Deputada aciona TCE para investigar Zema por possível favorecimento ao Master em MG

Deputada aciona TCE para investigar Zema por possível favorecimento ao Master em MG
- Romeu Zema e Daniel Vorcaro. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil e Divulgação Banco Master

A deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG) protocolou, nesta quinta-feira (24), uma representação no Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) pedindo a apuração de possíveis irregularidades do Governo de Minas Gerais, de Romeu Zema (Novo), no favorecimento ao Banco Master e a empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. O documento também leva ao Tribunal o caso do áudio em que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) pede ajuda a Vorcaro para liberar um ativo minerário em Ouro Preto.
A representação parte das investigações da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apontam no esquema do Master um núcleo especializado em corrupção institucional. Vorcaro está preso, desde março deste ano, por suspeita de fraudes financeiras bilionárias e lavagem de dinheiro envolvendo Fundos Previdenciários de 18 estados. Ele também é acusado de comandar um esquema de intimidação e obstrução da Justiça.
Para Bella, os casos reunidos precisam ser analisados em conjunto, para que o TCE avalie se representam “uma infiltração coordenada, sistemática e corrupta do poder econômico na estrutura administrativa do Estado”.
O TCE-MG já investiga outros fatos do escândalo do Banco Master em Minas, como a suspeita de que empresas ligadas à família Vorcaro tenham recebido isenções fiscais e outros benefícios do governo mineiro, além de um contrato entre a Cemig SIM e empresa de Vorcaro, a partir de representação do deputado Professor Cleiton (PV). A representação de Bella traz novos elementos a esse quadro, com casos que ainda não estavam sob análise do Tribunal, e aumenta a pressão por respostas e medidas concretas diante da dimensão do esquema no Estado.
O pedido de Nikolas a Vorcaro
Em 30 de março de 2025, Nikolas enviou áudios a Vorcaro pedindo ajuda para “destravar” um ativo de minério em favor de seu advogado, amigo e ex-assessor Thiago Rodrigues de Faria. Em mensagens obtidas pela PF, o próprio Vorcaro afirma ter custeado voos do deputado, que usou um avião ligado ao banqueiro na campanha de 2022.
A representação detalha o negócio por trás do pedido. Em janeiro de 2025, o escritório de Faria firmou contrato para intermediar a venda ou o arrendamento dos direitos minerários da Topázio Imperial, em Ouro Preto, com êxito estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões e remuneração de cerca de 25% ao advogado. 
O contrato foi feito em parceria com a Gmais Ambiental, apontada pela PF na Operação Rejeito como empresa de fachada gerida pelo ex-presidente da Feam, delegado Rodrigo de Melo Teixeira, e pelo lobista Gilberto Carvalho, ambos presos por suspeita de integrar esquema de venda de licenças ambientais.
A lavra está associada à Barragem Água Fria, apontada pelo Ministério Público Federal como uma das sete estruturas de rejeitos com maior risco de rompimento no país, construída pelo mesmo método de alteamento a montante das barragens de Mariana e Brumadinho. Bella pede que o TCE mapeie os processos de licenciamento do empreendimento na Semad, Feam e IEF e apure a atuação de agentes públicos investigados.
“O escândalo do Banco Master não é só um rombo no sistema financeiro. A própria Polícia Federal aponta que o esquema tinha um núcleo para corromper o Estado. Em Minas, as digitais de Vorcaro aparecem no contracheque dos servidores, na Serra do Curral, em Brumadinho e agora num pedido de Nikolas Ferreira para destravar um negócio milionário em cima de uma das barragens mais perigosas do país”, afirma Bella. 
As digitais de Vorcaro no governo Zema
Na representação, a deputada aponta uma série de indícios da atuação de Vorcaro no governo Zema, como consignado e doação de campanha, relação entre o Master e a mineradora Tamisa,Mina de Jangada, em Brumadinho: 
Consignado e doação de campanha: 
Em 2021, Romeu Zema sancionou a lei que ampliou em 10% a margem de consignação dos servidores estaduais, exclusiva para o cartão benefício consignado, e a regulamentou por decreto em fevereiro de 2022. É o Banco Master quem opera essa modalidade em Minas, por meio do Credcesta. Meses depois, às vésperas da campanha à reeleição de Zema, Henrique Vorcaro, pai de Daniel, doou R$ 1 milhão ao Partido Novo. Henrique foi preso em maio na Compliance Zero. Bella já havia levado o caso à Polícia Federal no mesmo mês.
Tamisa e Serra do Curral: 
Até setembro de 2025, a mineradora Tamisa tinha como acionista majoritário um fundo controlado pelo Banco Master, além de empresa administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. No governo Zema, os Termos de Ajustamento de Conduta no setor minerário mais que triplicaram (358 contra 98 na gestão anterior), e a Tamisa firmou o seu com a Semad em maio de 2022. No mesmo mês, Zema nomeou para a presidência do Iepha a prima de primeiro grau de um diretor da mineradora, enquanto o tombamento definitivo da Serra do Curral era adiado.
Mina de Jangada, em Brumadinho: 
Vorcaro foi dono de 50% da Itaminas até setembro de 2025, quando vendeu sua parte por cerca de R$ 700 milhões, às vésperas da liquidação do Master. A mineradora obteve da Semad e da Feam a retomada da Mina de Jangada, ligada ao complexo do Córrego do Feijão, por meio de “transferência automática” de licença, sem novo EIA/Rima nem audiências públicas. Cerca de 200 famílias da comunidade de Jangada têm a segurança hídrica ameaçada. A representação cita ainda reportagens sobre ONGs de fachada ligadas ao grupo para influenciar a eleição do Copam.
O que Bella pede
A deputada pede que o TCE-MG instaure procedimentos de fiscalização, auditoria e apuração de responsabilidade de agentes públicos e privados, avalie cada caso e o conjunto deles e adote medidas cautelares para interromper possíveis danos ao patrimônio público. “O Tribunal já está investigando o Master em Minas, e nós estamos levando novos fatos para que essa apuração avance e resulte em medidas concretas”, denuncia a deputada. 
“Minas já enterrou 272 vidas, 272 joias no Córrego do Feijão. Não vamos aceitar que licença ambiental vire moeda de troca entre banqueiro investigado e político amigo. Como presidenta da Comissão de Direitos Humanos, vou seguir cobrando investigação até o fim”, finaliza Bella Gonçalves.

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