EUA fazem exercício militar na Amazônia alinhado à estratégia de Trump

EUA fazem exercício militar na Amazônia alinhado à estratégia de Trump
Exercício militar na Amazônia - Imagem Ilustrativa. Operação CORE 23 - Brasil/EUA Exercício CORE23 de 2025...

Quase 400 militares dos Estados Unidos, Peru, Chile e Argentina participaram neste mês de um exercício militar na Amazônia peruana que o próprio Exército americano relaciona à estratégia do governo Donald Trump para ampliar sua atuação no chamado Hemisfério Ocidental. O treinamento ocorreu em Sauce, na região de San Martín, entre os dias 7 e 18 de setembro.
A movimentação foi revelada nesta quarta-feira (30) pelo jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, que chamou atenção para o contexto político em que o exercício foi realizado. A reportagem original pode ser lida aqui.
Batizada de Southern Vanguard 2026, a operação foi organizada pelo Exército peruano em coordenação com o Comando do Exército dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental. Segundo o Comando Sul dos EUA, o Peru recebeu o exercício pela primeira vez.
Os militares treinaram técnicas de sobrevivência e deslocamento na selva, travessias aquáticas e operações combinadas. A etapa final incluiu três dias de exercícios de campo em terreno amazônico, com situações destinadas, segundo os americanos, a simular contingências reais.
Exercício militar na Amazônia entra na estratégia de Trump
A relação entre o treinamento e a política externa de Trump não aparece apenas em análises sobre a presença militar americana na América Latina. Ela foi estabelecida pelo próprio Exército dos Estados Unidos meses antes da chegada das tropas ao Peru.
Em comunicado publicado em maio, durante a preparação do Southern Vanguard, o Exército afirmou que o exercício estava alinhado aos objetivos estabelecidos pelo presidente Donald Trump para o Hemisfério Ocidental.
O coronel Jared Koelling, então diretor de Treinamento e Exercícios do U.S. Army South, resumiu a estratégia adotada por Washington pela expressão “Enlist and Expand” — “recrutar e expandir”. De acordo com o oficial, a intenção é mobilizar parceiros já estabelecidos no continente para atuar conjuntamente em questões como migração, tráfico de drogas e segurança terrestre e marítima.
O texto do Exército aponta o Southern Vanguard como uma aplicação concreta dessa política. O exercício, que começou como uma atividade bilateral entre Estados Unidos e Chile, foi ampliado em 2025 com a entrada de Argentina e Peru. Neste ano, coube ao governo peruano sediar a operação.
A preparação também envolveu a 5ª Brigada de Proteção da Selva Amazônica do Peru e integrantes da 82ª Divisão Aerotransportada dos Estados Unidos. Para o comando americano, integrar militares peruanos especializados em operações na selva às capacidades militares dos EUA faz parte de uma estrutura de defesa do Hemisfério Ocidental.
Doutrina Monroe volta ao centro da política dos EUA
A movimentação ocorre após o governo Trump transformar a retomada da Doutrina Monroe em diretriz oficial da política externa americana. A Estratégia de Segurança Nacional divulgada no fim de 2025 dedica uma seção ao que a Casa Branca chama de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”.
O documento afirma que os Estados Unidos pretendem “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” e impedir que potências de fora da região posicionem forças ou assumam o controle de ativos considerados estratégicos por Washington.
A Revista Fórum mostrou em agosto que essa política passou a ser apresentada publicamente pelo próprio governo americano. Em vídeo divulgado pelo Departamento de Estado, Washington afirmou que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. A declaração foi celebrada por Eduardo Bolsonaro, que também repercutiu a retomada da Doutrina Monroe pelo governo Trump.
Trump ameaça recorrer ao poder militar
O Southern Vanguard terminou quatro dias antes de Trump discursar na Assembleia Geral da ONU e voltar a falar abertamente sobre o emprego das Forças Armadas americanas no continente.
Em comunicado oficial sobre o discurso de 22 de setembro, a Casa Branca reproduziu a declaração do presidente de que os Estados Unidos não permitirão que ameaças ao país ganhem espaço no Hemisfério Ocidental e que, “se necessário”, recorrerão ao poder militar para proteger o que Washington classifica como interesses nacionais vitais.
O treinamento realizado na Amazônia peruana, portanto, integra uma série mais ampla de ações militares e diplomáticas dos Estados Unidos na região. No caso do Southern Vanguard, a ligação com essa estratégia não foi feita apenas posteriormente: meses antes das manobras, o próprio Exército americano já apresentava o exercício como parte dos objetivos estabelecidos pelo governo Trump para o Hemisfério Ocidental.

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