Dark Horse: a conta que Flávio quer fechar sem prestar contas

Dark Horse: a conta que Flávio quer fechar sem prestar contas
O senador Flávio Bolsonaro, abandonado pelo centrão - Foto: Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress

Flávio Bolsonaro diz que “Dark Horse” é página virada. As contas, porém, continuam abertas. Em uma coletiva no Mercado Municipal de São Miguel Paulista, o senador e candidato à Presidência afirmou que a prestação de contas do filme “já aconteceu”. Não detalhou quanto foi efetivamente gasto, quem financiou a produção, por onde os recursos circularam nem quais documentos sustentariam sua afirmação. Limitou-se a dizer que um material teria vazado de um processo e que estaria tudo em ordem.
A afirmação contrasta com um compromisso assumido pelo próprio candidato. Em 19 de maio, diante da repercussão sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e os recursos destinados à produção sobre a trajetória política do pai, Flávio havia anunciado que a produtora apresentaria um relatório detalhando as despesas e a destinação dos valores.
O prazo terminou em 18 de junho. Mais de dois meses depois, esse detalhamento não veio. Em seu lugar, Flávio tomou como suficiente um material que já constava de outro processo e que não responde integralmente às perguntas que deram origem à cobrança. O ponto central está aí: sua declaração procura tratar como encerrada uma apuração que os elementos apresentados ainda não permitem esclarecer por completo.
Trata-se de uma perícia privada, contratada pela defesa da produtora, que aponta custo de aproximadamente R$ 75 milhões — R$ 20,9 milhões gastos no Brasil e o restante nos Estados Unidos. O laudo atribui a origem dos recursos analisados ao Havengate Development Fund, veículo americano administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, e sustenta que os valores examinados têm natureza privada.
O ponto decisivo está no que a perícia não esclarece. O documento não identifica integralmente os financiadores por trás do fundo nem oferece documentação suficiente para reconstruir, de ponta a ponta, a movimentação dos recursos. A lacuna ganha relevância porque o Banco Master, de Daniel Vorcaro, transferiu ao Havengate cerca de US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões — em operação relacionada ao financiamento da produção.
Um laudo que informa quanto foi gasto, mas não esclarece integralmente a origem dos recursos, não corresponde ao detalhamento que havia sido anunciado. É uma resposta parcial apresentada como suficiente. O ponto não é impedir Flávio de afirmar que as contas estão corretas. É exigir que essa afirmação seja acompanhada da documentação capaz de sustentá-la.
O compromisso anunciado ia além de informar o custo total da obra. Envolvia esclarecer como os recursos entraram, por onde circularam e a quem foram destinados — além de colocar à disposição das autoridades brasileiras os valores relacionados a Vorcaro. Nada disso está suficientemente esclarecido na perícia, nem foi detalhado na declaração do candidato. Há uma cifra, mas não há rastreabilidade suficiente para reconstruir toda a operação. Sem possibilidade de conferência independente, a transparência permanece incompleta.
Diante dessa lacuna, Flávio preferiu deslocar o foco para fatos e personagens de outras investigações, em vez de detalhar a origem e a destinação dos recursos que estão no centro da controvérsia. Essa mudança de eixo, porém, não responde às perguntas que permanecem abertas sobre os cerca de R$ 61 milhões transferidos por Vorcaro para o fundo relacionado à produção.
A controvérsia tampouco se limita ao debate político. A Polícia Federal apura os repasses relacionados à produção e eventual uso de emendas parlamentares em entidades ligadas à produtora, enquanto o episódio chegou à Câmara dos Deputados como objeto de fiscalização. Há, portanto, instituições formalmente examinando a origem e o trajeto de valores milionários enviados ao exterior. Nesse contexto, declarar o assunto encerrado não constitui uma conclusão: significa antecipar um desfecho que as investigações ainda não produziram.
A lisura de uma operação financeira se sustenta em documentos que possam ser examinados e confrontados, não apenas na palavra de quem dela participou. Se está tudo certo, como afirma o candidato, a resposta mais consistente seria apresentar os elementos que permitam essa verificação. É justamente isso que continua faltando.
Flávio pode sustentar que as contas estão corretas, contestar as investigações e considerar a controvérsia encerrada. Pode defender sua versão dos fatos e atribuir a outros as responsabilidades que entender cabíveis. O que não pode fazer é pedir que sua palavra ocupe o lugar dos documentos que a própria natureza da controvérsia exige.
Prestação de contas não é um ato de autoridade. Não se encerra quando quem deve explicações declara que já as deu. Exige que os números possam ser rastreados, os valores identificados e os documentos examinados por quem tem o direito de conferir. A transparência não nasce da confiança que o político reivindica, mas daquilo que ele consegue demonstrar.
É por isso que a questão permanece aberta. A explicação ainda não foi oferecida em toda a extensão que o compromisso anunciado exigia. No espaço público, uma controvérsia não se resolve por decreto: quando faltam elementos para conferir a conta, ela continua aberta.
É exatamente onde “Dark Horse” permanece: não na página que Flávio decidiu virar, mas na conta que ainda espera pelos documentos capazes de fechá-la.
* Marcelo Copelli, jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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