Luciano Huck divulga plataforma acusada de direcionar votos para a direita no Domingão

Luciano Huck divulga plataforma acusada de direcionar votos para a direita no Domingão
Huck divulga no Domingão o TemMeuVoto - Foto por MAURO PIMENTEL / AFP

Faltando apenas 7 dias para as eleições presidenciais, o apresentador Luciano Huck divulgou em rede nacional, em seu programa Domingão com Huck, neste domingo (27), a plataforma Tem Meu Voto, ferramenta acusada de direcionar eleitores para candidaturas da direita e do campo liberal.
O site, que faz uma espécie de Quiz com o eleitor, foi apresentado por Huck na TV Globo como uma iniciativa gratuita e “apartidária”, que promete calcular a proximidade política entre os cidadãos e postulantes ao Legislativo.
O comunicador interrompeu a dinâmica do programa para defender o uso do sistema. Poucas horas depois da exibição em horário nobre, usuários começaram a publicar simulações com resultados distorcidos, contestar as perguntas do questionário e denunciar a predominância de nomes conservadores nos índices de afinidade.
https://x.com/GORILLAZ1962/status/2104557357699133603
Huck divulga no Domingão e testes com a direita viralizam
Um dos testes que mais repercutiram partiu de Felipe Marinho de Oliveira. Ele se declarou de esquerda e decidiu responder ao formulário simulando posições ainda mais radicais que as suas, adotando a postura de um “comunista trotskista”.
O resultado entregue pelo sistema gerou espanto ao apontar alta compatibilidade com quadros do liberalismo econômico: Sol Villas Boas, do Novo, com 69% de proximidade; Marcela Gomes, também do Novo, com 50%; e Ítalo Moreira, do Missão, com 61%. Nas três fichas, o TemMeuVoto informava que as respostas haviam sido fornecidas pelas próprias campanhas.
https://x.com/LipeMarinho/status/2104508160333791323
A identidade ideológica dessas siglas não é segredo. Em publicação institucional recente, o próprio Novo frisou com clareza: “O Partido Novo (30) é de direita”. O Missão, por sua vez, registra em seu estatuto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o “caráter liberal” e o compromisso estrito com a economia de mercado.
Outros internautas relataram o mesmo padrão. Dudu Guimarães exibiu simulações dominadas por nomes do Novo e do PL, enquanto Julio Freire questionou se o sistema não opera como uma vitrine de indução para capturar o voto de eleitores indecisos na reta final da disputa.
https://x.com/Dudu/status/2104566546525835531
https://x.com/JFreiress_/status/2104560803898642901
Os testes individuais não provam que todos os eleitores progressistas receberão opções conservadoras. A repercussão, porém, abriu uma questão de fundo: como o TemMeuVoto calcula essas afinidades e quem decide o peso de cada resposta?
TemMeuVoto admite “decisão editorial” no cálculo de votos
A resposta está nos bastidores da própria metodologia do TemMeuVoto. A versão atualmente em vigor foi atualizada em 27 de setembro de 2026, exatamente o mesmo domingo em que Huck exibiu a plataforma na Globo.
O eleitor responde a oito afirmações. Quando o candidato também respondeu, o cruzamento é direto. Mas quando a candidatura não participou do formulário, o sistema adota regras próprias de inferência.
Para deputados federais em exercício, a plataforma converte votações nominais da Câmara (2023–2026) em respostas presumidas. Se o postulante à Câmara ou ao Senado não tiver votos nem formulário, ele recebe a posição atribuída à bancada do seu partido.
Quem seleciona as votações e define o significado do voto parlamentar é a própria organização. O documento metodológico confessa textualmente que “a escolha das votações e do sentido que cada voto representa é decisão editorial do TemMeuVoto”.
Esse filtro manual gera distorções evidentes. No tema trabalhista, a plataforma escolheu a votação sobre a escala 6×1. O próprio documento admite que o placar de 472 a 22 “separa pouco” os parlamentares, mas manteve a matéria no cálculo por pura “decisão editorial”.
