Omertà: o que significa a expressão usada por Gilmar Mendes no bate-boca do STF

Omertà: o que significa a expressão usada por Gilmar Mendes no bate-boca do STF
- Gilmar Mendes/Foto: Gustavo Moreno/STF

Em uma sessão marcada por bate-bocas e acusações entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (15), Gilmar Mendes foi buscar no vocabulário associado à máfia uma expressão para criticar a condução de André Mendonça no caso Master: omertà.
O termo apareceu enquanto o decano questionava a forma como Mendonça conduziu informações relacionadas ao relatório da Polícia Federal que colocou Alexandre de Moraes no centro das suspeitas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Gilmar questionou por que informações envolvendo outros integrantes do Supremo não teriam recebido o mesmo tratamento e recorreu à imagem de um “jogo de máfia” ao criticar o colega.
Em um dos momentos mais duros da discussão, afirmou:
“Até a máfia tem ética.”
Mendonça reagiu durante a sessão, pediu respeito e classificou as acusações feitas pelo colega como “levianas”. O julgamento desta terça-feira foi marcado por sucessivos confrontos entre integrantes da Corte.
https://x.com/carololivac/status/2099877237600248131
Mas, afinal, o que é omertà?
A palavra omertà é tradicionalmente associada ao código de silêncio de organizações mafiosas italianas, especialmente aquelas surgidas no sul da Itália.
A lógica vai além de simplesmente não falar.
Historicamente, omertà envolve a recusa em colaborar com autoridades ou fornecer informações sobre integrantes e atividades do próprio grupo. Dentro dessa lógica, entregar alguém ou revelar segredos a pessoas de fora representa uma quebra de lealdade.
Com o tempo, o termo ultrapassou o universo da máfia e passou a ser empregado também de maneira figurada para descrever pactos de silêncio ou situações em que integrantes de determinado grupo evitam expor uns aos outros.
Foi nesse sentido metafórico que a expressão apareceu no embate no Supremo.
Ao falar em omertà e em “jogo de máfia”, Gilmar não estava afirmando que o STF é uma organização mafiosa. A comparação apareceu dentro de sua acusação de que teria havido seletividade no tratamento das informações relacionadas ao caso Master — crítica rejeitada por Mendonça.
Leia: “Até a máfia tem ética”: filmes e séries sobre os códigos de conduta dos mafiosos
Omertà também está no imaginário das séries de máfia
Para quem acompanha produções sobre crime organizado, a lógica por trás da omertà provavelmente não é desconhecida.
Um exemplo recente é “Terra da Máfia” (MobLand), série do Paramount+ estrelada por Tom Hardy, Pierce Brosnan e Helen Mirren.
A trama acompanha Harry Da Souza, interpretado por Hardy, um “resolvedor” ligado à poderosa família criminosa Harrigan. No centro da história estão disputas de poder, violência, segredos e, principalmente, os limites da lealdade dentro de uma organização criminosa.
A produção não trata especificamente da omertà, mas retrata justamente um universo no qual proteger a família criminosa, preservar seus segredos e não romper os laços de lealdade pode significar sobrevivência. A segunda temporada estreia mundialmente nesta sexta-feira, 18 de setembro, no Paramount+.
Da máfia para o plenário do STF
É justamente essa imagem de silêncio, proteção interna e lealdade ao grupo que dá peso à palavra omertà quando ela aparece em uma discussão entre ministros da mais alta Corte do país.
A comparação surgiu em uma sessão na qual informações extraídas do celular de Vorcaro ampliaram a crise dentro do Supremo. Mensagens reveladas nos últimos dias também mencionam pessoas ligadas a outros integrantes da Corte, além de Moraes.
Ao recorrer à omertà e à imagem de um “jogo de máfia”, Gilmar transformou uma expressão historicamente ligada ao crime organizado italiano em uma das metáforas mais duras de uma sessão já marcada por acusações, interrupções e confrontos entre ministros.

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