A estratégia de arrefecimento de danos posta em prática pela campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) esbarrou na resistência e no ceticismo da alta hierarquia católica. A despeito do aceno público feito pelo postulante ao Planalto nesta segunda-feira (28), quando buscou abrandar a crise ao tecer elogios à direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lideranças religiosas mantêm o tom de alerta e cobrança sobre as diretrizes institucionais defendidas pelo parlamentar.
Um dos posicionamentos mais contundentes partiu de Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo da Diocese de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, e integrante das comissões para o Laicato e da Pastoral da Saúde da CNBB. Em declarações à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o prelado deixou evidente que o aceno do candidato e a retratação parcial das críticas anteriores não anulam preocupações profundas acerca do projeto político e das garantias constitucionais no país.
Estopim da controvérsia institucional
Na avaliação do bispo, o cerne do debate vai muito além do embate conjuntural e exige do candidato explicações formais e urgentes sobre compromissos assumidos publicamente. A inquietação refere-se a uma declaração gravada em agosto pelo próprio senador, na qual justificava sua ausência no debate promovido pela TV Bandeirantes sob o argumento de que pretendia confrontar apenas oponentes que “não acreditam em Deus”. Naquela ocasião, Flávio assegurou que sua primeira medida formal no Executivo seria “decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”.
Para a autoridade eclesiástica, a declaração não pode ser descartada como mera figura de linguagem ou manifestação íntima de espiritualidade, constituindo, na realidade, o anúncio de um programa institucional de governo com potencial de ferir a Carta Magna. Dom Roberto adverte que o estabelecimento de normas confessionais por parte do Poder Executivo representa um grave risco à convivência pacífica entre diferentes crenças, podendo resultar na concessão de privilégios a determinados segmentos e na marginalização de minóricas comunidades religiosas e cidadãos não-cristãos.
A assessoria de imprensa do candidato do PL buscou minimizar o teor do discurso, declarando que a promessa se resume ao desejo de realizar uma oração antes da leitura oficial do termo de posse no Palácio do Planalto, dedicando o mandato à figura divina. No entanto, o bispo da CNBB enfatiza que a palavra empenhada por um postulante à chefia de Estado tem peso normativo e necessita de escrutínio público detalhado.
Paralelos históricos e contornos ideológicos
Ao aprofundar sua análise, o religioso citou à colunista precedentes históricos em que o instrumental religioso foi empregado para fins de consolidação de poder político na América Latina. Dom Roberto lembrou a experiência do Chile sob o regime militar do ditador Augusto Pinochet nos anos 1970, ocasião em que a ditadura buscou aproximar-se de vertentes evangélicas como forma de enfraquecer o protagonismo e a oposição da Igreja Católica contra as violações de direitos humanos no país.
O bispo apontou também para a influência de tendências doutrinárias de matiz dominacionista, oriundas de alas radicais do pentecostalismo norte-americano. Tais correntes defendem explicitamente a hegemonia e a ocupação dos espaços institucionais pelo cristianismo evangélico como projeto de poder e controle das estruturas do Estado.
A manifestação da liderança católica ocorre em um momento de extrema fragilidade na relação entre o candidato e o eleitorado religioso tradicional. Após acusar setores internos da CNBB de endossarem narrativas adversárias sobre a retirada do título de padroeira nacional de Nossa Senhora Aparecida, Flávio usou sua agenda na capital paulista para agradecer à conferência por ter esclarecido o caso. Contudo, para o bispo fluminense, o episódio não apaga a gravidade das propostas apresentadas pela campanha.
A preservação do Estado laico
A fundamentação do clérigo centra-se na defesa rigorosa da laicidade como salvaguarda da harmonia social. Segundo o bispo, embora qualquer postulante tenha o direito individual de expressar sua convicção pessoal, é vedado a um gestor público transformar preceitos de sua fé individual em políticas públicas ou em diretrizes estatais de caráter confessional.
Dom Roberto reitera que a estrutura do Estado carece de filiação religiosa e deve funcionar como garantidora imparcial da liberdade de culto para a totalidade dos cidadãos. Sob essa ótica, nomeações e definições administrativas não podem pautar-se por alinhamentos ou dogmas de fé — uma crítica indireta ao histórico de indicações baseadas em critérios estritamente religiosos no sistema judiciário e no primeiro escalão de governos recentes.
A cobrança do bispo explicita que a recomposição do diálogo com a comunidade católica dependerá de sinalizações concretas de respeito às instituições republicanas e à diversidade religiosa do país, e não apenas de discursos pontuais de ocasião durante o período eleitoral.
Bispo da CNBB cobra Flávio Bolsonaro por promessa de decretar “Brasil do Senhor Jesus”
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