Mais grave ainda: na área de segurança pública, a plataforma precisou substituir uma votação porque o sentido do voto estava invertido em relação à pergunta feita ao eleitor (o “sim” garantia uma pena branda e o “não” uma pena dura). A correção foi admitida publicamente para sanar a leitura distorcida.
Perguntas enviesadas e apagão nas disputas estaduais
A formulação das oito premissas também embute premissas econômicas do pensamento liberal. Em vez de temas neutros, o questionário amarra políticas públicas a sacrifícios e perdas de garantias.
No tópico trabalhista, o eleitor deve dizer se aceita maior liberdade de negociação mesmo que isso reduza direitos previstos em lei. Na pauta tributária, a redução de impostos aparece vinculada ao corte de serviços públicos. No meio ambiente, o combate às mudanças climáticas é condicionado à imposição de custos à economia.
Além disso, há um desequilíbrio estrutural federativo: candidatos a deputado estadual ou distrital que não responderam ao formulário não recebem inferência da bancada partidária. Se a candidatura de base ou de esquerda não preencheu o questionário de ONGs privadas, ela fica sem percentual de proximidade,  enquanto candidaturas de direita engajadas nas redes pontuam com facilidade diante do público.
RenovaBR lançou site com grupo liberal que depois ‘sumiu’
O mapa de apoios da ferramenta aprofunda os questionamentos sobre sua suposta neutralidade.
A página oficial do TemMeuVoto lista hoje 13 entidades na Coalizão pelo Voto Consciente, entre elas Centro de Liderança Pública (CLP), Comunitas, Instituto Ethos, Movimento Pessoas à Frente e o RenovaBR.
No lançamento da ferramenta, contudo, a formação era diferente. Em comunicado de 17 de setembro, o próprio RenovaBR celebrava que a coalizão reunia 14 organizações, incluindo o Livres. Hoje, o Livres não consta mais no site do TemMeuVoto, sem que qualquer explicação pública tenha sido dada para a alteração.
O Livres se apresenta abertamente como uma entidade voltada a formular e defender “soluções liberais para o Brasil”. Em seus canais, o movimento destaca conexões com a alemã Friedrich Naumann Foundation, a Liberal International e a norte-americana Atlas Network,  conhecida articuladora global de think tanks de direita, responsável por patrocinar documentários e programas da organização brasileira.
Huck, RenovaBR e a eleição de 2018
A aliança de Luciano Huck com esse grupo é antiga. Em 2018, o apresentador atuou como o principal garoto-propaganda do RenovaBR, doou recursos para candidaturas de renovação e promoveu a primeira versão do Tem Meu Voto, a quem apelidou de “Tinder eleitoral”.
Naquele ano, dos 17 parlamentares eleitos com o apoio do RenovaBR, oito eram filiados ao Novo. Nenhuma candidatura do PT integrou a lista de 120 formados pela entidade. Mais recentemente, Huck voltou ao centro de polêmicas políticas ao tecer críticas à dinâmica do Bolsa Família durante palestra para empresários no Guarujá.
Exposição na TV aberta ocorre a sete dias das urnas
A gravidade da exposição no Domingão ganha contornos eleitorais pelo calendário: o primeiro turno ocorre no próximo domingo, 4 de outubro. Desde 6 de agosto, a Resolução 23.610 do TSE proíbe concessões de rádio e TV de veicularem propaganda política ou concederem privilégio a candidaturas em programas regulares.
Embora a divulgação de aplicativos cívicos não configure irregularidade automática, a reação nas redes sociais coloca o caso sob os olhos da Justiça Eleitoral. O TemMeuVoto nega recomendar votos e insiste no discurso apartidário. No entanto, o que a apuração revela por trás da tela é um emaranhado de perguntas carregadas, decisões editoriais subjetivas e vínculos históricos com o campo liberal, levados a milhões de lares na semana mais decisiva da eleição.

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