Constrangido, Tarcísio revela por que seu partido abandonou Flávio Bolsonaro

Constrangido, Tarcísio revela por que seu partido abandonou Flávio Bolsonaro
TCU apura infiltração do PCC no governo de Tarcísio Gomes de Freitas - Foto: Paulo Guereta/Gov SP

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou nesta quinta-feira (20) de uma sabatina promovida pela CBN.
Durante a conversa, Tarcísio de Freitas, que busca mais um mandato à frente do Palácio dos Bandeirantes, explicou, um tanto constrangido, por que seu partido e o Centrão abandonaram a candidatura de Flávio e optaram pela neutralidade.
Tarcísio afirmou que seu partido, o Republicanos, e o Centrão como um todo preferem formar bancadas a se vincular a um projeto de poder para o Brasil:
“Temos vários parlamentares que preferem estar mais próximos ao PT e ao presidente Lula no Nordeste. Tem parlamentares que preferem estar juntos do Flávio Bolsonaro no Sudeste […] A gente perdeu a capacidade de estabelecer consensos no Brasil. Houve o tempo em que os partidos organizavam a política e a gente perdeu esse tempo. Então hoje a política se desorganizou e, quando a política se desorganiza, as instituições se desorganizam juntas.”
Tarcísio rebate Flávio Bolsonaro e defende urnas eletrônicas
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), repudiou as falas de Flávio Bolsonaro (PL), seu aliado e candidato à Presidência da República, sobre as urnas eletrônicas.
Durante uma reunião com diplomatas, Flávio Bolsonaro repetiu o discurso de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e colocou em dúvida a lisura das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro como um todo.
“[Confio nas urnas] foram elas que me elegeram. (…) Acho que a gente precisa discutir o país. Acho que a gente precisa discutir para que rumo a gente vai caminhar. Qual é o rumo dos dois lados. Eu acho que a gente precisa botar isso na mesa. E da nossa parte eu tenho visto, né? O esforço da equipe do Flávio de construir um plano de apresentar o plano”, declarou Tarcísio de Freitas.
A declaração de Tarcísio de Freitas ocorreu durante sabatina organizada pela CBN.
Flávio Bolsonaro repete tática do pai e difunde desinformação sobre urnas a embaixadores
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, usou um evento com representantes diplomáticos de 42 países em Brasília, nesta terça-feira (21), para disseminar informações falsas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, associando-as à empresa venezuelana Smartmatic. No mesmo discurso, pediu que os países enviem “a maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, citando documentos da CIA sobre supostas fraudes eleitorais na Venezuela. O episódio repete, ponto a ponto, a estratégia de seu pai, Jair Bolsonaro, declarado inelegível pelo TSE após reunião semelhante com embaixadores em 2022.
O evento “Debatendo o Brasil”, organizado pelo site The Brazilian Report e pela agência Novo Selo Comunicação, reuniu membros do corpo diplomático de nações como Estados Unidos, Israel, Reino Unido, África do Sul, Austrália, Alemanha e Paraguai, entre outros. Foi diante dessa plateia que Flávio Bolsonaro escolheu evocar documentos da CIA, divulgados pela gestão Trump na semana anterior, que apontam suspeitas sobre o processo eleitoral venezuelano, para então fazer uma conexão sem respaldo com o sistema eleitoral brasileiro.
“Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela”, disse o senador. Na sequência, afirmou que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, empresa citada no documento da CIA como suspeita de envolvimento em manipulação de votos nas eleições venezuelanas de 2010 e 2012.
A partir dessa premissa falsa, Flávio fez seu pedido central à plateia estrangeira: “O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes.”
As informações falsas e os desmentidos do TSE
A afirmação de Flávio Bolsonaro não tem sustentação factual. O TSE desmentiu publicamente a ligação entre a Smartmatic e as urnas eletrônicas brasileiras em 2017, 2020, 2022 e novamente em julho de 2026, quando foi procurado sobre a fala do senador. A nota do tribunal é categórica: “São falsas as mensagens que circulam nas redes sociais segundo as quais a empresa Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados em urnas no Brasil. Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país.”
A Smartmatic, de fato, teve relação com o TSE, mas em escopo completamente distinto do alegado pelo senador. Segundo a Justiça Eleitoral, a empresa celebrou contratos apenas para prestação de serviços de conexão de dados e voz, além de treinamento de profissionais de suporte técnico. Ela não fabricou, não programou e não operou nenhum equipamento de votação. A empresa ainda participou de licitação para fabricação de urnas para 2020, mas perdeu o processo para a empresa Positivo.
O TSE reforça que o sistema eletrônico de votação “utiliza meios próprios e criptografados de comunicação e transmissão de dados, não tendo nenhum contato com redes públicas, como a internet”, e que, em mais de 20 anos, foi “reiteradamente testado e comprovadamente isento de quaisquer formas de manipulação”.
A tática de descredibilização e o pedido de observadores
A cena em Brasília tem um precedente direto e juridicamente relevante. Em 2022, Jair Bolsonaro convocou embaixadores para uma reunião transmitida pela televisão pública e questionou o sistema eleitoral sem apresentar provas. O TSE considerou que o ex-presidente cometeu abuso de poder político ao propagar informações já desmentidas, o que resultou em sua declaração de inelegibilidade. O próprio Flávio mencionou o episódio no discurso, descrevendo o pai como alguém que “apenas manifestava suas preocupações” — uma releitura que o tribunal eleitoral, à época, não aceitou.
A contradição interna do discurso de Flávio é flagrante: ao mesmo tempo em que declarou “não estar questionando o sistema de votação brasileiro”, o senador usou informações falsas sobre a origem das urnas para justificar o pedido de observadores com “conhecimento sobre essa tecnologia”. Afirmar que as urnas têm origem suspeita e, na frase seguinte, dizer que não está questionando o sistema é uma construção que não se sustenta.
A difusão de desinformação para diplomatas estrangeiros funciona como uma tentativa de internacionalizar a narrativa de fraude, desgastando a imagem do Brasil no exterior e preparando o terreno para contestações futuras do resultado eleitoral, caso o pleito de outubro não produza o resultado esperado pelo campo bolsonarista.
O padrão é o mesmo que levou o pai à inelegibilidade: usar um fórum diplomático para plantar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral, com informações que o próprio TSE já havia refutado publicamente. A diferença é que Flávio fez questão de lembrar o destino do pai antes de repetir o roteiro.

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