O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, abriu nesta terça-feira (18) o que chamou de “arquivos” de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e colocou no centro da primeira denúncia o advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador, e sua participação na estrutura empresarial que controla o processamento dos pagamentos das bets autorizadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
“Eu já falei algumas vezes que o Flávio Bolsonaro não tem biografia, ele tem ficha corrida. E hoje eu vou começar a abrir os arquivos e mostrar pessoas, negócios, casos suspeitos que têm ao redor dele”, afirmou Boulos no início do vídeo publicado nas redes sociais.
O primeiro “arquivo”, segundo o ministro, envolve a RioPag, antiga PixS Cobrança e Serviços em Tecnologia, empresa contratada pela Loterj para processar depósitos, pagamentos e saques relacionados às operações lotéricas no estado. A própria Loterj informa que o contrato tem valor estimado de R$ 32 milhões e duração de 60 meses, além de prever remuneração sobre as operações realizadas.
Boulos afirma que cerca de R$ 1,5 bilhão por ano em apostas passam pela operação e chama atenção para a forma como a empresa chegou ao negócio.
“Quando você começar a investigar como essa empresa conseguiu esse negócio, sabe o que vai aparecer? Um amigo pessoal do Flávio Bolsonaro”, diz, antes de apresentar Willer Tomaz.
O zero que decidiu a licitação
O episódio citado por Boulos remonta a uma licitação iniciada pela Loterj no fim de 2022 para escolher uma empresa responsável pelo processamento dos pagamentos das apostas e dos prêmios.
Duas empresas chegaram à disputa: a Idea Maker, que apresentou inicialmente proposta de repassar 26% de sua remuneração à Loterj, e a PixS, que ofereceu 20%.
A Idea Maker, porém, acabou desclassificada. Entre os motivos registrados no processo estava a forma como apresentou o percentual: 26,00%, com duas casas decimais, em vez de 26,000%, com três, conforme exigia o edital. A empresa recorreu alegando “formalismo exacerbado”. A Loterj rejeitou o recurso.
Com a concorrente fora da disputa, a PixS permaneceu no certame e, após negociação, apresentou proposta final de 26,455%, superior aos 26% inicialmente oferecidos pela Idea Maker. O percentual consta da decisão administrativa da própria Loterj.
“Duas empresas chegaram na fase final da licitação. Mas você sabe quem ganhou? Aquela que ofereceu menos. E ela ganhou graças a um erro de digitação”, resumiu Boulos.
A Loterj sustentou, à época, que havia seguido as exigências do edital e posteriormente afirmou que o procedimento havia sido validado pelo Tribunal de Justiça e pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
De PixS a RioPag
Depois da licitação, a PixS transferiu sua sede para o Rio de Janeiro e posteriormente passou a se chamar RioPag S.A.
Hoje, a própria Loterj identifica nos documentos do contrato que a empresa anteriormente denominada “PixS Cobrança e Serviços em Tecnologia S.A.” é a atual RioPag.
É neste ponto que aparece Willer Tomaz.
A RioPag pertence à Capital Pretium S.A., anteriormente chamada Pix Holding. Em reportagem publicada em julho, o próprio Tomaz confirmou que é um dos acionistas do fundo que controla a Capital Pretium e, consequentemente, a RioPag. Ele não revelou o nome do fundo nem os demais sócios. Tomaz também confirmou que seu escritório presta serviços jurídicos à empresa, mas disse não exercer sua administração.
“Ou seja, por meio desse fundo, ele participa da estrutura que controla a empresa responsável pelo processamento dos pagamentos das bets”, afirmou Boulos.
O elo político apontado por Boulos
Outro personagem citado pelo ministro é Hazenclever Lopes Cançado, que presidia a Loterj durante o processo da licitação.
Cançado assumiu a presidência da autarquia em julho de 2022, por nomeação do então governador Cláudio Castro (PL). Reportagens recentes apontam que sua chegada à Loterj ocorreu em articulação com a cúpula do PL e que, após deixar a autarquia em março deste ano, ele passou a disputar uma vaga de deputado federal pelo partido.
Boulos chama atenção ainda para o fato de que Cançado já havia atuado profissionalmente ao lado de Willer Tomaz. Essa relação profissional já havia sido identificada em reportagem da Folhapress sobre a licitação da Loterj.
Para o ministro, a sequência estabelece o caminho político e empresarial que merece ser investigado: dirigentes ligados ao PL na Loterj, uma licitação marcada pela eliminação da única concorrente da PixS e, posteriormente, a presença do amigo de Flávio Bolsonaro na estrutura societária que controla a empresa vencedora.
“Meu amigo Willer Tomaz”
A proximidade de Willer Tomaz com Flávio Bolsonaro não é apenas uma caracterização feita por adversários políticos.
O próprio Flávio já se referiu publicamente a Tomaz como “meu amigo Willer Tomaz” durante a CPI da Covid, em 2021, ao protestar contra a possibilidade de quebra dos sigilos do advogado. O episódio voltou à tona recentemente e foi recuperado pela Fórum.
A Fórum também já mostrou que Tomaz mantém relação próxima com o senador há anos, inclusive em viagens. Em abril, uma reportagem mostrou que o advogado havia acompanhado Flávio em deslocamentos internacionais.
Isso, entretanto, não significa que Flávio Bolsonaro seja sócio da RioPag ou tenha participado da licitação da Loterj. A acusação apresentada por Boulos é de que um amigo próximo do senador integra a estrutura empresarial beneficiada pelo contrato e mantém relações profissionais com personagens envolvidos no processo.
Assista ao vídeo de Boulos:
https://x.com/GuilhermeBoulos/status/2089763775423689118
RioPag já entrou na mira do próprio governo do Rio
O negócio ganhou um capítulo ainda mais explosivo em 2026.
Em julho, a própria Loterj acusou a RioPag de reter R$ 20,9 milhões pertencentes ao estado. Segundo a autarquia, uma apuração administrativa apontou retenção indevida dos recursos e o caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral do Estado para adoção de medidas judiciais.
Dias depois, a Justiça do Rio determinou o bloqueio de R$ 20,9 milhões em bens da RioPag, conforme noticiou a Fórum.
A empresa nega qualquer apropriação ou retenção indevida. A RioPag afirma que os recursos permaneceram preservados e aplicados em um fundo, em regime de custódia estabelecido por determinação da própria Loterj, e que o dinheiro será liberado em outubro. Willer Tomaz também nega exercer função de gestão na companhia e sustenta que atua apenas como advogado da empresa.
Boulos, no entanto, avisa que o caso das bets é apenas o primeiro capítulo.
“Presta atenção: uma licitação decidida por um erro de digitação, um contrato que movimenta bilhões de reais”, afirmou.
E prometeu continuar abrindo os “arquivos” sobre as relações de Flávio Bolsonaro.
“Esses são os personagens. Mas esse ainda não é o único cenário.”
Boulos denuncia elo entre Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e negócio bilionário das bets no RJ
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