Violência política pré-eleitoral atinge recorde na década e mulheres são principais alvos

Violência política pré-eleitoral atinge recorde na década e mulheres são principais alvos
Mulheres são principais vítimas da violência política - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Um estudo divulgado na quarta-feira (30) pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global aponta que o período pré-eleitoral entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026 registrou 354 casos de violência política, configurando o cenário mais grave da última década. O levantamento, em sua quarta edição, revela uma desproporção alarmante: mulheres, que ocupam cerca de 18% das cadeiras legislativas, foram vítimas em mais da metade dos episódios, e toda ameaça assinada por grupos neonazistas ou supremacistas no período teve como alvo uma mulher preta.
Violência política atinge recorde pré-eleitoral
O estudo contabilizou um caso de violência política a cada 44 horas no intervalo analisado, totalizando 354 ocorrências. O número supera todos os períodos pré-eleitorais monitorados pela pesquisa na última década. Dos episódios registrados, 96,3% tiveram como vítimas ocupantes de cargos eletivos, o que indica que a violência não é difusa, mas direcionada a quem já conquistou espaço institucional.
O dado de 2025 reforça a gravidade estrutural do problema: mesmo em um ano sem eleições, foram registrados 225 casos de violência política. O fenômeno, portanto, não se restringe ao calor da disputa eleitoral, mas persiste como pressão contínua sobre mandatários ao longo de todo o ciclo político.
Mulheres e minorias raciais são os principais alvos
Mulheres foram vítimas em 50,6% dos casos, proporção que contrasta brutalmente com sua presença nos parlamentos: cerca de 18% das cadeiras legislativas do país, segundo dados do TSE. A natureza da violência sofrida também difere por gênero. A violência física, que inclui agressões, atentados e assassinatos, teve homens como alvos em 77,2% dos casos. Já a violência simbólica, composta por ameaças e ofensas, atingiu mais as mulheres, respondendo por 58,3% dos episódios dessa categoria.
Os dados sobre violência de gênero são ainda mais contundentes em categorias específicas: as 31 ameaças de violência sexual e os 67 episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre o corpo e aparência das vítimas tiveram 100% dos casos relacionados a mulheres.
O recorte racial aprofunda o quadro. Entre as mulheres vítimas de violência política, uma em cada três era preta, totalizando 64 das 179 vítimas femininas. No conjunto dos 84 episódios contra pessoas pretas, mulheres responderam por 64 casos, e onze delas eram trans ou travestis. As quatro ameaças do período assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas tiveram como alvo exclusivo mulheres pretas: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).
Ameaça à democracia e à representatividade
Para Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, o cenário vai além da segurança individual de quem ocupa mandato. “O cenário configura grave ameaça não apenas à vida de mandatários, mas à sustentabilidade do regime democrático e das instituições”, afirma.
A fala é de Franciele Petry, coordenadora da pesquisa, que aponta o efeito intimidatório sobre futuras candidaturas de mulheres, pessoas negras, transexuais e integrantes da comunidade LGBTQIAP+. “Não é possível afirmar que estamos em uma democracia plena se os espaços de representação não são ocupados por essa diversidade”, completa Petry.
Glaucia Marinho, diretora executiva da Justiça Global, chama atenção para quem pratica a violência: grupos criminosos e policiais figuram entre os responsáveis pelos atos registrados, o que, segundo ela, ameaça o funcionamento das próprias instituições democráticas. O dado territorial reforça essa leitura: pelo menos 63% dos casos se concentraram na política municipal, com vereadores e prefeitos como as maiores vítimas de toda a série histórica, evidenciando que é nas bases do sistema representativo que a violência mais corrói.

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