A tensão entre o meio político conservador e a Igreja Católica, assim como em relação aos católicos em geral, se acirrou ainda mais no ambiente digital na tarde desta sexta-feira (25). O perfil oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na rede social X (antigo Twitter) foi alvo de uma invasão cibernética. O ataque de hackers ocorre exatamente num momento de exaltação de ânimos e extrema vulnerabilidade para o eleitorado católico, acuado por uma ofensiva ideológica de setores extremistas do bolsonarismo que tentam desidratar a relevância de seus maiores símbolos religiosos no país.
Em nota distribuída à imprensa, a assessoria de imprensa do episcopado brasileiro confirmou que a equipe de comunicação perdeu o controle sobre a conta e vem enfrentando sérios entraves operacionais para retomar o acesso. O ato de vandalismo virtual deixou marcas imediatas: a imagem de exibição do canal oficial da instituição foi sumariamente removida, e dados fundamentais de segurança, como o e-mail cadastrado pelo departamento para a gestão do canal, foram alterados pelos invasores, em uma tentativa clara de sequestro do espaço institucional.
A invasão da página da maior entidade da Igreja Católica no país não é vista por interlocutores como um episódio fortuito de criminalidade comum na internet, mas sim como mais um capítulo de um movimento ostensivo de intimidação no ápice da corrida eleitoral.
Invasão ocorre em meio à reação contra ameaça a Nossa Senhora
A sabotagem digital se consumou em meio à tempestade política provocada por uma apuração da GloboNews, que revelou a intenção de grupos ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) de ressuscitar uma bandeira histórica do fundamentalismo: a retirada do título oficial de Padroeira do Brasil concedido a Nossa Senhora Aparecida. A articulação, baseada em um projeto de lei formulado originalmente por um ex-deputado e antigo assessor da Presidência sob o governo Bolsonaro, provocou um sentimento generalizado de repúdio entre os fiéis em todas as regiões do país.
A retaliação cibernética à CNBB acontece dias após a última postagem legítima do órgão na plataforma, registrada na terça-feira (22). Na ocasião, a entidade havia manifestado profundo pesar pela tragédia com um ônibus de romeiros católicos que despencou de uma ribanceira a caminho do Santuário Nacional de Aparecida, deixando seis mortos. A transição abrupta de uma mensagem de solidariedade para um perfil desfigurado e bloqueado evidencia o clima de hostilidade imposto aos canais de diálogo da Igreja.
Até o momento, os canais técnicos do suporte do X foram acionados para comprovar a titularidade legal da instituição e restabelecer a segurança. Enquanto a conta na rede de Elon Musk permanece comprometida, a CNBB orientou a população a buscar informações exclusivamente por meio de seus veículos oficiais alternativos, como o portal na web e as contas verificadas no Instagram, Facebook, YouTube, TikTok e LinkedIn.
Incômodo com o posicionamento social e ambiental dos bispos
Para além do debate em torno da proteção dos dogmas e da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a agressão digital contra a CNBB parece guardar forte relação com as recentes manifestações de lideranças católicas em favor de pautas sociais, ecológicas e democráticas, que colidem frontalmente com o discurso da extrema direita.
Apenas dois dias antes do ataque, o episcopado cometeu o “delito” de amplificar a divulgação de uma carta aberta assinada pelos bispos das regionais do Amazonas e Roraima. No documento, as autoridades eclesiásticas recomendam de forma explícita aos fiéis que depositem seus votos em projetos políticos verdadeiramente comprometidos com a preservação do meio ambiente, a implementação da chamada Ecologia Integral e o combate ostensivo à crise climática que devasta regiões como Manaus e os rios da Amazônia.
O tom crítico dos sacerdotes à negligência ambiental, associada por anos à gestão bolsonarista, somou-se a outros pronunciamentos contundentes da hierarquia católica que irritaram a cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro.
Defesa da soberania e o Estado Laico em jogo
Outro catalisador da fúria extremista contra a CNBB foi o sermão proferido pelo arcebispo Dom Orlando Brandes durante as celebrações do 7 de Setembro, no Santuário Nacional de Aparecida. Em pronunciamento que segue viralizando e gerando forte impacto nas redes sociais, o religioso exortou o povo brasileiro a defender com firmeza a soberania da nação contra ingerências ou submissões a potências estrangeiras.
“Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui. Aqui é soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”, alertou o arcebispo em sua homilia.
A postura altiva dos Bispos do Brasil em defesa das causas socioambientais e da autonomia do país reforçou o contraste em relação às promessas de cunho teocrático feitas por Flávio Bolsonaro em palanques eleitorais, onde o senador chegou a acenar com a publicação de um decreto para determinar que o país “pertence a Jesus Cristo”, uma expressão claramente ligada ao linguajar e à liturgia do evangélicos pentecostais.
O ataque hackeando a conta da CNBB reflete a incapacidade da militância radical de conviver com o contraditório e com a voz autônoma da Igreja Católica. Diante da impossibilidade de calar a autoridade moral dos bispos nas igrejas e no debate público, a tática do medo e do silenciamento migrou para as redes digitais, escancarando os riscos que a intolerância política representa para a liberdade religiosa e para a democracia.
Ataque aos católicos: Perfil oficial da CNBB no X é hackeado
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