Partido Liberal: conheça a ideologia do partido de Bolsonaro, que fez 17 senadores

Partido Liberal: conheça a ideologia do partido de Bolsonaro, que fez 17 senadores
- Valdemar Costa Neto - Foto: Beto Barata/PL

O Partido Liberal (PL), legenda que abriga o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, consolidou nas eleições de 2026 a maior bancada do Senado. A sigla elegeu 17 senadores, segundo a apuração disponível neste domingo (4), ampliando sua presença na Casa e fortalecendo a direita bolsonarista no Congresso.
O resultado representa um salto em relação às eleições de 2022, quando o PL elegeu 14 senadores. A legenda também se tornou uma das principais forças políticas da Câmara dos Deputados nos últimos anos, atualmente contando com 99 deputados federais. O partido também fez os deputados federais mais votados da história do país, no pleito de 2026, com Lucas Pavanto (SP) e Nikolas Ferreira (PL), que superam os 3 milhões de votos.
Mas, por trás do crescimento eleitoral, existe uma história que passa por diferentes momentos da política brasileira, por mudanças de partido, condenações judiciais envolvendo dirigentes e parlamentares e uma transformação profunda da identidade política da legenda após a chegada de Jair Bolsonaro.
O que é o Partido Liberal
O PL foi fundado em 1985 por Álvaro Valle. A legenda atual é resultado de uma trajetória que inclui a incorporação e transformação de diferentes estruturas partidárias, entre elas o antigo Partido da República (PR). O próprio estatuto do PL afirma que a legenda preserva a continuidade histórica de partidos anteriores, incluindo o antigo PL, o PRONA e o PR.
Apesar do nome, o PL que se tornou uma das principais forças da extrema direita brasileira nas últimas eleições não corresponde necessariamente ao conceito clássico de liberalismo político e econômico.
No programa oficial, o partido defende a propriedade privada, o empreendedorismo, a redução da burocracia, a abertura comercial e a diminuição da intervenção estatal na economia.
Ao mesmo tempo, a identidade atual do partido é fortemente marcada pelo conservadorismo.
A transformação do PL com Bolsonaro
Jair Bolsonaro passou por diferentes partidos durante sua carreira política até chegar ao PL, em 2021. A filiação ocorreu no momento em que o então presidente se preparava para disputar a reeleição em 2022.
A entrada de Bolsonaro transformou completamente o tamanho e o perfil eleitoral da legenda. Antes um partido do Centrão, o partido foi se transformando em favor do bolsonarismo.
O PL passou a concentrar uma parcela significativa da direita radicalizada durante o governo Bolsonaro e se tornou a principal casa partidária do ex-presidente depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022.
A família Bolsonaro também passou a ocupar espaço central na estrutura partidária. Além de Jair, seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro construíram suas carreiras eleitorais dentro do campo político associado à legenda. Em 2026, Carlos Bolsonaro elegeu-se senador por Santa Catarina, enquanto Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas pelo Distrito Federal.
Valdemar Costa Neto e o mensalão
Uma das principais controvérsias envolvendo a história do PL está justamente em seu atual presidente nacional.
Valdemar Costa Neto ocupa a presidência do partido e é uma das figuras mais longevas da política brasileira. Sua trajetória, porém, inclui uma condenação criminal no maior escândalo político do primeiro governo Lula.
No julgamento do mensalão, a Ação Penal 470, o Supremo Tribunal Federal condenou Costa Neto por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A pena foi de 7 anos e 10 meses de prisão, além de multa de R$ 2 milhões. Ele começou a cumprir a pena em dezembro de 2013 e posteriormente passou ao regime domiciliar. Em 2016, o ministro Luís Roberto Barroso concedeu a Costa Neto indulto previsto em decreto presidencial, extinguindo a punibilidade.
O caso é particularmente relevante porque Costa Neto continuou exercendo papel central na política brasileira depois da condenação e, anos mais tarde, tornou-se novamente presidente do partido que se transformaria na principal legenda do bolsonarismo.
Novo caso envolvendo Valdemar em 2026
Em julho de 2026, Costa Neto voltou ao centro de uma investigação criminal.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do presidente do PL até o limite de R$ 119,2 milhões, após a Polícia Federal identificar indícios de influência irregular na destinação de emendas parlamentares.
Segundo a investigação, Costa Neto teria exercido influência sobre a destinação de recursos públicos mesmo sem ocupar mandato eletivo. A apuração investiga possíveis crimes de peculato-desvio e associação criminosa.
É importante destacar que se trata de uma investigação e de suspeitas apontadas pela Polícia Federal, e não de uma nova condenação de Costa Neto.
O episódio, entretanto, recolocou em evidência a relação entre o comando partidário e a utilização de recursos públicos por meio das emendas parlamentares.
Dois deputados do PL condenados por corrupção em 2026
O ano eleitoral também foi marcado por uma decisão especialmente grave para o partido.
Em março de 2026, a Primeira Turma do STF condenou por corrupção passiva os deputados federais Josimar Maranhãozinho (PL-MA) e Pastor Gil (PL-MA), além do ex-deputado Bosco Costa.
Segundo a acusação acolhida pelo Supremo, os parlamentares cobraram propina em troca da destinação de recursos de emendas parlamentares para o município de São José de Ribamar, no Maranhão.
Maranhãozinho recebeu pena de 6 anos e 5 meses de prisão, enquanto Pastor Gil foi condenado a 5 anos e 6 meses. Bosco Costa recebeu pena de cinco anos. Os condenados também foram considerados inelegíveis nos termos definidos pela decisão.
O STF afirmou que as provas demonstraram uma relação entre a destinação das verbas e a solicitação de vantagem indevida, caracterizando a venda do ato de ofício.
Há uma ressalva importante: os réus foram absolvidos da acusação de participação em organização criminosa por falta de provas suficientes para demonstrar a existência de uma organização estruturada para cometer outros crimes contra a administração pública.
O PL e o questionamento das eleições de 2022
Outro episódio que marcou a trajetória recente do partido ocorreu depois da derrota de Bolsonaro para Lula em 2022.
O PL apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma representação na qual questionava a validade dos votos de urnas eletrônicas de determinados modelos utilizados no segundo turno.
O pedido foi rejeitado. O presidente do TSE à época, Alexandre de Moraes, determinou que o partido apresentasse também dados referentes ao primeiro turno, já que os mesmos modelos de urnas haviam sido utilizados naquela votação.
O episódio tornou-se parte da trajetória do PL no período posterior à derrota de Bolsonaro e antecedeu a escalada das tensões entre o bolsonarismo e o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal.
Na prática, entretanto, o PL reúne políticos com trajetórias e posições diferentes. Sua característica mais marcante atualmente é a centralidade do bolsonarismo como identidade eleitoral.
O resultado das urnas de 2026 reforça essa característica. Entre os eleitos estão Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Bia Kicis, Carol de Toni e outros nomes diretamente associados ao campo político criado pelo ex-presidente. No Distrito Federal, por exemplo, as duas vagas em disputa foram conquistadas por candidatas do PL.
O partido que chegou ao Senado com 14 cadeiras em 2022 encerra a eleição de 2026 como a maior força da Casa. Ao mesmo tempo, carrega uma história que inclui a condenação de seu presidente nacional no mensalão, novas investigações envolvendo o comando partidário e condenações por corrupção de parlamentares da própria legenda.

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