Dizem os compêndios da sabedoria popular que não há nada mais perigoso no universo da política do que um carioca fingindo ingenuidade. Pois o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), carioca de nascimento, criado nos labirintos da burocracia de Brasília e mestre na arte da sobrevivência, resolveu aplicar a mais refinada malandragem de sua terra natal sobre o filho “zero um” do ex-presidente, um fluminense de Resende que, na equação da rusga, ocupa o espaço do “otário”, como diria Bezerra da Silva.
Pois bem. O alvo da travessura, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Palácio do Planalto, vem sendo submetido a uma rotina de humilhações públicas, chá de cadeira e desencontros calculados. Nos bastidores da extrema direita, o diagnóstico é de que o clima azedou de vez: Tarcísio está fazendo Flávio de bobo, e o pior é que o senador precisa fingir que não percebe para não passar recibo de paspalho.
O quadro geral revela o que a sabedoria das redes batizou como um “acordo caracu” entre os dois, no qual Tarcísio entrou com a cara e Flávio sabe-se lá com o quê. De um lado, está um candidato a presidente vulnerável, desesperado pelo apoio da máquina do maior colégio eleitoral do país para compensar a sova que sabe que vai levar no Nordeste. Do outro, um governador que administra a própria popularidade com calculadora de precisão na mão e pratica um sistemático ghosting presencial toda vez que o herdeiro do clã tenta arranjá-lo para uma foto pública na metrópole paulistana ou em qualquer outro canto.
A mais recente rodada do levantamento Quaest veio para colocar lenha nessa fogueira. Tarcísio passeia com folga na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, ostentando confortáveis 40% das intenções de voto no estado de São Paulo. Enquanto isso, Flávio amarga um modesto empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na capital e no estado, beliscando apenas 30%. O contraste é gritante: Tarcísio é dez pontos percentuais maior em São Paulo do que o próprio presidenciável que ele teoricamente deveria alavancar.
Fenômeno “Tarula” e a esquiva na metrópole
O motivo pelo qual Tarcísio finge que perdeu o sinal de celular quando a equipe de Flávio liga não é mistério. Uma autópsia detalhada das pesquisas mostra que o ex-ministro da Infraestrutura conseguiu furar a bolha da polarização. Impressionantes 22% dos eleitores paulistas que se declaram progressistas ou lulistas afirmam que votarão em Tarcísio para o governo e em Lula para a Presidência. É a emergência do voto batizada pela imprensa de “Tarula”, uma dobradinha exótica aparentemente paradoxal.
Para completar o pesadelo do clã, Tarcísio lidera com folga entre os eleitores independentes e de centro, abocanhando 27% desse segmento no primeiro turno e até 35% nas simulações de segundo turno. Flávio, por sua vez, é rejeitado por esse eleitorado moderado e mal atinge um em cada dez independentes paulistas.
Diante desse quadro, associar-se umbilicalmente à imagem do filho de Jair Bolsonaro na capital paulista é, na avaliação do entorno do Bandeirantes, um verdadeiro suicídio eleitoral. A metrópole, ambiente cosmopolita e refratário ao radicalismo ideológico, onde Lula venceu as duas etapas de 2022, não tolera os acenos ao extremismo. Foi exatamente por isso que, na primeira grande agenda de rua de Flávio Bolsonaro na capital de SP, Tarcísio operou uma manobra diplomática digna de nota: inventou uma “imprevista e inadiável” sobrecarga de compromissos oficiais e deixou o candidato a presidente no vácuo.
Para não deixar o “zero um” vagando sozinho pela capital como um fantasma, o governador escalou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) para o papel de cicerone. Interlocutores da política paulistana descrevem a cena sem piedade: cabia a Nunes, em uma postura servil de quem rasteja desesperadamente em busca do beneplácito do clã, escoltar o senador pelos compromissos paulistanos, enquanto o dono da caneta estadual mantinha uma distância bem segura para “não se queimar”.
Refúgio no interior e o xadrez para 2030
Para que o atrito não virasse um rompimento ruidoso e irreversível antes da hora, o Palácio dos Bandeirantes tratou de lançar uma miragem no horizonte: ofereceu como prêmio de consolação uma agenda conjunta no interior do estado, na tradicional Festa do Peão de Barretos.
O cálculo é puramente pragmático. O interior paulista, de perfil marcadamente conservador e fortemente vinculado ao agronegócio, é encarado pela equipe de Tarcísio como um “território blindado”. Lá, dividir o palanque com o herdeiro do bolsonarismo não gera a mesma rejeição que provocaria no centro de São Paulo. Mas, até a chegada desses eventos pontuais na arena do sertanejo, a ordem é aplicar o “método enrolação”: empurrar as agendas conjuntas com a barriga até onde for possível, sob a alegação de que o empenho “de verdade” só ocorrerá em um eventual segundo turno.
O tempero mais indigesto dessa relação, contudo, é a projeção de longo prazo. Nos bastidores do poder, ninguém é ingênuo: Tarcísio de Freitas já enxerga Flávio Bolsonaro não como um aliado a ser salvo, mas como um concorrente direto pelo espólio da direita na disputa presidencial de 2030. Uma eventual derrota do senador nas urnas em 2026 limpa o terreno e remove o herdeiro hereditário da corrida daqui a quatro anos, deixando o caminho livre para a consolidação nacional do governador.
A estratégia de Tarcísio exige uma equilibrada corda bamba. Ignorar sumariamente a família Bolsonaro traz riscos evidentes, já que a base fisiológica de seu eleitorado ainda se alimenta do bolsonarismo raiz, que não hesitaria em carimbar o selo de “traidor” em sua testa caso a sabotagem fique escancarada. Para manter o capital político e garantir a benção da família no futuro, Tarcísio precisa encenar apoio público no interior, enquanto reza discretamente para que Flávio naufrague no meio do caminho.
O resultado dessa engenharia é um espetáculo de cinismo em praça pública. De um lado, Tarcísio sorri para as câmeras, distribui afagos públicos ao “herdeiro” e promete engajamento. Do outro, dá rasteiras táticas na agenda da capital, protege sua margem de votos ao centro e faz o senador passar por bobo em rede nacional. Resta saber até quando Flávio Bolsonaro aguentará o papel de figurante enganado antes que a crise saia do controle e o circo da extrema direita pegue fogo de vez.
Tarcísio faz Flávio de Bolsonaro de “bobo” e clima na campanha azeda de vez
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