A reta final da corrida presidencial ganhou ares de crise generalizada no comitê de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL). Em visível estado de perplexidade diante da repercussão negativa entre o eleitorado católico de uma apuração relacionada a um suposto ato de intolerância religiosa, o candidato à Presidência da República partiu para o ataque frontal contra a imprensa. O alvo da vez foi o Grupo Globo e, em especial, a emissora de notícias GloboNews, classificada pelo parlamentar como uma “central de disseminação de mentiras”.
A reação enfurecida e atabalhoada de Flávio nas redes sociais ocorreu após a veiculação de uma informação que trouxe à tona a suposta articulação de setores de sua base aliada para destituir Nossa Senhora Aparecida do posto oficial de Padroeira do Brasil. O tema, que provocou uma onda instantânea de repúdio por parte da sociedade civil e de lideranças religiosas, expôs a fratura grave na estratégia do bolsonarismo de instrumentalizar a fé na disputa política de 2026.
Para tentar conter o desgaste e desviar o foco da denúncia, o filho do ex-presidente divulgou um mapa digital que, segundo ele, comprovaria um “movimento criminoso e orquestrado” alinhado à oposição para desgastar sua imagem. Prometendo ações nas esferas criminal e eleitoral, Flávio vociferou contra o jornalismo profissional no mesmo momento em que tentava desvincular sua candidatura de uma pauta histórica e incômoda de seus próprios aliados.
Veja a postagem:
https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2103524994135339135
Raízes da proposta e a sombra do passado
A tese de rebaixar o status de Nossa Senhora Aparecida não surgiu no debate público por geração espontânea. A origem da controvérsia remonta ao Projeto de Lei apresentado na Câmara dos Deputados pelo ex-parlamentar e pastor evangélico Victório Galli. O texto buscava alterar a legislação vigente para retirar o título de “Padroeira do Brasil”, rebaixando a santa para a condição restrita de “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Embora o senador intente classificar a associação do caso à sua candidatura como propaganda adversária, as pontes entre o autor do projeto anticatólico e a espinha dorsal do bolsonarismo são institucionais e amplamente documentadas. Galli não é uma figura periférica: após perder a eleição em 2018, foi acolhido no Palácio do Planalto em 2019 com a nomeação para o cargo de assessor especial da Presidência da República sob Jair Bolsonaro (PL).
Mais do que o holofote do cargo público, os registros de bastidores escancaram a intimidade política e pessoal de Galli com a família do candidato. O ex-deputado coleciona registros fotográficos ao lado do próprio Flávio Bolsonaro e do patriarca da clã, além de imagens ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, reconhecida publicamente por sua atuação alinhada ao fundamentalismo religioso e por sua forte ascendência sobre o eleitorado neopentecostal.
Atualmente em campanha para retornar ao Congresso Nacional, Galli permanece como peça ativa na engrenagem eleitoral que sustenta o projeto presidencial de Flávio, tornando inócuo qualquer esforço retórico de distanciar o candidato das pautas defendidas por sua militância mais radical.
Cálculo eleitoral e a reação da Igreja Católica
A eclosão do escândalo ocorre em um momento delicado de rearranjo político. A insatisfação de setores expressivos do episcopado brasileiro com a retórica da extrema direita já vinha se desenhando ao longo dos últimos meses. Importantes bispos passaram a manifestar posições em defesa da soberania nacional, do meio ambiente, da proteção aos povos indígenas e do fortalecimento das instituições democráticas, pautas historicamente associadas à plataforma de Luiz Inácio Lula da Silva (PL).
Essa reaproximação de vertentes expressivas do catolicismo com o campo progressista acendeu o sinal de alerta no bolsonarismo. A resposta da base de apoio de Flávio foi a intensificação de ataques verbais à hierarquia católica, ambiente no qual propostas de esvaziamento de símbolos tradicionais, como o dogma de Aparecida, voltam a ganhar novo fôlego nos bastidores.
A situação ganhou contornos críticos quando o candidato do PL, buscando inflamar sua base radical, declarou abertamente em agenda pública que, caso seja eleito, assinará um decreto oficial declarando que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”. A promessa de palanque, voltada a agradar setores confessionais, foi lida por juristas e lideranças religiosas como uma afronta direta ao Estado Laico garantido pela Constituição de 1988 e um aceno explícito à marginalização das demais manifestações de fé.
Perplexidade no comitê e o tiro pela culatra
Surpreendido pela velocidade com que a apuração jornalística alcançou a opinião pública, Flávio Bolsonaro gravou um vídeo durante o cumprimento de agendas no estado de Minas Gerais. Notavelmente alterado, o candidato buscou se vitimizar, afirmando que a denúncia se tratava de uma “invenção” desprovida de fundamento.
No entanto, o tom agressivo utilizado contra a imprensa e a recusa em condenar categoricamente o histórico de seus aliados mais próximos em relação ao tema apenas aprofundaram a crise. O uso da expressão “central de disseminação de mentiras” contra o jornalismo da Globo evoca a conhecida tática de confrontação direta com os veículos de comunicação sempre que denúncias de alto impacto atingem o clã.
A tentativa de sufocar o debate por meio de ameaças de processos judiciais e acusações de conluio político demonstra a perplexidade de uma campanha que perdeu o controle da narrativa no terreno moral e religioso, justamente onde julgava deter o monopólio. Ao tentar minimizar o projeto de rebaixamento da Padroeira como mero boato, Flávio tropeça no passado de seus próprios assessores e deixa transparecer o receio real do impacto que o episódio terá nas urnas.
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