Sabatina de Tarcísio na Globo expõe distância entre discurso e dados do governo de SP

Sabatina de Tarcísio na Globo expõe distância entre discurso e dados do governo de SP
- Tarcísio de Freitas - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou, nesta terça (15), de sabatina no telejornal SP1, da TV Globo. O encontro foi marcado por uma sucessão de divergências entre as afirmações do bolsonarista e números oficiais sobre educação, segurança, sistema prisional, transporte, habitação, saneamento e saúde.
Em diferentes momentos, Tarcísio apresentou resultados de sua administração a partir de indicadores específicos, mas foi questionado sobre metas não cumpridas, déficits de estrutura e cronogramas que ultrapassam o período de um eventual segundo mandato.
Educação
Uma das principais discrepâncias ocorreu em relação à educação. Em 2022, Tarcísio prometeu levar o ensino integral a 60% dos estudantes da rede estadual.
Durante a sabatina, admitiu que a meta não será alcançada. Atualmente, pouco mais de 30% dos alunos estão nessa modalidade e a nova promessa apresentada pelo governador é chegar a 40% no próximo mandato, caso seja reeleito. A justificativa foi a necessidade de estruturar melhor as escolas antes de ampliar o modelo.
O debate sobre a qualidade do ensino também expôs uma diferença entre reconhecer algum avanço pontual e cumprir as metas estabelecidas. Os dados oficiais do Ideb mostram que, na rede pública paulista, os anos finais do ensino fundamental passaram de 5,1, em 2023, para 5,2, em 2025. Já o ensino médio avançou de 4,2 para 4,3.
Os números traduzem que não houve queda nesses indicadores no período, mas os resultados ficaram abaixo das metas previstas: 5,8 para os anos finais do fundamental e 5,1 para o ensino médio.
A tentativa de relativizar o resultado com outros indicadores também encontrou limites. Tarcísio recorreu ao Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) para sustentar sua avaliação da educação. O problema é que o Pisa é uma verificação internacional de estudantes de 15 anos, realizada em ciclos, e não um instrumento destinado a medir isoladamente o efeito de um governo estadual.
A edição de 2022 foi aplicada antes do início da gestão Tarcísio, enquanto a edição de 2025 só passou a ter seus resultados divulgados em setembro de 2026. O próprio Inep ressalta que comparações entre ciclos devem considerar a natureza e o foco de cada edição.
Outro recuo ocorreu na chamada “plataformização do ensino”. Depois de anos de ampliação do uso obrigatório de plataformas digitais na rede estadual, o governador admitiu que o modelo precisa ser revisto. Segundo ele, a cobrança excessiva de exercícios e acessos pode restringir a liberdade dos professores e gerar descontentamento.
A revisão representa, na prática, o reconhecimento de que uma política apresentada como instrumento de modernização da educação passou a ser objeto de questionamento dentro da própria administração.
Segurança pública
No setor de segurança pública, o discurso sobre aumento do efetivo também encontra um problema objetivo: o tamanho real das corporações. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que São Paulo tinha, em 2025, 82.250 policiais militares para um efetivo previsto de 93.801, equivalente a 87,7% do quadro, e 19.420 policiais civis para uma previsão de 24.332, ou 79,8%.
A insuficiência de pessoal não é apenas uma questão apontada por entidades externas. Documentos do Tribunal de Contas do Estado registram déficits importantes nas estruturas policiais e recomendam medidas para recomposição dos quadros.
Dessa forma, quando Tarcísio afirma que pretende ampliar o efetivo, a questão central passa a ser menos a promessa de novas contratações e mais o tamanho do déficit acumulado durante a atual gestão.
O sistema prisional apresenta outro contraste. Durante a sabatina, Tarcísio prometeu construir dez novos presídios e afirmou que o sistema está “bem controlado”. O problema é que a estrutura atual permanece marcada por superlotação e deficiências apontadas pelo próprio Tribunal de Contas.
Documento do TCE registra que 74,7% das unidades prisionais analisadas estavam acima da capacidade, enquanto 68,13% não possuíam bloqueadores de sinal de celulares e 72% não tinham Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiro (AVCB) vigente. O mesmo levantamento apontou problemas na disponibilidade de equipamentos de segurança e na estrutura de atendimento aos presos.
Transporte sobre trilhos
A discussão sobre transporte sobre trilhos também revelou uma questão de calendário. Ao responder a respeito do que estará funcionando até 2030, Tarcísio incluiu projetos cujas previsões oficiais ultrapassam esse horizonte.
