Um levantamento sobre publicidade política paga na Meta Ads Library identificou 29 registros de anúncios contra o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), entre os dias 1º e 28 de setembro de 2026. Retiradas duas duplicidades, a base contabilizou 27 peças únicas, distribuídas entre 21 anunciantes, páginas ou perfis.
Conforme o levantamento realizado pela campanha, os anúncios somaram entre R$ 16,8 mil e R$ 25,6 mil em investimento declarado, considerando as faixas informadas pela própria plataforma. O monitoramento foi realizado sobre peças que mencionavam Haddad e teve como foco anúncios veiculados entre 1º e 25 de setembro, com fechamento dos dados em 28 de setembro.
A economia apareceu como principal eixo das publicações. Das 27 peças únicas, 22 foram classificadas no levantamento como ataques relacionados a economia, impostos ou gestão fiscal. O documento registrou, ainda, que 75,9% das 29 peças catalogadas estão concentradas nesses temas.
A distribuição geográfica dos anunciantes também chama atenção. Somente cinco dos 21 anunciantes identificados declararam São Paulo como localização. Os demais aparecem distribuídos por outros estados ou sem unidade federativa declarada. No conjunto das peças com localização identificada, o levantamento registra anúncios provenientes de nove estados além de São Paulo.
O maior investimento individual identificado, ainda de acordo com o levantamento, pertenceu a Rodrigo Livramento (Novo), vereador e candidato a deputado federal em Santa Catarina. Segundo a pesquisa, ele destinou entre R$ 10 mil e R$ 15 mil a uma única peça contra Haddad, ex-ministro da Fazenda.
O anúncio chamou o petista de “ministro do Paraguai” e associou a ele a migração de empresas brasileiras para o país vizinho. O valor aplicado por Livramento representou mais da metade do investimento total identificado na base, segundo os cálculos apresentados no levantamento.
Quantidade de peças
Ricardo Molina (Republicanos), candidato a deputado estadual em São Paulo, apareceu com quatro peças, o maior número entre os anunciantes identificados.
As publicações giraram, principalmente, em torno da taxação de 20% sobre compras internacionais, chamada por Molina de “Taxad”. Uma das peças também usou a afirmação de que Molina teria sido “processado pelo PT de Haddad e Lula”.
O levantamento classificou essas publicações como propaganda negativa e registrou que, em parte delas, houve referência a acontecimentos ou disputas reais, mas sem necessariamente apresentar uma alegação factual específica passível de verificação.
A cobrança de 20% sobre determinadas compras internacionais foi instituída por legislação aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula. A legislação federal que alterou as regras das remessas internacionais foi sancionada em dezembro de 2024.
Além de Rodrigo Livramento e Ricardo Molina, o levantamento registrou anúncios de políticos e candidatos de diferentes estados e partidos.
Entre os nomes citados estão Delegado Caveira, deputado federal pelo PL do Pará; Paulo Proieti, candidato pelo Novo em São Paulo; Carlos Gomes, candidato pelo PL em São Paulo; Orlando Morando; Catharina Donato; Coronel Alberto Feitosa; Cristina Graeml; Capitão Contar; Mauricio Conti; Dr. Adriano Barbosa; Dann Constantino; Matheus Schilling e Walter Maciel.
A lista também inclui perfis sem partido ou unidade federativa declarados.
Desinformação
Doze das 29 peças analisadas, ou 41,4%, foram classificadas pelo monitoramento como desinformação, ou seja, partem de informações ou acontecimentos existentes, mas alteram números, datas, atribuições ou dimensões dos fatos.
Um dos exemplos envolveu a afirmação de que Haddad teria provocado a “fuga de empresas brasileiras para o Paraguai”. A mesma narrativa aparece em anúncios de Ricardo Molina, Catharina Donato, Rodrigo Livramento e Capitão Contar.
O levantamento contrapõe essa afirmação aos dados sobre o regime de maquila paraguaio, modelo de produção industrial voltado principalmente para a exportação. As empresas brasileiras passaram a utilizar o regime ao longo de um período iniciado em 2007, portanto antes da passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda. Dados publicados em 2026 também apontam que muitas empresas mantêm operações no Brasil enquanto expandem parte de suas atividades para o Paraguai.
Cracolândia e reforma tributária
Orlando Morando apareceu em uma peça que atribui à gestão Haddad na Prefeitura de São Paulo a existência de quatro mil usuários na Cracolândia. O levantamento registrou que o número usado pela Prefeitura de São Paulo no período era de aproximadamente 1.500.
Cristina Graeml, por sua vez, utilizou em uma peça a expressão “confisco” para se referir à reforma tributária e afirmou que o novo sistema “centraliza tudo em Brasília”.
O desenho institucional do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), entretanto, prevê um Comitê Gestor de natureza federativa, formado por representantes dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. O próprio Comitê Gestor informou que o IBS é administrado por uma estrutura paritária entre esses entes federativos.
Déficit primário
Uma das peças de Walter Maciel afirmou que “o Brasil acumula déficit primário desde 2014” e utiliza a informação para relacionar o resultado fiscal à alta dos juros.
O levantamento considerou a afirmação incorreta porque o governo federal registrou superávit primário de R$ 59,7 bilhões em 2022. O resultado foi oficialmente divulgado pelo Tesouro Nacional.
Maciel apareceu ainda com uma segunda peça contra Haddad. As duas publicações custaram menos de R$ 100, segundo os registros analisados, mas alcançaram mais de 1 milhão de pessoas.
Uma delas foi o vídeo sobre uma dívida de R$ 56 bilhões relacionada à Braskem. A mesma peça foi incluída tanto na base referente a Haddad quanto na base de monitoramento de anúncios contra o presidente Lula por mencionar os dois nomes.
O levantamento classificou as duas peças de Walter Maciel como “Financiamento por Terceiro (Ilegal)”, sendo esse o único caso enquadrado nessa categoria na base sobre Haddad.
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