Flávio Bolsonaro presenteou o pai, Jair, na prisão com livro em que bispo JB Carvalho ataca “santos católicos”

Flávio Bolsonaro presenteou o pai, Jair, na prisão com livro em que bispo JB Carvalho ataca “santos católicos”
Flávio Bolsonaro presenteou o pai, Jair, na prisão com livro em que bispo JB Carvalho ataca "santos católicos" 2

Três dias após ser preso em uma cela da Polícia Federal (PF), após tentar romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, em novembro de 2025, Jair Bolsonaro (PL) recebeu de presente do filho, Flávio Bolsonaro o livro Metanoia – A Chave está em sua mente, do pastor JB Carvalho, líder da igreja Comunidade das Nações, frequentada pelo filho “01” do ex-presidente, pela esposa dele, Fernanda Bolsonaro, e pela ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
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No livro, em que defende uma “transformação profunda” da mente, propondo que o leitor abandone o “pensar quadrado e enviesado” em direção a uma “consciência expandida”, o pastor, que já havia escrito uma obra classificando Nossa Senhora como “Deusa da promiscuidade”, ataca frontalmente os santos católicos, classificados como “disfarces” de antigos deuses cultuados no “paganismo” – o conjunto de tradições, crenças e práticas espirituais que não pertencem às religiões abraâmicas, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.
No capítulo “Guerra Cultural”, Carvalho constrói uma narrativa histórica segundo a qual, após a expansão do cristianismo pelo Império Romano, o paganismo não teria simplesmente desaparecido.
“Com a invasão cristã no mundo, os deuses do panteão greco-romano caíram em descrédito, o que foi chamado pelos historiadores de O Crepúsculo dos Deuses (Götterdämmerung)”, afirma ele, citando ópera do compositor alemão Richard Wagner.
Segundo a interpretação apresentada no livro, JB Carvalho afirma que teria ocorrido uma assimilação de elementos pagãos pelo cristianismo, que resultaram na devoção aos “santos católicos”.
“Com o advento da igreja, os deuses das mais variadas tribos e nações do império romano tombaram e deixaram de ser adorados. O historiador Will Durant descreve que o paganismo vencido procurou sincretizar-se ao cristianismo mediante o culto dos deuses pagãos disfarçados de santos católicos“, diz o pastor do clã Bolsonaro no livro.
Na sequência, ele sustenta que o “inimigo” teria introduzido seu “fermento” no cristianismo, adulterando a mensagem original do Evangelho.
“O inimigo inseriu sorrateiramente seu fermento falsificando a mensagem do Evangelho. Nossa versão adulterada tem como carro-chefe o gnosticismo. Essa foi a pior heresia do século primeiro que atormentou a igreja apostólica”, afirma, atacando diretamente o Catolicismo.

