Ir atrás de Lulinha na Espanha é a nova “mesa de dinheiro do dossiê” de 2006

Ir atrás de Lulinha na Espanha é a nova “mesa de dinheiro do dossiê” de 2006
- O presidente Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A história política brasileira carrega uma constância incômoda: sempre que um pleito presidencial se aproxima e os setores progressistas mantêm a preferência popular, aciona-se nas engrenagens da imprensa corporativa e da extrema direita uma fábrica subterrânea de “escândalos” confusos. Não se trata de jornalismo investigativo voltado ao interesse público, mas de um método calculado de guerra de informação. Uma descoberta da Fórum nos últimos dias revela o capítulo mais recente dessa engrenagem: uma tradicional e antiga publicação semanal de perfil historicamente antipetista e um portal digital mais novo, de grande alcance, umbilicalmente alinhado ao bolsonarismo, enviaram equipes de reportagem à Espanha. O objetivo do desembarque europeu não é cobrir fatos novos ou reais, mas montar uma encenação de perseguição às vésperas da eleição presidencial, tendo como alvo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Residindo legalmente no país europeu, o empresário não responde a nenhum processo, não tem condenação, não possui ordens de prisão e transita em absoluta liberdade sem qualquer impedimento judicial no Brasil ou no exterior. Contudo, no xadrez eleitoral do país, a presença provocativa de repórteres em solo espanhol cumpre uma missão encomendada por setores da oposição: criar um espetáculo de intimidação para resgatar ilações, desgastar a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e tentar alavancar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
A escolha de Lulinha como bode expiatório não é fortuita nem recente. Há pelo menos 12 anos, o empresário foi transformado no “dispositivo contaminante” perfeito para a oposição e para a mídia tradicional. Na impossibilidade de desconstruir o legado político de seu pai no debate direto, criou-se em torno do filho um ecossistema de lendas urbanas mambembes e difamação sistemática. Desde meados dos anos 2010, o imaginário conservador foi alimentado com mentiras grotescas: a apócrifa “Ferrari de ouro”, a colossal fazenda imaginária no Mato Grosso que supostamente seria “do tamanho de um estado”, e a farsesca acusação de que ele seria o verdadeiro proprietário oculto do conglomerado alimentício Friboi. Nenhuma dessas histórias tinha pé nem cabeça ou qualquer respaldo na realidade, mas funcionaram como combustível para sangrar a família do presidente na arena pública. Ainda assim, nunca impediram vitórias dele ou de sua indicada, a ex-presidenta Dilma Rousseff.
O elemento mais escandaloso dessa perseguição é que, ao longo de quase uma década e meia de devassas fiscais, quebras de sigilo, inquéritos policiais e comissões parlamentares, jamais se apresentou uma acusação formal de crime, uma denúncia objetiva ou uma única prova de corrupção contra Lulinha. No início deste ano, durante o circo montado na CPMI do INSS, o empresário teve seu sigilo bancário devassado e devidamente exposto por adversários políticos. O resultado de meses de “trabalho duro” do bolsonarismo? Nada. Absolutamente nenhum repasse ilegal, nenhuma conta secreta, nenhuma movimentação incompatível com suas atividades empresariais legais. Diante do vazio absoluto de indícios, a imprensa corporativa e a extrema direita passaram a adotar um truque manjado: pegar conversas banais, fragmentadas e cotidianas entre sócios e amigos, atribuir a elas um ar de mistério e decretar, de forma leviana, que “desta vez há crime”.
É preciso registrar, com o devido rigor jornalístico e a estrita isenção que orientam o debate maduro, que não é papel da imprensa, nem da Fórum, emitir atestados prévios de inocência para quem quer que seja. O próprio presidente Lula já reiterou publicamente essa posição em diversas ocasiões, afirmando que seus filhos são adultos, homens feitos e responsáveis por seus próprios caminhos, e que se qualquer um deles cometer algo errado, terá que responder individualmente perante a lei e a Justiça. A denúncia que se faz aqui não é a defesa de privilégios, mas a constatação de um duplo padrão desonesto: constrói-se uma acusação sem fato gerador, sem conduta ilícita descrita e sem o menor respaldo técnico.
Essa apavorante rotina de linchamento familiar não é uma novidade, é a reprise exata do método aplicado há 20 anos no chamado “Escândalo do Dossiê” (ou o “caso dos Aloprados”), em setembro de 2006. Naquele momento, Lula liderava com folga todas as pesquisas e caminhava para fechar a fatura da reeleição ainda no primeiro turno. O governo e o comitê oficial não tinham o menor motivo para se aventurar em operações subterrâneas. Entretanto, quando membros isolados da campanha, um quarteto de “estrategistas”, supostamente agiram por conta própria para tentar comprar um dossiê contra os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin junto à máfia dos sanguessugas, a imprensa corporativa encontrou a brecha que procurava para armar um circo sem precedentes. Entretanto, pior do que a acusação que tentavam noticiar foi a conduta vergonhosa que o próprio “jornalismo” desses veículos tomou.
A engrenagem do golpe editorial de 2006 atingiu seu cume na véspera da votação. A cúpula da Polícia Federal e o Ministério da Justiça, sob o comando do jurista Márcio Thomaz Bastos, agiram com a lucidez que a responsabilidade institucional exigia: decretaram o sigilo do inquérito e vetaram categoricamente a divulgação das fotos do dinheiro apreendido. A avaliação técnica era óbvia: a notícia era livre, mas exibir montanhas de notas de R$ 50 e R$ 100 a 48 horas da eleição configurava uma intervenção criminosa no pleito, para além de sem sentido jornalístico. Contudo, movido pela sanha antipetista e pela busca por holofotes, o delegado do caso desrespeitou abertamente as ordens superiores, gravou as imagens em CDs e fez um show nos estacionamentos da PF, entregando os arquivos diretamente à imprensa.
A partir daquele vazamento ilegal, a grande mídia “deitou e rolou”. As capas das revistas e as edições dos telejornais transformaram as pilhas de cédulas no único assunto do país na reta final. A espetacularização descontextualizada cumpriu seu papel: drenou votos no limite das apurações, impediu a vitória de Lula no primeiro turno e forçou uma segunda rodada de votação. O nível de manipulação provocou uma revolta histórica nos bastidores das próprias redações. O repórter Rodrigo Vianna, que cobria o caso pela TV Globo em São Paulo, insurgiu-se contra o tratamento abertamente parcial da emissora. Vianna saiu da maior TV do país e publicou uma memorável carta aberta denunciando a desonestidade editorial e o uso do jornalismo como ferramenta de sabotagem eleitoral.
O desembarque dos repórteres desses veículos na Espanha 20 anos depois do episódio de 2006 comprova que a extrema direita e a dita imprensa “tradicional” continuam operando sob a mesma cartilha. Diante da incapacidade de derrotar o projeto progressista na arena das ideias e do debate econômico, apela-se novamente à fabricação de escândalos familiares e ao linchamento midiático. O circo montado no exterior na tentativa de influenciar a disputa presidencial é a prova viva de que o golpismo editorial não mudou de endereço; apenas trocou de personagem para tentar ferir, mais uma vez, a soberania do voto popular.

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