Entre eles, a extensão da Linha 2-Verde até Guarulhos, prevista para 2032, a extensão da Linha 13-Jade até Bonsucesso, projetada para 2032, e a extensão da Linha 12-Safira até Suzano, com previsão para 2031. Ou seja, parte das entregas apresentadas como futuras realizações em um eventual segundo mandato depende de obras que, pelos próprios cronogramas divulgados, avançam para prazos mais longos.
No caso da CPTM e das concessões, a fala do governador produziu talvez uma das mudanças mais significativas de posição. Tarcísio reconheceu que a concentração da operação ferroviária em poucas empresas é um problema e afirmou que passou a considerar a possibilidade de rever contratos. Disse, também, que o Metrô estatal apresenta desempenho que justifica a manutenção de determinadas operações públicas.
A declaração é significativa vinda do governador privatista, porque a transferência de serviços públicos para empresas privadas foi uma das marcas da política de desestatização do governo. O próprio Tarcísio passou a admitir que a concentração empresarial pode produzir problemas de concorrência e de controle.
A crise recente envolvendo a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, assumida temporariamente pela CPTM depois de falhas na operação privada, são provas dessa situação.
Habitação
Na área da habitação, Tarcísio apresentou o Casa Paulista como o maior programa habitacional da história do estado. Entretanto, o número deve ser examinado pelo tipo de entrega contabilizada. A administração estadual contabiliza dezenas de milhares de famílias atendidas, mas uma parcela expressiva dos resultados corresponde a subsídios e cartas de crédito, e não à construção direta de unidades pelo governo.
A própria comunicação oficial do governo registra mais de 80 mil famílias atendidas, enquanto a promessa de campanha de 2022 era entregar 200 mil moradias, até o fim de 2026.
A diferença entre construir uma unidade habitacional e conceder um subsídio para que uma família financie um imóvel é fundamental para qualquer balanço de política habitacional. As duas modalidades podem produzir acesso à moradia, mas não representam a mesma prática em termos de produção direta de habitação pelo poder público.
Sabesp
Alvo de inúmeras reclamações por dificuldades graves no fornecimento de água, a Sabesp foi defendida por Tarcísio. Ele atribuiu as críticas a problemas de abastecimento e acidentes à aceleração das obras depois da privatização e apresentou o avanço do saneamento como resultado da nova gestão.
Porém, em Guarulhos, por exemplo, o número usado durante a entrevista exige contextualização que altera o sentido da afirmação. O percentual de apenas 2% de esgoto tratado corresponde a 2017. A Sabesp assumiu a operação do saneamento do município em 2019 e, em dezembro de 2023, quando Tarcísio iniciou seu governo, o tratamento estava em torno de 18%.
Portanto, utilizar o dado de 2% sem informar que ele corresponde a 2017 cria uma fotografia de quase uma década atrás para descrever uma situação que já havia mudado antes mesmo do início do governo Tarcísio.
Saúde
Na saúde, a afirmação de que o número de cirurgias teria saltado de cerca de 750 mil para 1,5 milhão também precisa ser confrontada com o comportamento das filas. São Paulo, efetivamente, registrou um volume importante de cirurgias eletivas em 2025, mas a produção maior não significou redução proporcional da demanda reprimida.
Auditoria do Tribunal de Contas da União sobre o programa “Agora Tem Especialistas” analisou os dados de 2023 a 2025 e apontou problemas de monitoramento e de integração dos registros por parte do estado. O TCU também destacou que apenas uma parcela reduzida das cirurgias realizadas estava registrada na Rede Nacional de Dados em Saúde, mascarando a avaliação nacional das filas.
Fiscalização
A sabatina colocou em evidência, também, a fragilidade da fiscalização dos serviços concedidos. No caso da Artesp, agência responsável pela regulação do transporte rodoviário, o debate sobre fiscalização envolve uma estrutura reduzida diante do tamanho do sistema regulado e a dificuldade de transformar autuações em penalidades efetivamente cobradas.
A justificativa apresentada pelo governo estadual foi a morosidade judicial, acompanhada de referência a dificuldades existentes também em contratos federais.
O conjunto das respostas revela um padrão. Quando confrontado com uma promessa não cumprida, Tarcísio apresentou nova meta. Ao ser questionado sobre um indicador desfavorável, recorreu a outro indicador. Quando confrontado com problemas de serviços privatizados, passou a admitir a necessidade de rever contratos. E, diante de cronogramas de obras, incorporou ao balanço de seu eventual próximo mandato entregas que, segundo os próprios prazos divulgados, ocorreriam depois de 2030.

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