André Mendonça X Polícia Federal (PF) já acumulavam meses de atrito quando a crise envolvendo o Banco Master chegou ao centro do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro passado. Antes de o relatório sobre os contatos de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes se tornar público, o gabinete do ministro e a Polícia Federal haviam entrado em choque por mudanças de equipes, acesso a dados, prazos de perícia e vazamentos.
Ao mesmo tempo, investigações relacionadas ao projeto Dark Horse avançavam em duas frentes no Supremo. Uma estava sob relatoria de Mendonça e já incluía Flávio Bolsonaro entre os investigados. Outra, conduzida no gabinete de Flávio Dino, tratava de emendas parlamentares e agentes ligados ao projeto.
A sequência começa antes mesmo de Mendonça assumir as apurações do Master. Em março de 2025, Daniel Vorcaro se reuniu reservadamente com o ministro em São Paulo. A Fórum publicou o encontro em 2 de setembro, a partir de mensagens e áudios que registraram a articulação da aproximação.
André Mendonça X Policia Federal: a cronologia completa da crise
Os principais episódios, em ordem, mostram como o desgaste antecedeu a entrada de Moraes no caso e avançou em paralelo às investigações de Dark Horse.
14 MAR 2025
ANTECEDENTE
Mendonça se encontra com Daniel Vorcaro em São Paulo
Daniel Vorcaro esteve com André Mendonça em endereço ligado ao Instituto Iter. Segundo material obtido pela Fórum, a aproximação foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares, com participação do deputado Cezinha de Madureira.
Por que importa
É o principal antecedente conhecido de contato direto entre Vorcaro e o ministro que depois passaria a relatar investigações envolvendo o Banco Master.
FEV 2026
PRIMEIRA ORDEM
Mendonça dá 60 dias à PF para mapear autoridades citadas no Master
Já como relator das apurações do Master, Mendonça determinou que a Polícia Federal apresentasse um panorama do material apreendido e identificasse referências a autoridades com prerrogativa de foro.
Por que importa
A identificação de autoridades citadas no material de Vorcaro já havia sido determinada meses antes do relatório que desencadearia a crise de setembro.
MAI–JUL 2026
ESCALADA
Atrito avança sobre equipes, dados, perícias e vazamentos
A relação entre o gabinete de Mendonça e a PF se deteriorou em torno de mudanças nas equipes, acesso a dados brutos, ritmo das perícias e vazamentos. No fim de julho, a corporação chegou a procurar a Advocacia-Geral da União para avaliar uma reação jurídica.
Por que importa
A disputa sobre a condução das investigações já estava instalada antes de Moraes aparecer no centro do caso.
13–29 JUL 2026
DISPUTA DE RELATORIA
Defesa de Flávio tenta levar investigação de Dino para Mendonça
A defesa de Flávio Bolsonaro apresentou quatro pedidos para retirar de Flávio Dino uma investigação ligada a Dark Horse e concentrá-la no gabinete de Mendonça. Dois foram dirigidos à Presidência do STF e dois ao próprio Dino.
Por que importa
Os requerimentos buscavam reunir diferentes frentes de Dark Horse sob a mesma relatoria. Os pedidos não foram acolhidos.
22–23 JUL 2026
INVESTIGAÇÃO
Mendonça autoriza investigação que inclui Flávio Bolsonaro
A PF pediu, com manifestação favorável da PGR, a abertura de investigação sobre repasses de Vorcaro relacionados a Dark Horse. Com a abertura dos autos em setembro, tornou-se público que Flávio Bolsonaro figurava formalmente como investigado desde 22 de julho.
Por que importa
Quando o conflito com a PF entrou em sua fase mais aguda, Mendonça já relatava uma investigação que alcançava Flávio.
INÍCIO DE AGO 2026
BASTIDOR
Mendonça já cogitava medida contra Andrei Rodrigues
Segundo relatos publicados posteriormente, Mendonça já avaliava uma providência contra o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Por que importa
A discussão sobre Andrei antecedeu a divulgação do relatório envolvendo Alexandre de Moraes.
3–31 AGO 2026
INTELIGÊNCIA
Inteligência da PF produz documentos sobre Mendonça e Messias
Uma unidade da PF produziu ou compilou documentos sobre a atuação de Mendonça e sua relação com o então advogado-geral da União, Jorge Messias. O material só ganharia publicidade em setembro.
Por que importa
Mendonça classificaria a iniciativa como monitoramento ilegal. A direção da PF negou espionagem clandestina.
6 AGO 2026
RUPTURA
Governo tenta trégua e 27 superintendentes fecham com Andrei
O ministro da Justiça se reuniu com Mendonça em uma tentativa de reduzir a tensão. Horas depois, os 27 superintendentes regionais da PF divulgaram nota em defesa da independência técnica, da autonomia da corporação e da direção comandada por Andrei.
