O início oficial da corrida presidencial de 2026 desenhou um cenário de crise profunda nos bastidores do Partido Liberal e do bolsonarismo raiz. O que deveria ser uma demonstração de força e capacidade de mobilização popular transformou-se, em menos de 24 horas, em um enredo de constrangimento e recuos estratégicos. O estopim para o clima de pânico instalado no comitê de campanha foi o cancelamento repentino da visita do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à cidade de Juiz de Fora (MG), agendada para esta segunda-feira (17).
A versão oficial divulgada pela assessoria do filho de Jair Bolsonaro (PL) alegou “questões meteorológicas” e “falta de teto para decolagem” no Rio de Janeiro. No entanto, a justificativa não se sustenta diante dos fatos. Enquanto a equipe de Flávio utilizava a suposta instabilidade do tempo como pretexto, outros aliados e candidatos da própria extrema direita cumpriram suas agendas normalmente no município mineiro. Aplicativos e relatórios de meteorologia confirmaram que as condições climáticas em Juiz de Fora estavam em relativa regularidade para voos e atividades ao ar livre, nada fora do comum para o clima brasileiro.
A ida à cidade mineira possuía um peso altamente simbólico para a narrativa bolsonarista. O plano meticuloso de Flávio previa uma caminhada pelo cruzamento das ruas Halfeld e Batista de Oliveira, exatamente o local onde seu pai sofreu a facada em 2018. A estratégia buscava reativar o apelo emotivo da militância e requentar o episódio ocorrido há oito anos. O cancelamento abrupto de uma agenda tão emblemática escancarou a verdadeira motivação por trás do recuo: o medo do esvaziamento.
O vexame de Copacabana e o fantasma do “flop”
A decisão de não desembarcar na Zona da Mata mineira é desdobramento direto do trauma sofrido no dia anterior. No domingo (16), o lançamento oficial da candidatura de Flávio Bolsonaro ocorreu na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, considerado o berço político e o epicentro histórico da mobilização bolsonarista.
O resultado, contudo, foi um fracasso retumbante. Levantamento realizado pelo Monitor do Debate Político do Cebrap/USP, em parceria com a ONG More in Common, apontou que o evento reuniu cerca de 8.900 pessoas no horário de pico na orla carioca. O número é considerado irrisório para um candidato à Presidência da República apoiado pela máquina do maior partido de oposição e pela estrutura que, no passado, arrastava multidões. Para efeito de comparação, o lançamento da pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, contou com um público amplo e expressivo, com pelo menos 40 mil pessoas dentro do equipamento esportivo e mais nove mil do lado de fora, amplamente registrado pela imprensa, contrastando de maneira frontal com o cenário desolador visto no Rio.
Fontes ouvidas pela Fórum em caráter reservado revelaram que a cúpula da campanha e o próprio senador ficaram em choque com o fiasco em Copacabana. As projeções de inteligência interna para o ato de Juiz de Fora indicavam que a adesão popular na cidade mineira seria ainda menor, expondo o candidato a um segundo vexame público consecutivo nas manchetes de imprensa e nas redes sociais.
Crise de comando e a paranoia nos bastidores
Nos bastidores de Brasília, a frustração transbordou em críticas diretas à coordenação do comitê, chefiada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN). Aliados acusam a gestão de ineficiência e incapacidade de articulação política com as bases do movimento.
Interlocutores do comitê relatam que Flávio Bolsonaro vive um momento de profunda frustração e paranoia. O senador tem demonstrado incômodo com as constantes comparações entre seu desempenho e a capacidade de engajamento do pai. Em conversas reservadas, pessoas próximas o descrevem como alguém que se sente na desconfortável posição de “filho de famoso sem talento”, constantemente à sombra do militar condenado por tentativa de golpe de Estado.
Diante do risco de virar piada perene entre opositores e ver a campanha naufragar na largada devido ao fenômeno dos atos “flopados”, o candidato teria deixado claro à sua equipe que prefere o isolamento e a drástica diminuição das agendas públicas a encarar calçadões e praças esvaziadas.
A nova diretriz: ocultar para conter a sangria
Diante do cenário catastrófico, a Fórum também apurou que o comitê bolsonarista adotou uma tática defensiva de urgência: a ordem agora é esvaziar a agenda de rua. Salvo mudanças drásticas na orientação política ou garantias absolutas de público vindo de carreatas organizadas por empresários locais, atos abertos em grandes e médios centros urbanos serão cancelados ao menor sinal de fraca mobilização.
A diretriz funciona como uma confissão tácita de fracasso. Em vez de testar a popularidade do candidato no corpo a corpo com o eleitorado, a coordenação tentará blindá-lo, apostando na propaganda de TV e no impulsionamento em redes digitais. Resta saber por quanto tempo a estratégia de esconder o candidato conseguirá disfarçar a falta de tração popular da candidatura oficial da extrema direita.
Cancelamento em MG confirma “ato desesperado” da campanha de Flávio Bolsonaro
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