“Entre nós resolvemos depois”: Hugo Motta e Vorcaro tratam de “sociedade” em negócio de R$ 45 milhões

“Entre nós resolvemos depois”: Hugo Motta e Vorcaro tratam de “sociedade” em negócio de R$ 45 milhões
Hugo Motta e Vorcaro - Mário Agra/Câmara dos Deputados

Hugo Motta e Vorcaro aparecem lado a lado em uma negociação que movimentou dezenas de milhões de reais na Paraíba. No papel, o negócio estava em nome da cunhada do deputado. Nas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro e divulgadas pela imprensa, no entanto, é o próprio Hugo Motta quem trata diretamente com o então controlador do Banco Master sobre pagamento, autorização bancária e um “formato de sociedade”.
Os diálogos começam em março de 2024. Naquele momento, Motta ainda não presidia a Câmara dos Deputados — ele seria eleito para o cargo apenas em fevereiro de 2025.
A operação estava ligada à compra de uma área de mais de 400 hectares em João Pessoa, onde funcionava uma antiga fábrica de cimento. O negócio foi fechado por R$ 45 milhões. Documentos citados nas reportagens apontam valor fiscal de R$ 101 milhões para o imóvel.
A empresa envolvida na aquisição estava sob controle de Bianca Medeiros, cunhada de Hugo Motta. Poucos dias depois da transferência da companhia para ela, o Banco Master concedeu à empresa um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões, tendo as próprias cotas empresariais como garantia.
Hugo Motta e Vorcaro falam em “formato de sociedade”
É justamente nesse ponto que as novas mensagens acrescentam uma informação que não aparece nos registros formais do negócio.
Em 7 de março de 2024, Motta procurou Vorcaro para tratar do “assunto da PB”. Dois dias depois, contou que estava reunido para concluir a compra da área e afirmou que os documentos para passar a empresa para sua cunhada já estavam assinados.
Na sequência, Motta escreveu que uma executiva do Master que conduzia a operação aparentemente não sabia do “formato de sociedade que ficou combinado”.
Vorcaro respondeu que faria primeiro a operação bancária e que, paralelamente, organizariam a questão societária. Em seguida, escreveu: “Entre nós resolvemos depois”.
Motta respondeu que estava tudo pronto para fazer “conforme acertamos”.
Nos dias seguintes, o deputado continuou acompanhando a operação. Em 13 de março, informou que as assinaturas necessárias para seguir com o pagamento estavam resolvidas. Dois dias depois, agradeceu a Vorcaro pela “confiança e parceria”.
O banqueiro respondeu dizendo estar feliz por estarem juntos e classificou aquele momento como o início de uma “parceria de vida”.
Em 22 de março, Motta voltou a procurar Vorcaro. Disse que uma pessoa do banco estava esperando autorização para prosseguir com a operação. No dia seguinte, o dono do Master respondeu que já havia falado com sua equipe e que a operação estaria disponível na segunda-feira.
Motta pede estudo sobre FGC e fala em “encaixar” assunto
Na mesma troca de mensagens de 23 de março aparece outro tema: o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Motta pediu que Vorcaro lembrasse sua equipe de preparar um estudo sobre o fundo e sugeriu que os dois retomassem o assunto caso o banqueiro fosse a Brasília. O deputado escreveu que poderiam conversar para saber “onde podemos tentar encaixar esse assunto”.
Vorcaro respondeu que já estava cuidando do tema.
As mensagens divulgadas até agora não detalham qual era o assunto relacionado ao FGC nem explicam o que Motta pretendia “encaixar”.
Mercado de carbono entra na conversa
Meses depois, outra pauta em discussão no Congresso apareceu no diálogo entre os dois.
Em 19 de novembro de 2024, Vorcaro perguntou se conseguiria encontrar Motta naquele mesmo dia. O deputado respondeu afirmativamente e disse que estava buscando um texto para enviá-lo ao banqueiro.
Segundo as mensagens divulgadas, Motta encaminhou informações relacionadas ao texto do projeto que regulamentava o mercado de carbono após sua passagem pelo Senado.
A relação de Motta com esse projeto já havia sido mostrada pela Revista Fórum. Em maio, reportagem de Ivan Longo revelou que a investigação da Polícia Federal mencionava uma emenda apresentada pelo deputado ao projeto do mercado de carbono e os possíveis efeitos da medida sobre negócios ligados à família de Daniel Vorcaro.
O registro oficial da Câmara dos Deputados confirma que Motta apresentou, em 21 de dezembro de 2023, a Emenda de Plenário 22 ao texto que posteriormente passou a tramitar como PL 182/2024.
A regra que chegou à versão final da legislação determinava que seguradoras, entidades abertas de previdência complementar, sociedades de capitalização e resseguradoras aplicassem parte de suas reservas técnicas em créditos de carbono ou fundos vinculados a esses ativos.
Em novembro de 2024, a Câmara concluiu a votação do marco do mercado de carbono, que deu origem à Lei 15.042/2024.
O dispositivo acabaria derrubado pelo Supremo Tribunal Federal. Em julgamento encerrado em 29 de maio de 2026, o STF declarou por unanimidade inconstitucional o artigo 56 da lei, que estabelecia a aplicação obrigatória de recursos do setor nesses ativos.
Avião de Vorcaro à disposição de Motta
A interlocução não ficou restrita a dinheiro e projetos.
Em 27 de abril de 2024, Motta perguntou a Vorcaro de onde sairia o avião que o levaria de Guarulhos, em São Paulo, para Brasília.
“Já vai estar te esperando”, respondeu o banqueiro.
Outras mensagens divulgadas mostram que a relação entre os dois continuou ao longo daquele ano, com referências a viagens, encontros e demonstrações pessoais de proximidade.
O que diz Hugo Motta
Hugo Motta nega qualquer irregularidade. Por meio de sua assessoria, afirmou que sempre manteve interlocução com representantes de diferentes setores durante sua atuação parlamentar e declarou que não há ilícito nos diálogos divulgados.
O presidente da Câmara também repudiou interpretações de que as conversas demonstrem favorecimento e ressaltou que o empréstimo feito à empresa de sua cunhada ocorreu antes de se tornarem públicos os fatos que deram origem às investigações sobre o Banco Master.
Motta afirmou ainda confiar nos órgãos responsáveis pelas apurações.
Na manifestação divulgada, porém, não há esclarecimento sobre quem integraria o “formato de sociedade” mencionado diretamente na conversa com Vorcaro, nem sobre qual era o assunto relacionado ao FGC que o deputado queria discutir em Brasília para saber onde poderia ser “encaixado”.

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