Por que importa
A crise já havia chegado à cúpula da Polícia Federal semanas antes da guerra aberta no Supremo.
21 AGO 2026
DUAS FRENTES
Mendonça manda apurar vazamentos e Dino abre provas de Dark Horse à PF
Mendonça determinou que a PF apurasse o vazamento de informações de uma investigação relacionada a Lulinha, excluindo jornalistas. No mesmo dia, Dino autorizou o compartilhamento com a PF de provas produzidas em São Paulo envolvendo Karina Gama, a Go Up e o entorno de Dark Horse.
Por que importa
O conflito sobre vazamentos e a investigação de Dark Horse avançaram no mesmo dia, em frentes diferentes.
24 AGO 2026
PONTO DE INFLEXÃO
Mendonça dá 72 horas para PF identificar nomes em mensagens de Vorcaro
Investigadores foram chamados ao gabinete de Mendonça e receberam um despacho que fixava prazo de 72 horas para identificar pessoas mencionadas em páginas e comunicações determinadas do material de Vorcaro. Moraes não era citado nominalmente na ordem.
Por que importa
A varredura resultou no relatório que levou os contatos entre Vorcaro e Moraes ao centro da crise.
27–28 AGO 2026
BASTIDOR
Relatório chega a Mendonça e PF pede operação de Dark Horse a Dino
A PF entregou o relatório solicitado por Mendonça no fim daquela semana. Em 28 de agosto, a corporação pediu a Dino autorização para uma operação de busca na frente de Dark Horse ligada a emendas e agentes públicos e privados.
Por que importa
Os dois movimentos avançaram simultaneamente em gabinetes diferentes. Não há prova pública de relação causal entre eles.
1 SET 2026
GUERRA ABERTA
Mendonça abre relatório sobre Moraes e crise chega ao público
Mendonça retirou o sigilo do material envolvendo Moraes e Vorcaro. Horas depois, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a nulidade do relatório e questionou o procedimento usado na diligência.
Por que importa
O confronto sai dos bastidores e passa a envolver publicamente ministros do STF, PF e Procuradoria-Geral da República.
2 SET 2026
REVELAÇÃO
Fórum publicou encontro reservado entre Mendonça e Vorcaro
A Fórum publicou que Mendonça havia se reunido com Vorcaro em março de 2025. O ministro confirmou a reunião e afirmou que o assunto tratado eram precatórios.
Por que importa
O contato anterior entre o banqueiro e o relator das apurações do Master passa a integrar o contexto público do caso.
3 SET 2026
SOB SIGILO
Dino autoriza operação ligada a Dark Horse
Dino autorizou, ainda sob sigilo, a operação pedida pela PF em 28 de agosto. A decisão abriu caminho para dezenas de mandados relacionados à frente de emendas de Dark Horse.
Por que importa
Enquanto a crise entre Mendonça e Moraes dominava o noticiário, a operação já estava autorizada e sendo preparada.
8–9 SET 2026
CLÍMAX
Mendonça afasta Andrei Rodrigues e Leandro Almada
Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues e de Leandro Almada, diretor responsável pela área que havia produzido os relatórios internos. O ministro apontou possível monitoramento ilegal.
Por que importa
É o ponto mais agudo do confronto com a cúpula da PF. Decisões posteriores alteraram os efeitos da medida.
10 SET 2026
MAKE UP
PF e CGU vão às ruas na investigação de Dark Horse
PF e CGU deflagraram a Operação Make Up, com dezenas de mandados na investigação sobre suposto desvio de recursos públicos relacionados à estrutura de Dark Horse. Mário Frias e Karina Gama estavam entre os alvos de busca.
Por que importa
A investigação que avançava sob sigilo no gabinete de Dino chega às ruas.
11–12 SET 2026
NOVOS AUTOS
Documentos expõem Flávio e fundo nos Estados Unidos
A abertura dos autos mostrou que Flávio Bolsonaro já era investigado formalmente desde julho e detalhou o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. Segundo a PF, o fundo havia sido criado para um projeto imobiliário no Texas, permaneceu sem atividade operacional relevante por anos e retomou movimentações em 2025.
Por que importa
Os autos ampliam a frente financeira da investigação relacionada a Dark Horse.
12 SET 2026
NOVA PEÇA
Vêm à tona quatro tentativas da defesa de Flávio
A Fórum fez reportagem em que a defesa de Flávio tentou quatro vezes, ainda em julho, transferir para Mendonça a investigação conduzida por Dino.
