Gigante financeiro Goldman Sachs entra na mira da polícia por caso envolvendo a Oncoclínicas

Gigante financeiro Goldman Sachs entra na mira da polícia por caso envolvendo a Oncoclínicas
- Foto: Reprodução

A Polícia Civil de São Paulo indiciou dois representantes do Goldman Sachs por estelionato e fraude na administração de sociedade por ações em uma investigação relacionada à abertura de capital da Oncoclínicas.
Os indiciados são Felipe Guerra Acosta, superintendente executivo de investimento do banco, e Natan Lima Reinig, ex-integrante do Conselho de Administração da empresa indicado pelo Goldman Sachs.
Segundo a investigação, os dois teriam participado conscientemente de uma operação que apresentou versões diferentes sobre o controle de uma participação relevante da companhia.
Quando a Oncoclínicas abriu seu capital, em 2021, o Goldman informou ao mercado que detinha indiretamente 100% dos fundos Josephina I e II. Em 2024, diante de uma mudança que poderia obrigar a realização de uma oferta pública aos demais acionistas, outra versão foi apresentada.
Acosta e Reinig assinaram uma carta afirmando que a Centaurus já controlava indiretamente aquela participação antes mesmo do IPO.
Para a polícia, essa nova interpretação teria sido usada para afastar a necessidade de uma oferta pública de aquisição de ações, evitando o desembolso correspondente e causando prejuízo aos acionistas minoritários.
O despacho do delegado José Eduardo Jorge menciona uma suposta “falsa reconstrução” da estrutura societária e aponta participação consciente dos executivos na operação.
Procurado pela Revista Fórum, o Goldman Sachs negou irregularidades. O banco afirmou que “essas alegações da Latache não têm fundamento” e acrescentou: “Continuamos acreditando que agimos de forma adequada”.
O indiciamento não representa condenação e os investigados ainda poderão exercer o direito de defesa.
“Ou mentiu no IPO, ou mentiu agora”
Para o advogado Alfredo Lazzareschi, da ABRAICC, o avanço da investigação tem peso relevante para o caso.
“É uma questão que a ABRAICC está acompanhando de perto. As autoridades finalmente estão tomando medidas para apurar os fatos e seus responsáveis. É um indiciamento muito importante no contexto do caso”, afirmou à Fórum.
Segundo Lazzareschi, o ponto central está justamente na existência de informações distintas sobre a estrutura societária.
“Isso mostra que eles enganaram os minoritários no IPO ou agora. Em qualquer cenário, enganaram. A decisão de indiciamento mostra também que a Polícia está indo mais a fundo do que a CVM, por exemplo”, disse.
Na avaliação do advogado, caso seja comprovado que a mudança de versão foi usada para evitar uma OPA, os executivos podem responder pessoalmente.
“Eles podem ser responsabilizados pessoalmente, porque induziram investidores a acreditar nessas informações. Os minoritários, por sua vez, terão ação indenizatória contra eles”, afirmou.
Lazzareschi acrescenta que os executivos também podem enfrentar consequências administrativas. “Podem ser responsabilizados perante a CVM pela prestação de informações falsas ao mercado, com condenação em multa e até inabilitação.”
Comparação com Americanas
O caso ganha uma dimensão adicional por envolver o Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento de Wall Street, com atuação no mercado financeiro brasileiro e presença internacional.
Questionado pela Fórum sobre uma possível comparação com o escândalo da Americanas, Lazzareschi afirmou considerar o paralelo juridicamente razoável, embora sejam casos de naturezas diferentes.
“Acredito que sim. Porque em ambos os casos há informações falsas prestadas ao mercado. Isso afeta a reputação do Goldman Sachs, com possíveis reflexos em outros mercados. Muita gente acreditou nas informações do Goldman Sachs”, afirmou.
Ao comentar a negativa apresentada pelo banco, o advogado foi categórico.
“Dificilmente o Goldman Sachs iria admitir que mentiu. Isso é muito grave e tem consequências complexas e de valores vultosos.”
E resumiu a controvérsia: “O Goldman Sachs ou mentiu no IPO, ou mentiu agora. Não tem uma terceira hipótese.”
A comparação com a Americanas não significa que os dois casos tenham a mesma dimensão ou estrutura. Mas, se as suspeitas avançarem, o episódio pode ultrapassar uma disputa societária e produzir efeitos regulatórios, financeiros e reputacionais para uma instituição global, além de abrir caminho para pedidos de indenização por investidores que se considerem prejudicados.

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