Pastor da Igreja de Flávio Bolsonaro escreveu contra Nossa Senhora Aparecida e chama lei da Santa de ilegal

Pastor da Igreja de Flávio Bolsonaro escreveu contra Nossa Senhora Aparecida e chama lei da Santa de ilegal
- JB Carvalho/Foto: Felipe Silva/Divulgação

A relação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com uma igreja evangélica cujo fundador faz críticas à devoção católica, sobretudo à Nossa Senhora Aparecida, voltou ao centro da campanha presidencial. O senador e candidato à Presidência frequenta a Comunidade das Nações, em Brasília, fundada pelo bispo JB Carvalho, autor de textos em que condena o culto à chamada “Rainha dos Céus” e relaciona a devoção a Maria a antigas práticas pagãs.
A aproximação entre Flávio e a instituição começou antes da atual disputa eleitoral. Em 2024, ele e a mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações. No fim de 2025, já como pré-candidato ao Palácio do Planalto, o senador voltou à igreja para sua primeira aparição pública depois de anunciar a candidatura.
A posição de Carvalho sobre a devoção mariana está registrada em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, livro publicado em 2001 pela editora Doxxa. Um trecho da obra reproduzido pelo pastor Sérgio Lourenço afirma: “Deus odeia o culto a Rainha dos Céus”.
Em um trecho do livro, Carvalho afirma: “a lei que estabelece Aparecida como padroeira do Brasil é ilegal. Não existe amparo constitucional para determinar que a deusa mariana seja imposta a toda uma nação como padroeira.” Mais à frente, ele diz que “o feriado de 12 de outubro é ilegal” e reafirma: “convoco a todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em Sua Palavra, que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação e que Jesus Cristo seja nosso Único Senhor no Brasil.”
O que disse Flávio Bolsonaro
O conteúdo ganhou novo contexto depois de uma declaração feita por Flávio Bolsonaro em agosto deste ano. Em vídeo publicado nas redes sociais no dia 24, o senador afirmou que, se for eleito presidente, “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala provocou reações entre católicos nas redes sociais e foi seguida por manifestações de bispos da Basílica de Nossa Senhora Aparecida. A controvérsia envolve justamente diferentes concepções cristãs sobre a figura de Maria e sua relação com Jesus.
https://x.com/jairmearrependi/status/2104111798345494532
O que diz o livro
No livro atribuído a Carvalho, a expressão “Rainha dos Céus” é apresentada a partir de uma interpretação dos capítulos 7 e 44 do livro de Jeremias, no Antigo Testamento. O autor sustenta que os habitantes de Judá teriam oferecido alimentos, incenso e libações a uma divindade feminina e atribuído a ela a prosperidade que alcançavam.
Na interpretação de Carvalho, essa prática teria provocado a ira de Deus e contribuído para os castigos sofridos pelo povo de Judá. O culto seria, portanto, uma forma de atribuir a uma entidade o que deveria ser creditado exclusivamente a Deus.
A obra vai além da interpretação do texto bíblico. Em outro trecho, Carvalho apresenta uma narrativa que associa Ninrode, Semíramis e Tamuz a uma tradição religiosa que teria dado origem à figura da “Rainha dos Céus”. O bispo relaciona essa história à representação de Maria com o menino Jesus.
Carvalho também afirma que práticas de antigas religiões dedicadas a divindades femininas teriam sido incorporadas a celebrações católicas e influenciado formas de devoção a Nossa Senhora.
Essa interpretação, contudo, não corresponde a um consenso histórico. A tese de que o culto católico a Maria teria origem direta na adoração a Semíramis não é estabelecida como fato histórico. Na doutrina católica, Maria é venerada, enquanto a adoração é reservada exclusivamente a Deus.
As passagens reproduzidas do livro permitem identificar a crítica de Carvalho ao culto à “Rainha dos Céus” e sua associação com a devoção mariana. Já afirmações mais específicas sobre todas as orações dirigidas a Maria não podem ser atribuídas literalmente ao autor com base nos trechos consultados.
Livros de Carvalho chegaram a Jair Bolsonaro
A proximidade entre o bispo e a família Bolsonaro também aparece fora da Comunidade das Nações. Obras de Carvalho foram levadas por Flávio e Michelle Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro durante o período em que ele esteve na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Em novembro de 2025, Flávio chegou para uma visita ao pai carregando Metanoia: A chave está em sua mente, de autoria de Carvalho. O episódio foi registrado pela Folha de S.Paulo.
Pouco mais de um mês depois, em janeiro de 2026, Michelle levou outro livro do bispo ao marido: A jornada de meninos a homens, publicado em 2019 e voltado à formação masculina a partir de uma perspectiva cristã.
Os episódios se somam ao batismo de Flávio e Fernanda na Comunidade das Nações e à presença do senador nos cultos da instituição.
A disputa religiosa na campanha
A declaração de Flávio sobre transformar o Brasil em um país “do Senhor Jesus Cristo” colocou a religião novamente entre os temas da campanha presidencial. O episódio também expôs uma diferença entre a linguagem utilizada pelo candidato e a tradição católica predominante no país, que atribui a Nossa Senhora um papel de intercessão.
Nesse contexto, as posições religiosas de JB Carvalho ganham relevância pela relação pública que mantém com Flávio. A ligação entre ambos é documentada por anos de participação do senador na igreja, pelo batismo realizado na instituição e pela circulação das obras de Carvalho entre integrantes da família Bolsonaro.
A Comunidade das Nações, fundada pelo bispo, tornou-se assim um dos espaços religiosos associados à trajetória pública de Flávio Bolsonaro, em um momento em que referências à fé cristã ocupam lugar destacado em seu discurso eleitoral.
 

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