Milton Leite não é o primeiro aliado próximo de Tarcísio acusado de ser do PCC

Milton Leite não é o primeiro aliado próximo de Tarcísio acusado de ser do PCC
- Ney Santos e o governador Tarcísio de Freitas - Foto: Pablo Jacob / Governo do Estado de SP

A retórica do Palácio dos Bandeirantes, impulsionada por discursos enérgicos e promessas intransigentes de “tolerância zero” no combate à criminalidade, volta a colidir frontalmente com a crua realidade política dos bastidores paulistas. O escândalo mais recente a sacudir as estruturas do poder estadual envolve o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), apontado em desdobramentos de investigações do Ministério Público como peça-chave de um esquema de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte público da capital.
A inclusão do influente cacique político no centro das apurações do crime organizado expõe as vísceras de um sistema de conveniências pragmáticas. Contudo, o que mais estarrece a opinião pública não é apenas o peso do nome de Milton Leite nessa engrenagem, mas a constatação de um padrão incômodo: a presença recorrente de figuras com histórico de elos com a maior facção criminosa do país transitando livremente na órbita de alianças e palanques do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Milton Leite não inaugura essa incômoda lista de proximidades; ele apenas a encorpa.
Para compreender a profundidade das conexões que rondam o Executivo estadual de Sao Paulo, é preciso voltar os olhos para o histórico do ex-prefeito de Embu das Artes, Ney Santos. Há anos, o Ministério Público de São Paulo classifica Santos como um dos quadros políticos associados ao PCC. Sua trajetória é marcada por um extenso prontuário judicial, que inclui condenações no passado, prisões preventivas e denúncias por lavagem de dinheiro e associação ao tráfico. Mesmo sob a sombra de graves acusações, Ney Santos construiu uma carreira política consolidada e, mais recentemente, garantiu seu espaço ao lado da alta cúpula do governo Tarcísio.
Durante a campanha eleitoral e ao longo da atual gestão estadual, não foram poucas as ocasiões em que Ney Santos desfilou publicamente ao lado de Tarcísio de Freitas. Fotografias, eventos oficiais e declarações de apoio mútuo selaram uma convivência ostensiva que ignora solenemente os alertas emitidos por órgãos de fiscalização e pelo próprio sistema de Justiça. A cena de um governador que prometeu “acabar com o crime organizado” dividindo o mesmo teto e afagos políticos com um expoente há muito investigado por servir aos interesses da facção tornou-se um retrato incômodo, e repetitivo, da política bolsonarista paulista.
A gravidade do quadro, contudo, desce degraus ainda mais alarmantes ao adentrar o aparato de segurança pública do Estado. A mancha da infiltração não se limita ao ambiente partidário ou parlamentar; ela alcançou o topo da estrutura policial responsável por combater o próprio crime.
O antigo comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel José Augusto Coutinho, nomeado sob a chancela da gestão Tarcísio, acabou afastado do cargo após o surgimento de denúncias contundentes que abalaram a tropa. Investigações e grampos revelaram que o nome da alta cúpula militar e de oficiais da corporação constavam em registros e listas de propina mantidas pelo PCC. O esquema envolvia desde o pagamento sistemático de propinas para proteção de empresários vinculados ao transporte público clandestino até a venda de dados sigilosos e relatórios de inteligência da polícia para os líderes da facção. A crise foi de tamanha magnitude que forçou o governo estadual a realizar uma troca de emergência no comando da PM para tentar conter os danos institucionais.
O caso de Milton Leite, portanto, não é um raio em céu azul, tampouco um episódio isolado no cotidiano bolsonarista do governo de São Paulo. Quando a maior liderança do Legislativo paulistano, um ex-prefeito rotulado pelo MP como braço do tráfico e a própria cúpula da Polícia Militar emergem do mesmo caldeirão de investigações sobre o PCC, a narrativa oficial do Palácio dos Bandeirantes perde a sustentação. Entre o discurso firme das coletivas de imprensa e a pragmática aliança das ruas e dos palanques, a teia de relações do poder em São Paulo mostra que a facção há muito deixou de ser apenas uma ameaça nas periferias para se consolidar como uma sombra indigesta dentro das estruturas de poder do estado.

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