Um relatório que documenta ataques à CNBB, a seus dirigentes e a bispos católicos desde 2018 mostra que parte dos episódios registrados no período partiu diretamente de integrantes da família Bolsonaro. Em um recorte restrito aos casos em que é possível atribuir a declaração ou a publicação a Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro, são quatro episódios: dois envolvendo o ex-presidente, um protagonizado por Eduardo e outro por Flávio.
O documento, intitulado Ataques à CNBB e aos seus bispos — recorrência, intimidação e disputa política, foi produzido pela Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O levantamento reúne uma cronologia de 2018 a 2026, documentos institucionais e registros preservados de publicações nas redes sociais.
O próprio documento faz uma ressalva importante: o número de URLs preservadas não equivale ao número de ataques independentes. Entrevistas, republicações e comentários são separados da autoria original.
Jair Bolsonaro chamou CNBB de “parte podre” da Igreja
O primeiro episódio diretamente relacionado à família Bolsonaro aparece em outubro de 2018, durante a campanha presidencial. Em um vídeo que circulou naquele período, Jair Bolsonaro atacou a CNBB e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ao falar sobre a demarcação de terras indígenas.
Bolsonaro classificou os setores da Igreja como a “parte podre da Igreja Católica”. O relatório identifica expressamente Jair Bolsonaro como autor da fala, embora ressalve que a cópia preservada no levantamento é uma republicação posterior e que a data original da gravação não foi confirmada.
O registro contemporâneo da declaração pode ser consultado no Instituto Humanitas Unisinos (IHU), que publicou a reportagem em 17 de outubro de 2018. O Diário do Centro do Mundo também preservou o vídeo naquele momento.
Eduardo Bolsonaro acusa “infiltração” na CNBB
Menos de um ano depois, em 24 de junho de 2019, Eduardo Bolsonaro publicou uma acusação diretamente em seu perfil no X. “Não se engane. A esquerda já se infiltrou na religião católica, principalmente através da CNBB”, escreveu o então deputado, acrescentando que temia que processo semelhante ocorresse entre os evangélicos.
A postagem original de Eduardo Bolsonaro continua disponível no X e consta no relatório como publicação de autoria própria.
https://x.com/BolsonaroSP/status/1143129132546629632
CNBB vira “hiena” em postagem de Jair Bolsonaro
O segundo episódio envolvendo Jair Bolsonaro ocorreu em 28 de outubro de 2019, quando ele já ocupava a Presidência da República. Seu perfil oficial publicou um vídeo em que Bolsonaro era representado por um leão cercado por hienas identificadas com instituições, partidos e veículos apresentados na montagem como seus adversários.
Entre as hienas estavam o Supremo Tribunal Federal (STF), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Organização das Nações Unidas (ONU), partidos políticos, veículos de imprensa e a própria CNBB. A Folha de S.Paulo preservou um print da postagem original, que foi apagada poucas horas depois.
No dia seguinte, Bolsonaro reconheceu que a publicação havia sido um erro e pediu desculpas. Embora tenha sido questionado sobre a possibilidade de Carlos Bolsonaro ter participado da postagem, o então presidente assumiu a responsabilidade pelo conteúdo. Carlos também declarou publicamente que o vídeo havia sido publicado pelo próprio Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro leva acusação à campanha de 2026
O episódio mais recente ocorreu em 27 de setembro deste ano. Durante uma carreata em Goiânia, Flávio Bolsonaro acusou pessoas de dentro da CNBB de ajudarem na circulação da informação de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
“O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu com ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente, essa é a realidade”, declarou. Flávio não apresentou, naquele momento, nomes ou provas de participação de integrantes da Conferência.
A Fórum mostrou a acusação de Flávio Bolsonaro no domingo (27). A declaração também foi registrada em vídeo e publicada nas redes sociais durante a carreata.
O episódio ocorreu em meio à controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida na reta final da disputa presidencial. A Fórum publicou que JB Carvalho, fundador da igreja frequentada por Flávio Bolsonaro, escreveu contra a legislação que reconhece Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Flávio e sua mulher, Fernanda, foram batizados na Comunidade das Nações, fundada pelo religioso.
O que não entrou na conta dos quatro casos
O levantamento registra uma série de outros episódios relacionados ao bolsonarismo e a setores da direita, mas eles não entram na conta dos quatro ataques diretos da família Bolsonaro quando se adota um critério estrito de autoria.
É o caso, por exemplo, do levantamento de 152 bispos que haviam assinado uma carta crítica ao governo em 2020. Segundo relatório da Polícia Federal citado no documento, a ação envolveu agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e encaminhamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). A investigação descreveu o episódio sob o título “Ação Clandestina Arcebispos/Bispos”, mas o material não atribui pessoalmente a Jair Bolsonaro a ordem para o levantamento.
Também ficam fora dessa conta manifestações de parlamentares, influenciadores, organizações e perfis bolsonaristas. Entre os episódios reunidos no documento estão ataques de aliados políticos e campanhas de desqualificação da CNBB, mas autoria política próxima à família não é tratada como autoria pessoal de Jair, Eduardo ou Flávio.
Após a acusação de Flávio, a CNBB publicou uma nota oficial de esclarecimento. A Conferência afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral” e declarou que não integra estruturas político-partidárias.
A entidade também reagiu à imputação feita sem apresentação de fatos ou provas e encerrou a nota com a frase: “A mentira não se combate com outra mentira”.
De Jair a Flávio Bolsonaro: relatório identifica ataques diretos do clã à CNBB e a bispos
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!