Pastor analisa livro sobre Aparecida do bispo que batizou Flavio Bolsonaro. Leia trechos

Pastor analisa livro sobre Aparecida do bispo que batizou Flavio Bolsonaro. Leia trechos
Pastor analisa livro sobre Aparecida do bispo que batizou Flavio Bolsonaro. Leia trechos 9

Muito antes de o nome de J.B. Carvalho aparecer associado à família Bolsonaro, o bispo da Comunidade das Nações já havia publicado uma obra com uma tese radical sobre o catolicismo brasileiro. Em A Bomba – A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, Carvalho apresenta a devoção a Maria como resultado de uma suposta continuidade entre antigas religiões pagãs e o cristianismo católico. No centro dessa narrativa está a chamada “Rainha dos Céus”, que, segundo o autor, teria sido incorporada ao cristianismo sob a figura de Maria e, no Brasil, assumido a identidade de Nossa Senhora Aparecida.
A tese não se limita a uma divergência doutrinária com a Igreja Católica. Carvalho descreve o catolicismo como um sistema religioso associado à “Babilônia”, à idolatria e ao que denomina “religião do anticristo”. Maria é apresentada como uma espécie de máscara utilizada por uma entidade pagã para receber a adoração que deveria ser dirigida exclusivamente a Deus. O livro associa diferentes deusas da Antiguidade — entre elas Ísis, Astarte e outras divindades — à construção histórica que culminaria na devoção mariana. Trata-se de uma interpretação teológica do autor, não de uma conclusão consensual da historiografia sobre a formação do cristianismo ou do culto mariano.
É no capítulo dedicado especificamente a Nossa Senhora Aparecida, porém, que a argumentação ganha dimensão nacional. Sob o título “A Rainha dos Céus no Brasil — Nossa Senhora Aparecida”, Carvalho reconta a história da imagem encontrada no rio Paraíba do Sul em 1717 e afirma que o culto brasileiro seria uma manifestação da mesma entidade que, em sua interpretação, aparece em diferentes culturas sob nomes diversos. Aparecida é chamada de “deusa”, e a devoção católica é caracterizada como culto à “Rainha dos Céus”.
A partir daí, o livro estabelece uma relação direta entre a condição de Nossa Senhora Aparecida como padroeira e os problemas enfrentados pelo país. Carvalho escreve que, depois de Aparecida ser estabelecida como padroeira do Brasil, o país teria “afundado” em recessão, sofrido explosão da inflação, secas no Nordeste, enchentes no Sudeste e aumento da criminalidade. Na sequência, interpreta esses acontecimentos como possíveis manifestações do juízo divino provocado pelo culto à “Rainha dos Céus”.
A lógica apresentada é a de uma espécie de teologia da maldição nacional: uma nação que presta culto àquilo que Carvalho considera uma entidade pagã provoca a ira de Deus e, por consequência, fica sujeita a pragas, castigos e juízos. Para sustentar sua interpretação, o autor recorre especialmente ao episódio bíblico da “Rainha dos Céus”, em Jeremias 7, e ao relato de arrependimento nacional de 2 Crônicas 7:14.
O passo seguinte é transformar a interpretação religiosa em convocação pública. Carvalho afirma que seria necessário que o Brasil se arrependesse do culto à “Rainha dos Céus” e chega a defender que está na hora de “destronarmos a Rainha em nossa nação”. Também sustenta que o feriado de 12 de outubro seria ilegal e conclama os cristãos brasileiros a defenderem que Aparecida deixe de ser “Senhora” da nação e que Jesus Cristo seja reconhecido como seu único Senhor.
A legislação brasileira, entretanto, estabelece desde 1980 o dia 12 de outubro como feriado nacional dedicado a Nossa Senhora Aparecida, definida no texto legal como “Padroeira do Brasil”. A Lei 6.802/1980 permanece registrada pela Câmara dos Deputados sem revogação expressa. Portanto, a afirmação de Carvalho de que o feriado seria ilegal deve ser compreendida como sua interpretação jurídico-teológica, e não como descrição da situação legal brasileira.
Da guerra espiritual à política
Essa visão religiosa antecede em muitos anos o bolsonarismo. A Bomba foi publicado em 2001, quando Jair Bolsonaro ainda estava longe de ocupar a Presidência e sua família não possuía a dimensão nacional que alcançaria posteriormente. O que se observa nas décadas seguintes é a aproximação entre uma teologia de guerra espiritual, uma concepção de ocupação dos espaços públicos pelos cristãos e a atuação política de Carvalho.
Em 2022, durante a campanha presidencial, a Comunidade das Nações tornou-se um dos espaços religiosos de mobilização em favor de Jair Bolsonaro. Na Conferência Global 22 Renascimento, líderes da igreja falaram sobre um Brasil que seria governado pela igreja com Bolsonaro reeleito. Carvalho declarou na oração inicial: “Nós estamos aqui nesse feriado (justamente o 12 de outubro) dizendo que o Senhor é o Senhor do Brasil. Jesus, seja entronizado nessa nação. Depois da derrota eleitoral, o bispo pregou durante a apuração e afirmou que “nada está perdido”, acrescentando: “Jesus é o senhor dessa Pátria”.
A ligação com a família Bolsonaro se estreitou posteriormente. Flávio Bolsonaro e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, igreja fundada por Carvalho. Em 2025 e 2026, obras do bispo também foram levadas por Flávio a Jair Bolsonaro durante visitas ao ex-presidente. A relação foi novamente exposta publicamente nesta última semana, quando a imprensa passou a investigar o vínculo entre Carvalho, Flávio e a antiga posição do bispo sobre a devoção mariana, que chegou a defender em livro o “destronamento” de Aparecida.
De um lado, um livro que identifica Nossa Senhora Aparecida como expressão brasileira da “Rainha dos Céus”, associa sua devoção a supostas maldições sobre o país e convoca os cristãos a “destroná-la”. De outro, duas décadas depois, uma igreja que se tornou espaço de formação, culto e mobilização de integrantes da família Bolsonaro.
Entre os dois momentos existe uma longa trajetória ainda pouco investigada: a passagem de uma linguagem de guerra espiritual contra o catolicismo para uma linguagem de guerra espiritual aplicada à própria ideia de nação. É nessa passagem que religião, identidade brasileira e disputa política começam a ocupar o mesmo território simbólico.
O Livro
O prefácio do livro, escrito pelo ex torturador militar Bispo Átila Brandão, diz “Em linguagem fácil, quase coloquial, este Ish Esh (homem de fogo), como canal dos Céus, procura advertir aos verdadeiros adoradores quanto as astutas ciladas do maligno, grande sedutor dos incautos, armador do laço do passarinheiro…”
Carvalho diz que “A Rainha dos Ceus (…) no Brasil, se mascara com o nome de Aparecida”
Leia outros trechos do livro e confira o que está sendo dito pelo pastor que batizou e ainda tem “autoridade espiritual” sobre a vida de Flavio Bolsonaro:

E, por fim, a jogada final, um apelo a que a Câmara e o Senado destituam Nossa Senhora Aparecida do título de “padroeira do Brasil”:

*  Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas

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