Chico Buarque, Raí e Piketty assinam manifesto na França contra interferência dos EUA na eleição brasileira

Chico Buarque, Raí e Piketty assinam manifesto na França contra interferência dos EUA na eleição brasileira
- Donald Trump e Lula na Casa Branca (Ricardo Stuckert/PR)

Um grupo de 30 intelectuais e artistas internacionais publicou nesta quarta-feira (30) um manifesto no jornal francês Le Monde denunciando a interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
Entre os signatários estão o músico Chico Buarque, o ex-jogador de futebol Raí e os economistas Thomas Piketty, Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz, estes dois últimos vencedores do Nobel em economia. O documento aponta a cumplicidade de Flávio Bolsonaro (PL) no processo e convoca a comunidade internacional a rejeitar qualquer ingerência estrangeira na soberania eleitoral do Brasil.
Intelectuais e artistas denunciam interferência
O Le Monde publicou manifesto de título direto e acusatório: “No Brasil, os Estados Unidos procuram influenciar a eleição presidencial, com a cumplicidade de um dos candidatos, Flávio Bolsonaro”. O documento reúne 30 signatários, entre artistas, economistas e intelectuais franceses e brasileiros, e coloca a disputa eleitoral brasileira no centro do debate político europeu.
Entre os nomes que assinam o texto estão o músico Chico Buarque, o ex-jogador de futebol Raí e os economistas Thomas Piketty, Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz. Aghion e Stiglitz são vencedores do Prêmio Nobel em economia. O grupo inclui ainda intelectuais como Gabriel Feltran, Michel Löwy e Jean Tible. A escolha do Le Monde como veículo de publicação não é acidental: trata-se do jornal de maior prestígio da França, com alcance junto a governos, instituições europeias e formadores de opinião no continente.
A denúncia central é a de que uma potência estrangeira age abertamente para condicionar o resultado de uma eleição soberana, com a participação ativa de um dos candidatos. Para os signatários, esse não é um episódio isolado de retórica política, mas um processo em curso que combina pressão diplomática externa e desestabilização interna do sistema eleitoral.
Acusações e alertas do documento
O manifesto elenca episódios em que Flávio Bolsonaro questionou a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro e classifica esse comportamento como uma “preparação metódica para uma contestação eleitoral, independentemente de vitória ou derrota”. A formulação é precisa: os signatários não descrevem ataques pontuais às urnas, mas uma estratégia deliberada de minar a legitimidade do processo antes mesmo de seu resultado.
Segundo o manifesto publicado no Le Monde, há ainda “enorme pressão vinda de Washington”. O documento cita a retirada de vistos de autoridades brasileiras e as tarifas impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil em resposta ao processo contra Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe. A combinação de instrumentos diplomáticos e econômicos é apresentada pelos signatários como evidência de que a interferência vai além do discurso e assume contornos de pressão de Estado.
O alerta final do documento tem alcance que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
“Uma potência estrangeira procura abertamente influenciar o resultado de uma eleição soberana, com a participação ativa de um dos candidatos. Esse precedente, se não for fortemente denunciado, não ficará restrito ao Brasil.”
A frase sintetiza o argumento central do manifesto: o que está em jogo não é apenas a eleição brasileira, mas a norma internacional que protege a soberania eleitoral de qualquer país diante de interferências externas.
O que o manifesto pede
Para os signatários, as eleições brasileiras transcendem a disputa entre candidatos. O documento afirma que o que está em jogo é decidir “se a maior democracia da América Latina continuará a ser uma democracia”. Para sustentar a gravidade dessa afirmação, o texto recorre ao histórico do governo Jair Bolsonaro: a má condução da pandemia de Covid-19 e a atuação “contra os movimentos negros e indígenas, as mulheres e as pessoas LGBTQIA+”. A candidatura de Flávio Bolsonaro é apresentada como continuidade desse projeto, com o acréscimo de uma ameaça institucional e de “um programa econômico que anuncia um retrocesso social igualmente preocupante”, com risco de aprofundamento das desigualdades.
O manifesto encerra com uma convocação explícita, dirigida a atores concretos: “os meios de comunicação, os responsáveis políticos, as instituições europeias e a sociedade civil francesa” são chamados a acompanhar o processo eleitoral, a rejeitar qualquer interferência estrangeira e a apoiar a sociedade civil e as instituições brasileiras. O apelo ao público europeu, e francês em particular, revela a estratégia dos signatários: construir uma pressão internacional que torne politicamente custoso, para Washington e para Flávio Bolsonaro, o avanço da interferência denunciada no documento.

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