JB Carvalho: quem é o bispo ligado a Michelle e Flávio Bolsonaro que atacou devoção a Nossa Senhora Aparecida

JB Carvalho: quem é o bispo ligado a Michelle e Flávio Bolsonaro que atacou devoção a Nossa Senhora Aparecida
Batismo de Flavio Bolsonaro na igreja de JB Carvalho e Michelle, Jair Bolsonaro em evento com JB - Fotomontagem:...

João Batista Araújo Carvalho Lima, o bispo JB Carvalho, passou mais de três décadas construindo uma das redes religiosas mais influentes de Brasília antes de chegar ao centro da atual disputa envolvendo Flávio Bolsonaro, a Igreja Católica e Nossa Senhora Aparecida.
Natural de Teresina, no Piauí, Carvalho é fundador e líder da Comunidade das Nações, igreja criada em Brasília no início dos anos 2000 e que hoje, segundo a própria instituição, reúne mais de 50 campi no Brasil, Estados Unidos e Portugal. A organização informa que ele soma 32 anos de ministério e 23 livros publicados.
É casado com a bispa Dirce Carvalho, com quem tem duas filhas, Chara e Caris. Dirce comanda o Modeladas, movimento feminino ligado à Comunidade das Nações que se tornou uma das pontes de aproximação entre a família Carvalho e Michelle Bolsonaro.
O nome de JB voltou aos holofotes depois que a sua ligação com a atual controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida foi exposta. Em um livro publicado em 2001, décadas antes da aproximação com os Bolsonaro, o religioso defendeu que a santa deixasse de ser reconhecida como padroeira do Brasil.
De Teresina a uma rede internacional
A Comunidade das Nações foi estruturada em Brasília, onde JB consolidou sua carreira como pregador, escritor e formador de lideranças. O próprio perfil institucional do bispo destaca sua atuação não apenas na esfera religiosa, mas também nos meios político e educacional.
Ao longo dos anos, JB transformou a igreja em palco de grandes conferências que reúnem pastores brasileiros e estrangeiros. Ele também integra a International Coalition of Apostolic Leaders (ICAL), rede internacional do chamado movimento apostólico, que reúne lideranças religiosas de diferentes países.
Antes mesmo da ascensão dos Bolsonaro ao Palácio do Planalto, JB já tinha trânsito político em Brasília. Em 2016, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo da Câmara dos Deputados.
Durante o governo Jair Bolsonaro, a aproximação com o poder aumentou. Em novembro de 2021, JB foi admitido no grau de Comendador da Ordem de Rio Branco por decreto assinado pelo então presidente. No mesmo ato também foi condecorado o bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra.
Uma “estratégia de conquista”
A atuação de JB está ligada a uma visão religiosa que busca ampliar a influência cristã para além das igrejas.
Em uma pregação publicada pela própria Comunidade das Nações, Carvalho resumiu essa concepção em uma frase: “Temos uma estratégia de conquista.”
JB se refere à chamada estratégia das “Sete Montanhas”, que identifica sete áreas consideradas fundamentais na formação da sociedade: política, economia, arte e entretenimento, mídia, família, religião e educação.
“Há sete montes e nós te comissionamos para ocupar a sua esfera de influência”, escreveu o bispo em 2022. No texto, disponível no site oficial da Comunidade das Nações, JB fala em inimigos a serem vencidos para conquistar essas áreas.
Em outra ministração, foi ainda mais direto ao definir a missão política e social de sua corrente religiosa: “Desejamos ganhar os governos do mundo.” Também falou em “redimir culturas”, “converter nações” e “modificar sociedades”.
Essa visão ajuda a explicar por que política e religião passaram a caminhar juntas nos grandes eventos promovidos pela Comunidade das Nações.
Michelle já circulava no grupo antes da eleição de Bolsonaro
A aproximação com Michelle Bolsonaro começou a aparecer publicamente antes mesmo da chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.
Em setembro de 2018, a cantora gospel Eyshila publicou uma foto ao lado de Michelle e contou que havia reencontrado a então esposa do candidato presidencial meses antes, durante a conferência Modeladas, da Comunidade das Nações, em Brasília.
O encontro havia ocorrido em abril daquele ano, quando Bolsonaro ainda era pré-candidato. O Modeladas é idealizado por Dirce Carvalho, que nos anos seguintes se tornaria uma das amigas mais próximas de Michelle.
A presença mostra que Michelle já circulava no ambiente religioso comandado por JB e Dirce cerca de seis meses antes da eleição presidencial.
