O chamado “LuNeto” voltou ao centro da disputa eleitoral na Bahia. A expressão descreve o voto combinado em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República e em ACM Neto (União Brasil) para o governo do estado.
Aliados de ACM Neto passaram a promover a dobradinha em materiais de campanha e declarações públicas, numa tentativa de aproximar o candidato do União Brasil do eleitorado lulista.
A movimentação ocorre apesar de Lula apoiar oficialmente a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT).
“LuNeto” reaparece nas eleições de 2026
A combinação entre Lula e ACM Neto não é novidade na política baiana.
Em 2022, quando Neto evitou declarar apoio formal a um candidato à Presidência no segundo turno, aliados seus anunciaram voto em Lula. Surgiu daí a associação entre o petista na disputa nacional e o então candidato do União Brasil na eleição estadual.
Em 2026, porém, a estratégia ganhou espaço dentro das próprias alianças construídas por ACM Neto.
O candidato decidiu não vincular sua coligação a uma única candidatura presidencial, permitindo que seus aliados façam diferentes escolhas para o Palácio do Planalto.
O próprio ACM Neto declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD), enquanto setores de sua base caminham com outros presidenciáveis. Na Bahia, o PL apoia Flávio Bolsonaro.
Essa configuração permite que aliados de Neto em municípios onde Lula possui forte apoio eleitoral defendam abertamente a combinação “Lula presidente e ACM Neto governador”.
Aliados já fazem campanha por Lula e ACM Neto
Um dos exemplos é o presidente da Câmara Municipal de Salvador, Carlos Muniz.
Muniz declarou voto em Lula para presidente e, ao mesmo tempo, confirmou apoio a ACM Neto para o governo da Bahia.
O vereador também afirmou que participará ativamente da campanha de Neto e trabalhará “voto a voto” por sua eleição e pelos candidatos ao Senado da chapa oposicionista.
Em materiais de campanha, a estratégia pode aparecer de maneira ainda mais direta, com os nomes de Lula e ACM Neto apresentados ao eleitor na mesma peça.
A intenção é alcançar principalmente o eleitor que apoia Lula nacionalmente, mas não necessariamente transfere esse voto para Jerônimo Rodrigues na disputa estadual.
Pesquisas mostram disputa apertada pelo governo
Os números das pesquisas ajudam a explicar a movimentação.
Levantamento Genial/Quaest divulgado em julho apontou Lula com 52% das intenções de voto para presidente na Bahia, contra 18% de Flávio Bolsonaro.
Na disputa estadual, a mesma pesquisa mostrou um cenário muito mais equilibrado: ACM Neto apareceu com 39% e Jerônimo Rodrigues com 38%, configurando empate técnico dentro da margem de erro.
Outros levantamentos também registraram uma disputa competitiva pelo governo baiano.
Pesquisa DataTrends realizada em junho apontou ACM Neto com 49% e Jerônimo com 39%. Já levantamento do Real Time Big Data, divulgado em março, mostrou Neto com 44% e o governador com 39%.
O contraste entre a força eleitoral de Lula na Bahia e uma disputa estadual mais equilibrada abre espaço justamente para o voto cruzado explorado pela campanha de ACM Neto.
Resultado de 2022 ajuda a explicar estratégia
A eleição passada já demonstrou que o voto em Lula na Bahia não é automaticamente transferido para o candidato petista ao governo.
No segundo turno presidencial de 2022, Lula conquistou 72,12% dos votos válidos no estado.
Na disputa pelo governo, Jerônimo Rodrigues também venceu, mas enfrentou uma corrida muito mais apertada contra ACM Neto.
O petista recebeu 4.480.464 votos, contra 4.007.023 de Neto.
A diferença entre o desempenho de Lula e o de Jerônimo mostrou a existência de um contingente de eleitores disposto a votar no PT para a Presidência e fazer outra escolha na eleição estadual.
É justamente esse eleitor que a estratégia do “LuNeto” tenta alcançar novamente em 2026.
Lula apoia Jerônimo Rodrigues
Apesar da tentativa de associar os dois nomes, Lula tem candidato definido na Bahia.
O presidente participou da convenção que oficializou Jerônimo Rodrigues como candidato à reeleição e manifestou publicamente apoio à chapa petista no estado.
A aliança também tem Geraldo Júnior como candidato a vice-governador e Rui Costa e Jaques Wagner na disputa pelo Senado.
O desafio para a campanha de Jerônimo, portanto, é ampliar a transferência do voto de Lula para a eleição estadual.
Já para ACM Neto, a estratégia é diferente: conquistar uma parcela do eleitorado lulista sem exigir que esse eleitor abandone Lula na disputa presidencial.
É nesse espaço entre a eleição nacional e a estadual que o “LuNeto” voltou a ganhar força na campanha baiana de 2026.
“Lulécio”
A estratégia de combinar Lula com um candidato de outro campo político não é inédita. Um dos casos mais conhecidos ocorreu em Minas Gerais, nas eleições de 2006, quando ganhou força o chamado “Lulécio” — voto simultâneo em Luiz Inácio Lula da Silva para presidente e Aécio Neves (PSDB) para governador.
Naquele momento, Aécio buscava a reeleição e evitou transformar a disputa mineira em um confronto direto com Lula, que tinha forte apoio no estado. A combinação permitia ao eleitor manter o voto no petista para a Presidência e, ao mesmo tempo, apoiar o tucano para o governo de Minas.
O resultado mostrou a força do voto cruzado. Aécio foi reeleito governador no primeiro turno, enquanto Lula também venceu com ampla vantagem entre os eleitores mineiros na disputa presidencial.
Em 2010, quando Aécio deixou o governo para disputar o Senado, a lógica voltou a aparecer na política mineira. Seu aliado Antonio Anastasia concorreu ao governo, enquanto José Serra era o candidato oficial do PSDB à Presidência. Naquele contexto, o grupo de Aécio chegou a ser acusado por setores tucanos de concentrar esforços nas candidaturas estaduais e não se empenhar com a mesma intensidade pela campanha presidencial de Serra.
Com informações do Acesse Política, Vilela 24 Horas e É Notícia
Luneto repete Lulécio e vira movimento político de ACM na Bahia
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