A conversa de que o governo Lula aumentou impostos não é erro inocente. É cilada retórica montada com precisão. Jonah Berger, professor de Wharton e autor de Contagious e O Catalisador, explica que as pessoas não compartilham informações. Compartilham narrativas. “As pessoas não pensam em termos de informação. Pensam em termos de narrativa”, escreve Berger. Uma história bem contada carrega a mensagem de carona, como um cavalo de Troia. O exterior é atraente, mas dentro vai o que se quer fazer crer. O bolsonarismo domina essa técnica. A história é simples. “O PT voltou e vai tomar seu dinheiro.” O ouvinte, fisgado pelo enredo, absorve a mentira sem perceber. Os dados, porém, contam outra história.
Comecemos pelo imposto que mais dói no bolso de quem ganha menos, o Imposto de Renda. Durante os quatro anos de Bolsonaro, a tabela ficou congelada em R$ 1.903,98. Nenhuma correção. O resultado foi que 10 milhões de brasileiros passaram a pagar IR sobre rendas que, na prática, já estavam corroídas pela inflação. A defasagem acumulada chegou a 31,59%. O governo Lula corrigiu a faixa primeiro para R$ 2.640, depois para dois salários mínimos, R$ 3.036, e, em 2025, aprovou a isenção total para quem ganha até R$ 5.000, já em vigor. Hoje, 87% dos contribuintes estão isentos. A mentira diz que Lula aumentou impostos. A verdade é que Bolsonaro fez mais gente pagar IR sobre valores menores.
A segunda ponta da cilada é o PIS/Cofins sobre receitas financeiras. Em 30 de dezembro de 2022, no apagar das luzes, o governo Bolsonaro editou um decreto que cortava pela metade as alíquotas, de 4,65% para 2,33%. Era uma renúncia fiscal de R$ 5,8 bilhões para 2023, feita sem comunicação à equipe de transição. Lula, no primeiro dia de mandato, revogou o decreto e restabeleceu as alíquotas que vigoravam desde 2015. Não criou imposto. Desfez uma bondade eleitoreira. O STF validou a medida por unanimidade.
Nos combustíveis, o roteiro se repete. Bolsonaro zerou PIS/Cofins e Cide sobre gasolina, etanol e diesel em 2022, ano eleitoral. Lula prorrogou parte das isenções, mas reonerou gasolina e etanol em 2023. A cilada chama isso de aumento. Na verdade, foi a retomada de tributos que sempre existiram, e que Bolsonaro suspendeu temporariamente para segurar preços às vésperas da eleição. O próprio ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, resumiu. “Quem fez isso foi o ex-presidente Jair Bolsonaro, que usou dinheiro de tributo dos Estados e da União dentro de um processo eleitoral.”
A reforma tributária é outro cavalo de Troia retórico. O projeto apresentado pelo governo Bolsonaro em 2020 criava a CBS com alíquota de 12%. O desenho aprovado no governo Lula estima cerca de 9%. Além disso, a carga sobre o consumo caiu, de 13,6% do PIB no governo Bolsonaro para 10% na gestão Lula. Ou seja, o imposto que mais pesa sobre os pobres, o tributo sobre bens e serviços, diminuiu, não aumentou.
A narrativa bolsonarista também ignora a arrecadação federal. Em 2023, a arrecadação administrada pela Receita somou R$ 2,204 trilhões, uma alta real de apenas 1,02% sobre 2022. Não houve aumento real significativo no primeiro ano. A carga bruta subiu de 31,2% para 32,4% do PIB entre 2022 e 2025, mas o próprio Tesouro explica. O impulso veio do IRRF, por causa do crescimento da massa salarial, não de alíquotas maiores. Mais gente empregada e ganhando mais significa mais imposto retido, não mais imposto cobrado.
A cilada funciona porque é emocional. Berger ensina que histórias com drama, reviravolta e ameaça grudam na memória. A mentira do imposto maior vende medo. Os dados, porém, são teimosos. A faixa de isenção subiu, a carga sobre o consumo caiu, o decreto eleitoreiro do PIS/Cofins foi revertido e a reforma tributária aprovada é mais leve que a proposta por Bolsonaro. A verdade não é uma narrativa atraente. É só a verdade. Quem aumentou imposto sobre os mais pobres foi Bolsonaro. Quem corrigiu a injustiça foi Lula.
A verdade sobre os impostos no governo Lula
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!