Existe um detalhe na última pesquisa CNT/MDA que pode passar despercebido no meio da disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro: a composição religiosa da amostra. E, neste caso, religião não é uma variável qualquer. Os próprios números da pesquisa mostram uma divisão muito acentuada do eleitorado: Lula lidera entre católicos, enquanto Flávio Bolsonaro lidera entre evangélicos.
Na amostra da CNT/MDA, os católicos representam 50,9% dos entrevistados, enquanto os evangélicos são 30,8%. O problema — ou, mais precisamente, o ponto que merece ser analisado — é que esses percentuais não correspondem à fotografia religiosa mais recente produzida pelo IBGE.
O Censo 2022 encontrou 56,7% de católicos e 26,9% de evangélicos entre os brasileiros de 10 anos ou mais. São, portanto, 5,8 pontos percentuais a menos de católicos e 3,9 pontos a mais de evangélicos na amostra da pesquisa em relação à distribuição censitária.
A diferença ganha importância quando colocamos os votos dentro dessa equação: No primeiro turno, segundo os números da pesquisa, Lula tem 56% entre católicos e 31% entre evangélicos. Flávio Bolsonaro tem 31% entre católicos e 60% entre evangélicos. Se mantivermos exatamente essas preferências e simplesmente trocarmos os pesos religiosos da pesquisa pelos pesos encontrados pelo Censo, o resultado muda.
A participação ponderada de Lula entre católicos e evangélicos passaria de 38,05% para 40,09%, um acréscimo de aproximadamente 2,04 pontos percentuais. Para Flávio, a mesma operação produziria uma redução de aproximadamente 0,54 ponto percentual, de 34,26% para 33,72%.
É uma diferença que não pode ser ignorada quando a pesquisa nacional apresenta Lula com 47,8% e Flávio com 42,1% dos votos válidos.
Aplicando esse deslocamento aos números nacionais da pesquisa, apenas como exercício de reponderação, Lula chegaria a aproximadamente 49,8%, enquanto Flávio ficaria em torno de 41,6% dos votos válidos.
No universo de 118.229.719 votos válidos, usado aqui apenas como referência matemática, isso equivaleria a algo próximo de 58,9 milhões de votos para Lula e 49,1 milhões para Flávio.
O segundo turno produz um efeito semelhante. Lula aparece com 55% entre católicos e 30% entre evangélicos; Flávio, com 35% e 62%, respectivamente. Mantendo essas taxas e alterando apenas os pesos religiosos, Lula ganharia aproximadamente 2,02 pontos percentuais, enquanto Flávio perderia cerca de 0,39 ponto.
Não se trata, evidentemente, de afirmar que a pesquisa CNT/MDA esteja errada. Pesquisas eleitorais são construídas com diversas variáveis de estratificação e ponderação, e a distribuição religiosa do Censo não é automaticamente a distribuição correta do eleitorado apto a votar. Há ainda uma diferença de universo: o Censo considera pessoas a partir dos 10 anos, enquanto o eleitorado começa aos 16.
Mas o dado levanta uma questão metodológica legítima: numa eleição em que a religião se tornou uma das variáveis mais fortes de diferenciação do voto, quanto pesa uma amostra que tem proporcionalmente menos católicos e mais evangélicos do que a última fotografia oficial do Brasil?
A pergunta ganha ainda mais importância porque não estamos diante de pequenas diferenças internas. A própria pesquisa mostra uma distância de 25 pontos entre Lula e Flávio no eleitorado católico e de 29 pontos em sentido inverso entre os evangélicos, considerando os números do primeiro turno. No segundo turno, a polarização permanece: Lula marca 55% entre católicos e 30% entre evangélicos, enquanto Flávio aparece com 35% e 62%, respectivamente.
Ou seja, quando a variável religiosa é tão fortemente associada à intenção de voto, a composição religiosa da amostra deixa de ser um detalhe meramente demográfico e passa a ter potencial de produzir efeito sobre a fotografia nacional.
O exercício não prova que o resultado real da eleição será diferente do indicado pela pesquisa. Não é essa a conclusão possível. O que ele mostra é algo mais simples e estatisticamente verificável: se os percentuais de voto dentro de católicos e evangélicos permanecerem constantes, aproximar a composição da amostra da distribuição religiosa registrada pelo IBGE desloca a estimativa em direção a Lula e reduz a participação estimada de Flávio.
E talvez seja justamente essa a pergunta que valha fazer antes de transformar qualquer pesquisa eleitoral em fotografia definitiva do país: quem está dentro da amostra, e em que proporção?
O detalhe religioso da CNT/MDA que merece atenção
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