Perito de Dark Horse desmente Flávio Bolsonaro: dinheiro do filme ainda não foi explicado

Perito de Dark Horse desmente Flávio Bolsonaro: dinheiro do filme ainda não foi explicado
Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução/Redes Sociais e Divulgação

Flávio Bolsonaro declarou nesta quinta-feira (20) que o dinheiro de Dark Horse já estava explicado e que, de sua parte, o assunto era “página virada”. O perito de Dark Horse responsável pelo laudo usado pelo senador para sustentar essa versão, porém, admitiu horas depois que a perícia deixa abertas questões centrais sobre os gastos do filme de Jair Bolsonaro. Anísio Costa Castelo Branco afirmou que o trabalho não analisou se os valores pagos pela produção eram compatíveis com os preços do mercado cinematográfico e também não rastreou o que aconteceu com o dinheiro depois que os recursos chegaram a empresas contratadas.
As revelações foram feitas em entrevista ao jornalista Paulo Motoryn, autor da apuração original. Castelo Branco, presidente do Instituto de Perícia Investigativa, revelou ainda que a Polícia Federal pediu informações mais detalhadas sobre transferências, despesas operacionais e custos de Dark Horse.
A admissão vem um dia depois de Flávio Bolsonaro afirmar que o caso Dark Horse estava encerrado. Como mostrou a Fórum, o senador disse que a prestação de contas havia sido feita e tentou afastar novas cobranças sobre os milhões de dólares negociados com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar a cinebiografia de seu pai.
“Da nossa parte, está tudo página virada.”
A prestação de contas citada por Flávio é uma perícia privada produzida a pedido da defesa de Karina Ferreira da Gama, responsável pela GoUp Entertainment, produtora de Dark Horse. O documento foi anexado a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo e passou a ser apresentado pelo senador como resposta às dúvidas sobre o caminho do dinheiro.
Perito de Dark Horse admite que não sabe o destino final do dinheiro
Uma das principais limitações do laudo aparece justamente depois que o dinheiro chega aos fornecedores. Castelo Branco afirmou que consegue identificar pagamentos feitos pela produção, mas não o que aconteceu com os recursos a partir daí.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de o dinheiro ter sido posteriormente repassado a terceiros, respondeu:
“Não consigo controlar o que acontece da terceira camada para trás.”
Segundo o próprio perito, para avançar nessa etapa seria necessário investigar as empresas que receberam os valores e seus respectivos prestadores de serviço.
É uma lacuna relevante porque uma das perguntas que acompanha o caso desde a revelação das negociações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro é se todo o dinheiro obtido para Dark Horse foi efetivamente consumido pela produção.
Castelo Branco afirmou possuir registros das transferências feitas pelo Havengate Development LP, fundo sediado no Texas, para a GoUp Entertainment. Segundo ele, a maior parte, possivelmente quase a totalidade, dos recursos identificados como usados no filme veio do Havengate.
Perito não analisou se gastos estavam dentro dos preços de mercado
Outro ponto que ficou fora da perícia foi a comparação entre os gastos apresentados pela produção e os preços praticados no mercado audiovisual.
Motoryn perguntou diretamente a Castelo Branco se esse tipo de análise havia sido realizado.
“Não, eu não fiz esse tipo de análise.”
O perito disse que seu trabalho se limitou a verificar transferências, levantar custos nacionais e internacionais e analisar eventual presença de dinheiro público. Avaliar se uma despesa era alta, baixa ou compatível com os preços cobrados no cinema não fazia parte do escopo.
Castelo Branco reconheceu que, caso fosse contratado especificamente para esse tipo de avaliação, precisaria recorrer a especialistas e realizar pesquisas e comparações.
Assim, embora a perícia registre pagamentos e apresente valores atribuídos à produção, ela não estabelece se os serviços contratados custaram o que normalmente custariam em uma produção cinematográfica semelhante.
Polícia Federal pediu mais informações sobre Dark Horse
A ideia de que o assunto está encerrado também esbarra em uma nova frente da investigação. Castelo Branco revelou que a Polícia Federal enviou um ofício pedindo informações mais detalhadas sobre o trabalho realizado.
Segundo ele, a requisição envolve transferências, despesas operacionais e custos do filme. A equipe responsável pelo laudo acusou o recebimento e pediu à PF que esclarecesse como pretende receber os dados solicitados.
“Muitas coisas que você está aqui perguntando talvez eu até tenha mesmo que responder por conta do ofício da Polícia Federal, de uma forma mais clara.”
Castelo Branco confirmou ainda que os registros das transferências do Havengate para a produtora estão entre os documentos de interesse da investigação e afirmou possuir informações que não foram individualizadas no laudo divulgado até agora, incluindo dados de pessoas e empresas que receberam pagamentos.
Flávio tentou encerrar a cobrança dizendo que a prestação de contas estava feita. O perito responsável pelo documento, porém, reconhece que não acompanhou o dinheiro depois de determinada etapa, não comparou os gastos com os preços do mercado cinematográfico e agora terá de prestar novos esclarecimentos à PF.
A “página virada” de Flávio, ao menos para quem investiga o caminho do dinheiro de Dark Horse, segue aberta.

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