A preparação de um candidato para um debate na TV Globo, evento tradicionalmente considerado o ápice dos confrontos eleitorais na televisão brasileira, costuma revelar muito sobre as prioridades, as fragilidades e o projeto de poder que cada corrente política pretende apresentar ao país. No caso do senador e candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro (PT), a escolha dos seus dois assessores diretos com permissão para acompanhá-lo nos estúdios da emissora carrega um simbolismo inquietante.
Para além da presença do seu marqueteiro de confiança, Duda Lima, encarregado do adestramento retórico e da contenção de eventuais arroubos emocionais, a escalação da segunda cadeira no camarim de apoio causa espanto pela mensagem que envia ao eleitorado. Trata-se da economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal no governo de Jair Bolsonaro (PL) e uma das vozes mais radicais do dogma ultraliberal no país.
Para um candidato que carrega no histórico o episódio marcante de 2016, quando, disputando a Prefeitura do Rio de Janeiro em um debate ao vivo na TV Bandeirantes, teve uma queda brusca de pressão, cambaleou diante das câmeras e precisou ser amparado às pressas por adversários antes de abandonar o estúdio, a presença de auxiliares de peso busca transmitir uma aura de segurança física e intelectual. O problema reside justamente no conteúdo da “segurança” que Daniella Marques representa.
Dogma do mercado contra os direitos do povo
Daniella Marques não é uma figura desconhecida nos bastidores do poder em Brasília. Formada nos quadros tradicionais do mercado financeiro e projetada nacionalmente como o braço direito do ex-ministro Paulo Guedes, ela consolidou sua trajetória ancorada em uma visão ortodoxa e inflexível da economia. Durante sua passagem pelo Executivo e, posteriormente, no comando da Caixa Econômica Federal, sua atuação destacou-se pela defesa intransigente do esvaziamento do Estado, da retração dos investimentos públicos e da aplicação cega de medidas de austeridade fiscal.
Trata-se de uma linha de pensamento que enxerga o orçamento público sob a lógica fria de uma planilha de investimentos privados. Sob essa ótica, direitos sociais garantidos pela Constituição de 1988, como saúde pública universal, educação gratuita, programas de distribuição de renda e crédito bancário subsidiado para populações de baixa renda, deixam de ser investimentos civilizatórios para serem classificados estritamente como “custos” ou “gastos” a serem sumariamente tesourados.
A atuação da economista sempre esteve associada à ideia de que o livre mercado, desregulamentado e sem travas éticas ou sociais, seria capaz de autorregular a sociedade. A experiência histórica brasileira, contudo, demonstra o oposto: o enfraquecimento do Estado indutor do desenvolvimento resulta invariavelmente no aumento do desemprego, na perda do poder de compra dos trabalhadores e na concentração vertiginosa de renda no topo da pirâmide social.
Espelho argentino: o pesadelo de Milei como meta
O elemento verdadeiramente chocante na escolha de Daniella Marques como mentora econômica de Flávio Bolsonaro, no entanto, não é apenas o seu passado no Ministério da Economia de Paulo Guedes. O ponto de maior inflexão reside na declaração recente da própria assessora, que assumiu publicamente o compromisso de se inspirar na política econômica conduzida por Javier Milei na Argentina para desenhar as propostas de governo do clã Bolsonaro.
Erguer o modelo argentino recente como padrão de sucesso ou meta a ser atingida revela uma desconexão aterradora com a realidade social da América Latina. O choque ultraliberal imposto por Milei no país vizinho legou à população indicadores econômicos e sociais catastróficos:
Explosão da pobreza: A retirada abrupta de subsídios a serviços básicos, o fim de controles de preços e a paralisação de obras públicas empurraram milhões de argentinos para baixo da linha da pobreza e da indigência.
Destruição da renda familiar: A desvalorização cambial descontrolada e o aumento do custo de vida em itens de primeira necessidade, como alimentos, remédios, energia e transporte público, esmagaram os salários da classe média e as aposentadorias.
Recessão profunda: O arrocho monetário e a retração drástica do consumo interno mergulharam a Argentina em uma severa crise de atividade econômica, acompanhada pelo fechamento em massa de pequenas empresas e pela disparada do desemprego.
Desmonte da proteção social: Sob a premissa ideológica do “Estado mínimo”, o governo argentino reduziu drasticamente o amparo às famílias mais vulneráveis, desarticulando redes históricas de assistência e saúde pública.
Prometer repetir no Brasil a receita que afundou a Argentina na miséria e no caos econômico equivale a propor um sacrifício deliberado da população vulnerável em altar da especulação financeira.
Projeto que ameaça a coesão nacional
Ao se cercar de Duda Lima para blindar sua imagem e de Daniella Marques para formular seu discurso de país, Flávio Bolsonaro explicita a essência do seu projeto político. Não há preocupação em construir soluções efetivas para a fome, a informalidade de milhões de trabalhadores, o sucateamento da infraestrutura ou a desigualdade regional. A tônica é a manutenção de um alinhamento cego com os setores mais retrógrados do mercado e a extrema direita internacional.
No estúdio da Globo, diante das câmeras e sob o olhar de milhões de eleitores, a presença da ex-presidente da Caixa a poucos metros do candidato servirá como um lembrete incômodo. Por trás dos discursos ensaiados sobre “liberdade econômica” e “eficiência”, esconde-se a ameaça concreta de conversão do Brasil em um laboratório de experimentos ultraliberais cujos resultados práticos já se provaram desastrosos. A pergunta que fica para o eleitorado é se o país está disposto a pagar o preço humano e social de um projeto que promete o desenvolvimento entregando apenas arrocho, desmonte e miséria.
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