A Polícia Federal ouve, nesta quarta-feira (30), o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro no âmbito de um inquérito que apura a atuação dos grupos “A Turma” e “Os Meninos”, investigados por intimidação armada, ataques digitais e invasão de sistemas governamentais.
Vorcaro será ouvido às 14h e Henrique às 16h, por videoconferência, cada um do local onde cumpre prisão preventiva. Os depoimentos haviam sido adiados semanas antes após a defesa alegar falta de acesso aos autos, e a PF espera, com as oitivas, concluir um dos inquéritos abertos sobre a organização criminosa que, segundo a corporação, funcionava como uma “milícia privada” a serviço do banqueiro.
Braços armado e tecnológico: “A Turma” e “Os Meninos”
A Polícia Federal descreve a estrutura investigada como uma “milícia privada” com divisão clara de funções. “A Turma” seria o braço armado de Daniel Vorcaro, encarregado de intimidar adversários, realizar ameaças presenciais, coerções e levantamentos clandestinos, além de atacar jornalistas. O grupo era comandado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de Sicário, que foi preso por ordem do ministro André Mendonça, do STF, e morreu no hospital após tentar suicídio na carceragem da PF em Minas Gerais. Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, é apontado pela investigação como o operador financeiro desse núcleo.
“Os Meninos” tinham perfil essencialmente tecnológico. Segundo a PF, o grupo atuava em ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento ilegal de telefones e sistemas de comunicação. Os hackers contratados pelo grupo recebiam, segundo as investigações, R$ 75 mil por mês para promover ataques e invasões cibernéticas. A gravidade das suspeitas vai além: a PF aponta que integrantes dos grupos teriam acessado sistemas da própria corporação, do Ministério Público Federal e da Interpol para obter informações sigilosas sobre investigações em curso contra Vorcaro, repassando os dados de forma antecipada ao ex-banqueiro e comprometendo a condução das apurações.
Prisão e defesa
Daniel Vorcaro está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”, em Brasília. Henrique Vorcaro cumpre prisão preventiva em Minas Gerais. Ambos estão detidos desde março, quando a terceira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada. O ministro André Mendonça, do STF, justificou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro pelo “risco concreto de interferência nas investigações”, argumento que a defesa contesta até hoje.
A linha de defesa apresentada pelos advogados de Vorcaro busca descontextualizar os fatos investigados. O advogado Thiago Machado afirmou que os episódios narrados pela PF seriam “eventos isolados da vida privada de Daniel Vorcaro”, relacionados a momentos em que ele teria sido vítima de extorsões e ameaças por ex-funcionários particulares, sem qualquer ligação com as atividades do Banco Master.
Em pedido de revogação da prisão apresentado ao presidente do STF, Edson Fachin, a defesa argumentou que os fatos teriam sido praticados por terceiros e que não haveria risco de reiteração.
Já Henrique Vorcaro adotou caminho diferente: segundo apuração da CNN Brasil, ele enviou ao ministro André Mendonça, com cópia aos demais integrantes da Corte, uma carta em que nega qualquer envolvimento com o grupo e contesta a interpretação da PF sobre mensagens trocadas por pessoas ligadas ao esquema, afirmando que os valores cobrados correspondiam a pagamentos de empreendimentos. “Se pagavam alguém ou se usavam esse recebimento para qualquer turma ou pessoa, eu não tenho simplesmente nada a ver com isso, não conheço nem sei de turma nenhuma”, escreveu.
Conexões políticas
A investigação da PF aponta que a organização criminosa tinha quatro núcleos distintos com papéis definidos sob a coordenação de Vorcaro. Durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em março, a corporação apontou o ex-banqueiro como articulador das ações financeiras e responsável por elaborar estratégias que envolviam fraudes financeiras, corrupção, ocultação de patrimônio, intimidação e obstrução de justiça. A dimensão da estrutura descrita pela PF vai muito além de um conflito privado: trata-se, segundo as investigações, de uma organização com recursos, hierarquia e capacidade de infiltrar sistemas de segurança do Estado.
Vorcaro presta depoimento à PF sobre grupos de intimidação que funcionavam como ‘milícia privada’
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