Em entrevista à Le Point, Milei foi perguntado sobre a “guerra de palavras intensa com Lula” e respondeu com uma série de acusações sem qualquer respaldo. Chamou o presidente brasileiro de “ladrão” e afirmou que Lula saiu da prisão graças à “orquestração de um juiz cúmplice”, referência ao processo judicial que levou à anulação das condenações do petista pelo Supremo Tribunal Federal.
Milei foi além e acusou Lula de ter enviado especialistas em comunicação e psicólogos a Buenos Aires durante a campanha presidencial argentina de 2023, com o objetivo de prejudicá-lo. Sem citar nomes ou apresentar qualquer prova, afirmou ainda que o “líder dos provocadores em solo argentino era um estudante brasileiro que recebia pagamentos do governo Lula.” As alegações foram feitas de forma assertiva pelo presidente argentino, mas permanecem sem comprovação pública.
Apoio de Milei a Flávio Bolsonaro
Na mesma entrevista à Le Point, Milei declarou ter esperanças de que seu “amigo” Flávio Bolsonaro (PL) vença a eleição presidencial de 4 de outubro “para realizar as reformas liberais necessárias.” O apoio é explícito e reforça uma articulação política já demonstrada em julho, quando Milei esteve no Brasil para a convenção nacional do PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República, ocasião em que discursou afirmando que o filho do ex-presidente era o único capaz de vencer Lula.
As acusações sobre a campanha de 2023 têm um referencial concreto, ainda que Milei o distorça. Uma equipe de 20 publicitários brasileiros trabalhou de fato na campanha de Sergio Massa, candidato do então presidente kirchnerista Alberto Fernández, e o grupo tinha ligação com Sidônio Palmeira, hoje ministro-chefe da Secretaria de Comunicação. Segundo apuração da época, Sidônio foi sondado por Lula para trabalhar diretamente com Massa, recusou o convite e enviou emissários, que se integraram ao time argentino com a estratégia de explorar propostas polêmicas de Milei e desviar o foco dos problemas econômicos do país. Nenhum elemento apurado sustenta a versão de que Lula financiou “provocadores” ou enviou agentes para desestabilizar a campanha adversária.
Outras declarações e repercussões
A entrevista à Le Point foi além dos ataques ao Brasil. Milei defendeu o decreto que prevê veto e expulsão de estrangeiros por ataques à Argentina, afirmando que agitadores “disfarçados de jornalistas, fotógrafos, professores universitários ou estudantes” já teriam deixado o país. A medida é alvo de críticas de organizações de direitos humanos e liberdade de imprensa.
O presidente argentino também criticou a ONU pela posição sobre as Ilhas Malvinas, defendeu Donald Trump e Benjamin Netanyahu, e anunciou que pretende concorrer à reeleição em 2027. Ao ser questionado sobre a ascensão da direita na América Latina, afirmou que o fenômeno “reflete o enorme descontentamento do povo latino-americano com o socialismo do século XXI” e que “a Argentina demonstra que a liberdade funciona.”
O conjunto das declarações consolida um padrão: Milei usa espaços internacionais de grande circulação para atacar Lula sem provas, endossar aliados da extrema direita brasileira e projetar sua agenda para além das fronteiras argentinas.
Javier Milei chama Lula de ‘ladrão’ e defende Flávio Bolsonaro em revista francesa
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