Por que importa
Os requerimentos mostram a tentativa de concentrar diferentes apurações de Dark Horse no gabinete de Mendonça. Não há prova de que o ministro tenha atuado para favorecer a defesa.
A crise começou antes de Moraes entrar no caso
A sequência afasta a ideia de que o confronto entre André Mendonça e PF tenha começado com o relatório sobre Moraes. Quando o material se tornou público, em 1º de setembro, a relação entre o gabinete e a corporação já havia passado por meses de desgaste.
O conflito envolvia questões concretas da investigação. Mendonça cobrava acesso a dados, prazos e informações produzidas pelas equipes. Dentro da PF, parte dessas exigências era vista como interferência na autonomia investigativa. No início de agosto, o próprio futuro de Andrei Rodrigues na direção da corporação já era discutido nos bastidores.
A manifestação dos 27 superintendentes regionais em 6 de agosto tornou pública, dentro da estrutura policial, a dimensão da crise. O movimento ocorreu semanas antes da ordem de 72 horas que acabaria alcançando as conversas de Vorcaro com Moraes.
Dark Horse avançava em dois gabinetes
Outro eixo da cronologia é a existência de duas frentes relacionadas a Dark Horse em gabinetes diferentes do Supremo.
Na investigação relatada por Mendonça, Flávio Bolsonaro já figurava como investigado desde 22 de julho. Em outra frente, sob relatoria de Dino, a PF avançava sobre suspeitas envolvendo emendas parlamentares, Karina Gama, a Go Up e outros agentes ligados ao projeto.
Entre 13 e 29 de julho, a defesa de Flávio tentou quatro vezes retirar essa segunda frente de Dino e levá-la para Mendonça. A justificativa era evitar decisões conflitantes e concentrar as apurações relacionadas ao projeto. Os pedidos não mudaram a relatoria.
A Fórum mostrou os requerimentos em 12 de setembro. Os documentos conectam processualmente as duas frentes, mas não mostram que Mendonça tenha participado das tentativas da defesa ou atuado para acolhê-las.
Das 60 dias às 72 horas
As duas ordens dadas por Mendonça à PF ajudam a medir a mudança de temperatura na relação com a corporação.
Em fevereiro, o ministro havia concedido 60 dias para um levantamento amplo do material do Master e das autoridades com foro citadas nos documentos. Em 24 de agosto, investigadores convocados ao gabinete receberam um despacho com prazo de apenas 72 horas para examinar páginas e comunicações determinadas do material de Vorcaro e identificar as pessoas mencionadas.
O segundo despacho não citava Moraes nominalmente. Foi a análise da PF que chegou aos contatos entre o ministro e o banqueiro.
No fim da mesma semana, o relatório já estava com Mendonça. Enquanto isso, em outra frente, a PF encaminhava a Dino o pedido de operação relacionado a Dark Horse.
Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo do relatório. Paulo Gonet pediu sua nulidade poucas horas depois. Dois dias mais tarde, Dino autorizou, sob sigilo, a operação solicitada pela Polícia Federal.
A PGR sustentou que havia problemas na condução da diligência. A disputa que vinha sendo travada entre gabinete e corporação passou, então, a envolver diretamente Moraes, a Procuradoria-Geral da República e a Presidência do Supremo.
O que os documentos mostram — e o que não mostram
Os documentos estabelecem uma sequência temporal precisa. O atrito entre Mendonça e a Polícia Federal antecede o relatório sobre Moraes. A possibilidade de uma medida contra Andrei já era discutida antes da divulgação desse material. Flávio Bolsonaro aparecia como investigado desde julho na frente relatada por Mendonça, enquanto sua defesa tentava levar para o mesmo gabinete outra investigação conduzida por Dino.
Também está documentado que a ordem de 72 horas foi cumprida no mesmo período em que a PF preparava o pedido de operação da outra frente de Dark Horse.
Essa coincidência temporal não demonstra, por si só, coordenação entre os movimentos.
Até agora, os documentos reunidos não comprovam que Mendonça tenha atuado para beneficiar Flávio Bolsonaro, que os pedidos apresentados pela defesa tenham influenciado as decisões do ministro ou que a diligência sobre o material de Vorcaro tenha sido determinada para interferir na investigação relatada por Dino.
O que a cronologia permite estabelecer é a ordem dos fatos e a sobreposição das crises: enquanto Mendonça e a PF já estavam em rota de colisão, investigações do Master e de Dark Horse avançavam dentro do Supremo.
Leia também: Mendonça teve encontro secreto com Vorcaro e posou com advogado.
Leia também: PF põe em xeque versão de Flávio Bolsonaro sobre fundo nos EUA e “Dark Horse”.
A Fórum mantém o espaço aberto para manifestações dos citados.
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