PCC caminha para tomar Saúde e setor de ONGs no governo Tarcísio em SP, apontam autoridades

PCC caminha para tomar Saúde e setor de ONGs no governo Tarcísio em SP, apontam autoridades
- Tarcísio de Freitas - Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP

A teia de influência e penetração do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas estruturas formais do Estado e da economia de São Paulo rende novas preocupações para as autoridades paulistas. Os desdobramentos de uma ostensiva ação conjunta conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, batizada de Operação Vectura Corrupta, levada a cabo nesta quinta-feira (17), lançaram luz sobre estratégias que vão muito além dos limites do mercado de transportes ou do comércio ilícito de entorpecentes. Documentos e decisões exarados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo revelam que o aparato de segurança pública monitora movimentos que sinalizam a intenção explícita da organização criminosa de fincar raízes nas áreas de saúde pública e de ONGs, o chamado terceiro setor.
O epicentro da ofensiva policial teve impacto político imediato ao atingir diretamente uma das figuras mais proeminentes da política da capital: o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil), aliado de peso do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e detentor de expressivo trânsito nos bastidores do poder estadual. A decretação de medidas cautelares contra o ex-parlamentar e contra o ex-comandante da SPTrans, Levi de Oliveira, insere-se em um quadro onde investigados são apontados por atuar como elos ou facilidades para a consolidação de interesses empresariais sob sombra da facção.
Embora o combate às fraudes e ao aparelhamento das concessões de ônibus urbanos seja a espinha dorsal dos trabalhos investigativos, indicando que mais da metade das concessionárias operantes no sistema de passageiros da capital e do litoral poderiam estar sob comando direto ou indireto do grupo, a maior apreensão das autoridades reside na capacidade de mutação do modelo de negócios do crime. Apurações prévias anexadas ao processo detalham diálogos e planos formulados por alvos da operação que projetavam a fundação de Organizações Não Governamentais (ONGs) com vistas a abocanhar contratos de gestão e serviços na saúde municipais e estadual.
A estratégia mapeada pelos peritos da polícia judiciária aponta para a replicação da mesma engenharia aplicada ao sistema viário: a utilização de intermediários, laranjas e estruturas corporativas aparentemente idôneas para ingressar em certames licitatórios de grande porte. Ao migrar para a saúde pública e para entidades do terceiro setor, a organização criminosa busca garantir não apenas a lavagem contínua de vultosos recursos financeiros, mas também o acesso a uma capilaridade social que confere poder político, blindagem institucional e inserção direta em serviços essenciais prestados à população vulnerável. As ações são diametralmente opostas ao que afirma Tarcísio, de que seu governo “combate as organizações criminosas”.
As apurações ressaltam que, no âmbito das Organizações Sociais e dos consórcios de saúde, as evidências colhidas até o momento constituem linhas de investigação prioritárias em estágio de consolidação, diferentemente do cenário já mapeado no setor de transporte rodoviário urbano, onde o domínio e o direcionamento de contratos aparecem em estágio avançado. Contudo, os elementos coligidos no processo autorizador das buscas alertam para a urgência de conter o avanço do grupo antes da concretização do domínio completo sobre os aparelhos estaduais de atendimento médico e social.
Em resposta às deliberações judiciais, as representações jurídicas dos investigados manifestaram-se ao longo do dia. O corpo de advogados de Levi de Oliveira declarou surpresa diante dos mandados de prisão cumpridos, sustentando a trajetória pública ilibada e a primariedade de seu cliente, além de assinalar que buscará acesso integral aos autos para promover as medidas de libertação aplicáveis. Por sua vez, a defesa de Milton Leite refutou categoricamente qualquer tipo de envolvimento do político com integrantes ou atividades ligadas ao crime organizado, assegurando que o ex-vereador se colocou voluntariamente à disposição do Poder Judiciário para prestar todos os esclarecimentos necessários à elucidação dos fatos.

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