A crítica aparece dentro de uma visão mais ampla de Carvalho sobre a história do cristianismo, na qual a Reforma Protestante é apresentada como uma ruptura com elementos da tradição católica medieval. Em outro trecho, ele afirma que “na cultura católica medieval o trabalho era visto como um castigo”, enquanto para os protestantes seria “uma vocação para a vida”.
“Na cultura católica medieval o trabalho era visto como um castigo, enquanto para os protestantes era uma vocação para a vida.”
Esse trecho ajuda a mostrar que a crítica não está restrita aos santos. O livro constrói uma oposição mais ampla entre a cristandade católica medieval e a Reforma Protestante, apresentada por Carvalho como uma recuperação de princípios que teriam sido perdidos.
Ataque velado à devoção à Nossa Senhora
Carvalho também é autor do livro A Bomba – A verdade pode ser explosiva, em que prega explicitamente um movimento para destituir Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Neste domingo (27), ele fez um ataque velado à devoção dos católicos à santa, cuja imagem, de uma Maria negra, foi resgatada por três pescadores no Rio Paraíba em 1.717 e se tornou símbolo do catolicismo no país.
Em culto na Comunidade das Nações, igreja fundada por ele, JB Carvalho retomou os ataques à devoção dos católicos à imagem, algo que é rechaçado por ele e por parte das igrejas evangélicas.
“Podemos oferecer a Deus a aparência de nossa devoção enquanto resistimos. Podemos oferecer nossas palavras sem obediência, nosso dinheiro sem integridade, nosso trabalho religioso sem coração”, afirmou o bispo ligado ao clã Bolsonaro, em corte de seu sermão publicado pela Comunidade das Nações no Instagram.
“O que Deus denuncia é a fraude de quem transforma a adoração em uma representação”, emendou, em clara crítica à devoção das imagens pelos católicos em meio ao debate nas redes sobre Nossa Senhora Aparecida.
Teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas, Zé Barbosa Jr., que analisou o livro de JB Carvalho afirma que a declaração apenas camufla o que a obra, publicada em 2001, já deixava claro: o plano de ataque à padroeira do Brasil.
“Ainda que tentem camuflar ou usar linguagens mais leves nos vídeos, o livro ‘A Bomba’ do bispo J.B. Carvalho não deixa dúvidas e fala de forma contundente que a Rainha dos Céus (que ele associa a Nossa Senhora, no caso) é uma entidade macabra, o braço direito de Satanás e que, após ser declarada como padroeira do Brasil o país caiu em desgraça”, afirma Zé Barbosa Jr., que também é colunista da Fórum.
Em trecho do livro, o bispo da Comunidade das Nações diz que a “figura que se insurge não se trata de Maria, a mãe de Jesus, e sim de um anjo perverso, caído e profundamente maligno” e também fala em “fraude” e “engodo” na devoção à padroeira do Brasil.
“A realidade dessas aparições é incontestável, porém a figura que se insurge não se trata de Maria, a mãe de Jesus, e sim de um anjo perverso, caído e profundamente maligno. Não se trata de fraude humana, e sim de um engodo astarótico. Assim como os ‘extraterrestres’ estão aparecendo por aí e nós sabemos quem eles realmente são, pois se tratam de demônios, Satanás está aparecendo por aí com feixes de luz, como por hologramas criados de alguma forma para impressionar os incautos”, escreve.
“Deusa da Promiscuidade”
No livro A Bomba – A verdade pode ser explosiva, JB Carvalho classifica a mãe de Jesus Cristo, na crença cristã, como “Deusa da promiscuidade” que, segundo ele, seria uma “entidade macabra” responsável pelo que considera as mazelas do mundo e do Brasil.
“Segundo demonólogos, a Rainha dos Céus é a mais poderosa entidade infernal de todas as mitologias. Para outros, ela é o braço direito de Satanás. Trata-se de uma entidade macabra, promotora da prostituição e pornografia mundial, estando por detrás da indústria do sexo e dar perversão, deusa do amor pervertido e amoral, deusa da fertilidade que promove o aborto, a licenciosidade e a lascívia”, escreve o bispo ligado ao clã Bolsonaro.
Em outro trecho, JB Carvalho faz uma convocação para “destronarmos a Rainha em nossa nação e servir ao Deus verdadeiro”.
“Convoco todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em sua palavra que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação e que Jesus Cristo seja nosso único Senhor no Brasil”, escreve.
No livro, o bispo ainda credita ao culto à padroeira todos os males do Brasil desde Tancredo Neves, primeiro presidente eleito depois da Ditadura Militar.
“Tancredo Neves recebeu a ‘bênção’ para governar nosso país: Não subiu a rampa do Palácio. No Brasil, a ‘bênção’ papal aceita pelas autoridades governamentais não ajudou em nada nossa nação. Após Aparecida ser estabelecida como a padroeira do Brasil, nossa nação afundou na recessão, a inflação explodiu, as secas no nordeste dizimaram as plantações, enchentes no sudeste, criminalidade nas ruas, etc”.

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