capacidade financeira da empresa no processo de concessão do Estádio José María Minella, em Mar del Plata.
Há uma diferença importante entre as duas frentes da apuração. A Justiça argentina já investiga a concessionária no âmbito do chamado caso Sur Finanzas, enquanto o Ministério Público de delitos econômicos de Mar del Plata analisa um pedido para estabelecer cooperação com investigadores brasileiros. Até o momento, portanto, a cooperação com a PF não foi formalmente anunciada.
Master financiou empresa que entrou na concessão do estádio argentino
A operação financeira ganhou peso no processo argentino porque não ficou restrita aos documentos bancários brasileiros. De acordo com a apuração publicada pelo Metrópoles, a Revee também apresentou uma declaração juramentada segundo a qual US$ 26 milhões, cerca de R$ 148 milhões na cotação da época, estavam reservados para as obras na Argentina.
Documentos oficiais do município de General Pueyrredon, cuja sede é Mar del Plata, confirmam o processo de concessão envolvendo a Minella Stadium S.A.. A prefeitura anunciou oficialmente a adjudicação do Estádio José María Minella, do Polideportivo Islas Malvinas e de áreas do Parque Municipal de los Deportes Teodoro Bronzini à companhia. O município informou ainda que o projeto previa investimentos privados para recuperar os equipamentos esportivos.
O processo público da licitação também registra a Minella Stadium entre as empresas formalmente analisadas para a concessão. A documentação municipal reforça um ponto central do caso: o crédito brasileiro do Master foi apresentado dentro de uma concorrência pública argentina para demonstrar capacidade financeira.
O José María Minella foi construído para a Copa do Mundo de 1978 e recebeu os três jogos do Brasil na primeira fase daquele Mundial. A promessa da concessionária era reformar o complexo e transformar o estádio em uma arena para cerca de 35 mil pessoas.
Eduardo Spinosa conecta concessão ao caso Sur Finanzas
O nome que liga a concessão ao escândalo que sacode o futebol argentino é Eduardo Juan Spinosa, ex-presidente do Banfield. Ele comandou a Minella Stadium e é apontado como um dos personagens centrais do caso Sur Finanzas, investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, fraude bancária e movimentações financeiras envolvendo clubes e dirigentes.
A investigação do Sur Finanzas chegou à sede da AFA e a clubes argentinos. Também levou investigadores a buscar documentos relacionados à concessão em Mar del Plata justamente por causa da participação de Spinosa na Minella Stadium.
A concessionária reúne, assim, duas pontas que passaram a interessar aos investigadores: de um lado, ex-dirigentes ligados ao futebol argentino; de outro, uma companhia brasileira que apresentou como garantia financeira um crédito concedido pelo Banco Master.
Revee tinha João Carlos Mansur, da Reag, no comando
A conexão brasileira não termina no Master. João Carlos Mansur, fundador da Reag, presidia o conselho de administração da Revee. Em agosto de 2025, a Fórum revelou os negócios de Mansur no futebol brasileiro quando ele se tornou um dos alvos da Operação Carbono Oculto.
A operação investiga uma estrutura financeira suspeita de movimentar recursos ligados ao crime organizado. A Reag também aparece em diferentes frentes da investigação sobre o Banco Master e seus fundos. Em janeiro deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag.
A própria Comissão de Valores Mobiliários mantém uma página específica com processos e informações relacionados ao Grupo Master, à Reag e a outras entidades conectadas às apurações.
Já o Banco Master teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. A operação de R$ 450 milhões com a Revee é investigada pela Polícia Federal entre as transações consideradas suspeitas do banco, segundo a apuração publicada pelo Metrópoles.
Estádio acumula dívidas após promessa milionária
A situação atual do complexo esportivo contrasta com a capacidade financeira apresentada durante a concessão. Cerca de um ano depois do processo, o estádio passou a enfrentar falta de energia por inadimplência e a concessionária acumulou dívidas com fornecedores e trabalhadores próximas de R$ 5 milhões, segundo a reportagem de Vecchioli.
A Revee informou ao Metrópoles que transferiu sua participação na concessionária para outra empresa há cerca de dois meses e afirmou ter cumprido suas obrigações durante o período em que esteve no negócio.
O empréstimo usado como sustentação financeira da concessão também chama atenção por sua origem. A cédula de crédito do Master previa recursos para projetos da Revee em São Paulo, entre eles uma arena no Anhembi e intervenções no estádio do Canindé. Os dois projetos não avançaram. Ainda assim, a operação bancária acabou incorporada à documentação usada na Argentina.
Investigação surge no auge da crise entre Lula e Milei
A possibilidade de cooperação entre investigadores brasileiros e argentinos aparece justamente quando Brasília e Buenos Aires atravessam sua maior crise diplomática dos últimos anos.
Na semana passada, o Brasil rebaixou a representação diplomática na Argentina após novos ataques públicos de Javier Milei a Lula. O embaixador brasileiro Julio Bitelli deixou de retornar ao posto em Buenos Aires, e a relação passou a ser conduzida no nível de encarregado de negócios.
Neste domingo (9), o chanceler Mauro Vieira elevou novamente o tom. Como mostrou a Fórum, Vieira afirmou à imprensa argentina que as agressões contra Lula precisam cessar imediatamente para que os dois governos retomem o caminho da normalidade.
A crise diplomática não é apontada como origem da investigação financeira nem há, até agora, indicação de interferência política na apuração. O contraste, porém, é significativo: enquanto Lula e Milei praticamente congelam o diálogo político, investigadores dos dois países podem ser levados a cooperar em um caso que conecta Banco Master, Reag e uma concessão milionária no futebol argentino.
Escândalo Master entra na Argentina de Milei com investigação sobre empréstimo de R$ 450 milhões
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