Filho de Renato Russo libera “Fábrica” para Zé Dirceu e cita 6×1

Filho de Renato Russo libera “Fábrica” para Zé Dirceu e cita 6×1
Ex-ministro Zé Dirceu - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, autorizou o uso de “Fábrica”, da Legião Urbana, na campanha de José Dirceu (PT-SP) a deputado federal. Em vídeo divulgado pelo ex-ministro neste domingo (16), Giuliano relaciona uma das canções mais políticas da banda à exploração do trabalho, à defesa da democracia e a propostas como o fim da escala 6×1, a reforma tributária e a reindustrialização do Brasil.
A escolha carrega também uma conexão histórica pouco conhecida: uma pesquisa acadêmica de 2022 registra que a Legião Urbana costumava abrir com “Fábrica” seus shows no Grande ABC paulista, região industrial marcada pelas greves de trabalhadores que projetaram Lula e ajudaram a formar o PT. Quatro décadas depois, a música volta à arena política justamente em uma campanha petista.
Dirceu, que completou 80 anos em março, voltou à disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados enquanto passa por tratamento de saúde. Em maio, o ex-ministro foi diagnosticado com linfoma, como mostrou a Fórum.
https://x.com/ZeDirceu_/status/2089032510978084912
Giuliano liga “Fábrica” à agenda de Zé Dirceu
No depoimento, Giuliano parte diretamente do significado político que atribui à composição do pai para explicar por que decidiu liberá-la para a campanha.
“Meu pai escreveu ‘Fábrica’ pensando no Brasil que conhecia, um país de gente que trabalha duro e recebe pouco em troca, em dignidade, em direitos, em futuro. Essa música fala sobre o peso do trabalho alienado, mas também sobre a possibilidade de virar esse jogo.”
Para Giuliano, “Fábrica” é também uma canção sobre resistência e sobre a recusa em aceitar que relações sociais injustas tenham de permanecer como estão. É a partir dessa leitura que ele aproxima a obra de Renato Russo das propostas defendidas por Dirceu na eleição de 2026.
“O Zé é uma dessas pessoas que passou a vida inteira lutando pela democracia neste país. Antes, durante e depois da ditadura. E hoje, aos 80 anos, mesmo enfrentando um tratamento de saúde, ele volta a disputar uma eleição, porque ainda acredita que dá para mudar as coisas, acabar com escala 6×1, fazer uma reforma tributária que cobre mais de quem tem mais, reindustrializar o país e devolver renda e dignidade para quem trabalha.”
Giuliano ainda afirma que Renato Russo “nunca ficou em cima do muro” e associa a obra do músico às questões que atravessavam a vida de pessoas comuns, à injustiça social e à defesa de uma sociedade mais igualitária.
A referência à democracia também encontra correspondência na biografia de Dirceu. Líder estudantil nos anos 1960, ele foi preso durante o Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, e banido do país no ano seguinte. Depois da anistia, participou da fundação do PT e, décadas mais tarde, tornou-se ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula.
“Fábrica” já tinha ligação com o ABC antes de 2026
O encontro entre “Fábrica” e o universo político dos trabalhadores não começa com a campanha de Zé Dirceu. A dissertação “Legião Urbana: conscientização crítica e ensino de história”, de Edilson dos Santos Monteiro, apresentada em 2022 ao Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), registra uma particularidade da trajetória da música.
Segundo o trabalho, a Legião Urbana costumava abrir com “Fábrica” seus shows na região do Grande ABC, definida pelo pesquisador como zona industrial paulista e berço político do Partido dos Trabalhadores.
O dado acrescenta uma camada à escolha de Giuliano. O ABC foi cenário das grandes greves de metalúrgicos do final dos anos 1970 e tornou-se um dos centros do chamado novo sindicalismo brasileiro, movimento do qual emergiram Lula e lideranças que participariam da criação do PT.
Em 2026, “Fábrica” reaparece associada a uma candidatura do partido e a temas que remetem diretamente àquele universo industrial: jornada de trabalho, salário, distribuição de renda, reindustrialização e direitos dos trabalhadores.
A conexão histórica não permite atribuir a Renato Russo um apoio partidário que ele não declarou. Mostra, porém, que a relação entre a canção, o trabalho industrial e um dos territórios mais simbólicos da luta sindical brasileira é muito anterior à atual campanha.
“Fábrica” transformou o trabalho explorado em crítica social
“Fábrica” foi lançada em 1986 no álbum “Dois”, segundo disco da Legião Urbana. Composição de Renato Russo, a música se tornou uma das faixas em que o repertório da banda aborda de maneira mais direta as relações de trabalho, a produção de riqueza e a desigualdade.
A interpretação apresentada agora por Giuliano encontra eco em estudos sobre a obra de Renato. Pesquisas acadêmicas analisam a música a partir de um trabalhador submetido a uma estrutura sobre a qual tem pouco controle, produzindo em meio à precariedade e à falta de perspectivas.
A crítica ultrapassa o chão da fábrica. A canção aproxima trabalho, poder econômico, degradação do ambiente e desejo de mudança, combinação que ajuda a explicar por que continuou sendo lida politicamente quatro décadas após o lançamento.
Os registros oficiais de Renato Russo mostram que “Fábrica” também ganhou uma segunda vida fora do álbum “Dois”. Em 1992, a faixa abriu o primeiro disco de “Música Para Acampamentos”, reunião de apresentações ao vivo, gravações de rádio e registros alternativos organizada pelo próprio Renato e pela EMI.
Bonfá contesta uso partidário de “Fábrica”
A liberação feita por Giuliano não representa consenso entre os integrantes da história da Legião Urbana. Marcelo Bonfá, baterista e fundador da banda, criticou a associação da música à candidatura de Dirceu em entrevista ao UOL publicada neste domingo (16).
Bonfá afirmou que não aprovaria o uso político-partidário de “Fábrica”, independentemente do partido ou da corrente ideológica, e disse acreditar que Renato Russo teria a mesma posição. Para o baterista, a obra da Legião deve permanecer acima das disputas partidárias.
A divergência coloca duas leituras do legado da banda frente a frente. Bonfá rejeita a vinculação partidária. Giuliano, por sua vez, sustenta que o conteúdo social e político de “Fábrica” justifica a autorização para uma campanha que, segundo ele, defende pautas diretamente relacionadas ao universo retratado por Renato Russo.
No depoimento que acompanha a cessão da música, o filho de Renato encerra justamente nessa chave. Para Giuliano, “Fábrica” funciona em 2026 como um chamado para lembrar a história de luta do país e defender participação política, voto e a possibilidade de mudança.
“Essa música é um convite para lembrar que o Brasil tem história de luta e que essa luta continua, que ninguém constrói um país sozinho. Se constrói com participação, com voto, com gente disposta a acreditar que o outro caminho é possível.”

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