Sem conseguir atrair para sua coligação presidencial as principais siglas do Centrão que estiveram com Jair Bolsonaro em 2022, Flávio Bolsonaro (PL) fez nesta terça-feira (18) uma grave acusação para explicar o isolamento de sua candidatura: segundo ele, dirigentes partidários teriam sido ameaçados por “altas autoridades em Brasília” para não aderir à sua campanha.
Em entrevista à Rádio Itatiaia, Flávio associou a suposta pressão ao Judiciário, mas não citou nomes, episódios concretos ou apresentou provas.
“Eles receberam ameaças de altas autoridades em Brasília para não se juntar à minha candidatura. O sistema está com medo de Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Na sequência, declarou que autoridades do Judiciário estariam promovendo “algum tipo de constrangimento” sobre líderes partidários e afirmou que isso seria sinal de que o país não vive uma “democracia plena”.
A acusação surge justamente quando o isolamento partidário se tornou um dos principais problemas da campanha. PP, União Brasil, Republicanos e Podemos recusaram uma aliança nacional com Flávio e optaram pela neutralidade.
O resultado foi uma chapa pura do PL. Depois de fracassarem as negociações para atrair um nome de outro partido, Flávio anunciou Alfredo Gaspar como vice em 5 de agosto.
Centrão abandona Flávio e abre espaço para Lula
A situação de Flávio é bem diferente daquela enfrentada pelo pai em 2022. Na eleição passada, Jair Bolsonaro disputou a presidência com uma coligação formada por PL, PP e Republicanos. Agora, o filho ficou apenas com seu próprio partido.
A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, declarou neutralidade. Republicanos e Podemos seguiram pelo mesmo caminho, liberando seus diretórios para formar alianças estaduais.
Na prática, algumas das principais lideranças do Centrão já se movimentam na direção de Lula.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou apoio à reeleição do petista e afirmou que Lula “converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país”.
No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) recompôs a relação com o Planalto e trocou elogios públicos com Lula nesta segunda-feira (17), durante evento da Petrobras no Amapá.
Já Arthur Lira (PP-AL) recebeu de Flávio uma declaração de apoio à sua candidatura ao Senado, mas não retribuiu com apoio ao presidenciável do PL.
Kassab: “O Centrão está com Lula”
O diagnóstico mais explícito veio de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice de Ronaldo Caiado.
Diante de empresários em São Paulo, Kassab rejeitou a ideia de que o Centrão esteja realmente neutro.
“Eu discordo que os partidos de centro — que é o Centrão — estejam neutros. Eu acho que eles estão com o Lula.”
Kassab também afirmou que Flávio tem “chance zero” de vencer a eleição e previu que sua candidatura sofrerá forte desgaste quando a campanha entrar na fase de confronto direto.
“Na hora em que o jogo começar, em que o PT mostrar quem é o Flávio, as pessoas no entorno dele, ele vai desabar.”
Versão de Flávio é contestada até por aliados
A explicação de que ameaças seriam responsáveis pelo isolamento não é consensual nem dentro do campo político de Flávio.
Dirigentes do Centrão e integrantes do próprio PL atribuem parte do problema à dificuldade de articulação da campanha e à incapacidade de construir pontes com outras legendas.
O presidente do Solidariedade, Paulinho da Força, rejeitou a versão de pressão do Supremo e atribuiu a situação à falta de diálogo.
Há também um cálculo eleitoral evidente. PP, União Brasil e Republicanos possuem grupos próximos do bolsonarismo, especialmente no Sul e Sudeste, mas também dependem do eleitorado de Lula e de alianças com o PT em vários estados. A neutralidade nacional permite preservar essas composições.
Ao mesmo tempo, o governo Lula vem mantendo canais abertos com dirigentes dessas legendas e trabalhando para evitar que elas entrem formalmente na campanha de Flávio.
Sem Centrão, Flávio aposta no pai
Sem as grandes siglas, Flávio tenta compensar a falta de estrutura partidária explorando ao máximo a imagem de Jair Bolsonaro.
O ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar, não participou presencialmente do lançamento oficial da candidatura do filho, mas foi personagem central do evento.
A campanha também utilizou um vídeo produzido com inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Bolsonaro, recurso que abriu discussão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os limites do uso de conteúdo sintético na campanha.
Michelle Bolsonaro também deverá participar, principalmente pelas redes sociais, embora tenha afirmado que suas viagens serão limitadas pelos cuidados com o marido.
Flávio chega, assim, ao início da campanha sem a aliança que pretendia construir, sem o apoio formal das principais siglas do Centrão e enquanto algumas de suas lideranças se aproximam publicamente de Lula. Para explicar o isolamento, acusa integrantes do Judiciário de ameaçar partidos.
Flávio Bolsonaro faz grave acusação ao Judiciário ao tentar explicar abandono do Centrão
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