Depois da vitória de Bolsonaro, a aproximação ganhou caráter público.
Em dezembro de 2018, ainda antes da posse, Jair Bolsonaro foi à Comunidade das Nações participar de um “Encontro de Oração Pelo Novo Governo do Brasil”. Reunido com JB e outros líderes evangélicos, recebeu orações pelo governo que começaria semanas depois.
Em 2019, Jair e Michelle voltaram à igreja e subiram ao palco da Conferência Global da Comunidade das Nações ao lado de JB e da então ministra Damares Alves.
“Bolsonaro é a resposta às orações da igreja”
A relação de JB com Jair Bolsonaro ganhou outro patamar durante a disputa pela recondução do então presidente.
Em março de 2022, durante uma reunião de pastores no Palácio da Alvorada, o bispo comparou Bolsonaro a Donald Trump e afirmou: “Eu espero que, antes que seja tarde, nós saibamos que Jair Bolsonaro é a resposta às orações da igreja.”
JB também atuou na articulação evangélica em defesa da indicação de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal. Em setembro de 2021, integrou um grupo de religiosos que pressionava pela realização da sabatina de Mendonça no Senado.
No ano seguinte, a Comunidade das Nações se tornou um dos palcos religiosos da campanha de Bolsonaro.
A unção de Michelle
A ligação mais duradoura, porém, foi construída com Michelle.
Durante a campanha de 2022, a então primeira-dama participou da Pré-Conferência Global da Comunidade das Nações. Depois de discursar, ajoelhou-se no palco enquanto JB colocou as mãos sobre ela e conduziu uma unção pública.
Na oração, o bispo agradeceu pelo governo Bolsonaro e falou na continuidade de uma “visão” que teria começado em 2018.
Mesmo depois da saída de Jair Bolsonaro do Planalto, Michelle permaneceu próxima da Comunidade das Nações e de Dirce Carvalho.
Foi JB, ainda, quem aproximou Michelle da pregadora nigeriana Obii Pax-Harry, integrante da mesma rede apostólica internacional da qual o bispo brasileiro participa. Em junho de 2026, Michelle recebeu Obii na sede da Comunidade das Nações, em Brasília, três dias antes de publicar o vídeo que expôs seu conflito com Flávio Bolsonaro.
Flávio chega à igreja
A ligação com Flávio Bolsonaro é mais recente.
Em 2024, o senador e a esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações. A cerimônia foi realizada pelo pastor Pedro Leite, integrante da igreja fundada por JB.
Ao divulgar o batismo, Flávio afirmou que dava “mais uma guinada pro lado certo na vida”.
A escolha da Comunidade das Nações voltou a chamar atenção em dezembro de 2025. Dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, Flávio fez justamente na igreja de JB sua primeira aparição pública após o anúncio.
Os livros do bispo também começaram a aparecer nas visitas da família a Jair Bolsonaro. Flávio levou ao pai Metanoia: A chave está em sua mente. Michelle levou outra obra de JB, A Jornada de Meninos a Homens.
“Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”
Foi um livro muito anterior a toda essa aproximação que colocou JB no centro da crise religiosa que marca os últimos dias da campanha presidencial.
Em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, Carvalho escreveu que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus” e fez uma série de ataques à devoção católica a Maria.
O bispo questionou ainda o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, classificou a legislação sobre o tema como “ilegal”, contestou o feriado de 12 de outubro e defendeu mobilização de cristãos junto ao Congresso Nacional para mudar essa condição.
“Que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação”, escreveu.
As declarações ressurgiram justamente quando Flávio tenta conter uma crise com o eleitorado católico. O senador negou que pretenda retirar de Aparecida o título de padroeira e passou a acusar pessoas ligadas à CNBB de disseminarem essa informação.
Neste domingo (27), Flávio afirmou haver “gente de dentro da CNBB” envolvida na divulgação da história, sem apresentar provas. A entidade respondeu nesta segunda-feira (28) e afirmou que “a mentira não se combate com outra mentira”.
No centro da controvérsia está agora um bispo cuja história com os Bolsonaro não começou nesta eleição: Michelle já circulava em eventos de sua igreja em 2018, Jair foi recebido e abençoado no templo antes da posse, e Flávio seria batizado anos depois na mesma comunidade.
E foi JB Carvalho, muito antes dessa aproximação, quem deixou por escrito a defesa de retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil.
 

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