Lula tem 711 cidades para reconquistar: o mapa dos votos em disputa com Flávio

Lula tem 711 cidades para reconquistar: o mapa dos votos em disputa com Flávio
Lula tem 711 cidades para reconquistar - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante pronunciamento...

Lula tem 711 cidades para reconquistar na disputa contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro. São municípios que deram vitória ao petista em 2022, contra Jair Bolsonaro, mas escolheram o filho do ex-presidente no primeiro turno deste ano. Um levantamento que cruzou os resultados das urnas com dados econômicos e sociais encontrou um padrão nessa mudança: quanto maior a participação do agronegócio na economia local, maior foi a queda proporcional de Lula.
O estudo é do pesquisador e criador de conteúdo Filipe Boni, que analisou os resultados dos 5.570 municípios brasileiros e apresentou as conclusões em vídeo publicado no YouTube. Segundo sua contagem, nenhuma cidade que deu vitória a Jair Bolsonaro em 2022 passou a ser vencida por Lula no primeiro turno de 2026.
Nas 711 cidades identificadas, Lula recebeu aproximadamente 534 mil votos a menos que há quatro anos. Flávio, por sua vez, obteve cerca de 503 mil votos a mais que seu pai nesses mesmos municípios. O levantamento não identifica individualmente quais eleitores mudaram de candidato.
Lula tem 711 cidades para reconquistar: Minas Gerais concentra a maior virada
Minas Gerais encabeça o mapa, com 178 municípios que passaram de Lula para Flávio. O Rio Grande do Sul aparece em seguida, com 133, seguido por Paraná (91), São Paulo (89), Goiás (69) e Tocantins (37). No Nordeste inteiro, apenas 15 cidades fizeram o mesmo movimento.
O interior concentra a maior parte das mudanças. Dos 711 municípios, 607 têm menos de 20 mil eleitores. Outros 14 possuem mais de 100 mil eleitores e, juntos, reúnem aproximadamente 3,2 milhões de pessoas aptas a votar.
Entre as cidades maiores estão Osasco, Barueri, Cotia e Araraquara, em São Paulo; Betim, Montes Claros, Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Ibirité, em Minas Gerais; e Santa Maria, Alvorada e Sapucaia do Sul, no Rio Grande do Sul.
Em Osasco, na Grande São Paulo, Lula havia vencido Jair Bolsonaro por quase 20 mil votos em 2022. No último domingo (4), Flávio recebeu aproximadamente 191 mil votos, contra 182 mil do petista. A mudança no resultado aconteceu em uma cidade onde a agropecuária praticamente não participa da economia.
O peso do agronegócio no mapa eleitoral
O cruzamento mais expressivo de Boni relaciona os votos à participação da agropecuária no Produto Interno Bruto (PIB) municipal.
Nas cidades onde o setor representa menos de 5% da economia, Lula perdeu 3,9 pontos percentuais em relação a 2022. A queda alcançou 4,7 pontos onde o agro responde por 5% a 15% do PIB e chegou a 5,5 pontos nos municípios com participação entre 15% e 30%.
Nos locais em que a atividade agropecuária representa de 30% a 50% da economia, o recuo foi de 7,1 pontos. Onde o setor responde por mais da metade do PIB municipal, a perda de Lula chegou a 8,8 pontos percentuais.
Metade das 711 cidades que mudaram de lado tem mais de 34% da economia ligada à agropecuária.
O cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV), encontrou resultado semelhante em uma análise independente, já publicada pela Revista Fórum.
Segundo Faganello, Lula perdeu participação nos votos válidos em 98% dos municípios analisados. A queda foi maior nas cidades pequenas, no Sul, no Centro-Oeste e onde o agronegócio tem participação mais elevada na economia.
Crédito recorde de Lula convive com endividamento no campo
O avanço do endividamento rural aparece entre as possíveis explicações para o desgaste eleitoral. Segundo a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio passaram de 534 em 2023 para 1.272 em 2024 e atingiram 1.990 em 2025, recorde da série histórica.
O cenário contrasta com os investimentos anunciados pelo governo Lula. O Plano Safra 2026/2027 disponibilizou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, R$ 9 bilhões acima do ciclo anterior. Os juros máximos de linhas estratégicas também foram reduzidos, incluindo uma queda de 14% para 12,5% ao ano no custeio empresarial.
Mesmo com a ampliação do crédito, produtores enfrentam juros elevados, custos de produção e dívidas acumuladas. Nos municípios dependentes da atividade rural, as dificuldades financeiras também atingem o comércio, os serviços e os trabalhadores que vivem ao redor da produção agrícola.
É nesse ambiente que Boni situa uma das hipóteses para o recuo de Lula. Os cruzamentos mostram a associação entre a economia agropecuária e a perda eleitoral, embora não determinem a causa da mudança.
Nas grandes cidades, a disputa passa pelo trabalho
O outro lado do levantamento aparece nas regiões metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em municípios como Osasco, Betim e Alvorada, onde a agropecuária tem participação pequena na economia, a queda proporcional de Lula foi de aproximadamente 2,7 pontos percentuais.
O recuo foi menor que no interior rural, mas suficiente para reverter vantagens estreitas que o petista havia conquistado quatro anos antes.
Boni destaca a rotina de trabalhadores que vivem nesses municípios e enfrentam jornadas extensas, deslocamentos demorados e pouco tempo de descanso. Nesse cenário, a discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou protagonismo na disputa presidencial.
O governo Lula defende a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e manutenção dos salários. A proposta avançou no Senado, mas ainda depende de votação.
Flávio Bolsonaro criticou o debate durante a campanha e classificou a iniciativa como oportunista. Seu coordenador, Rogério Marinho (PL-RN), defendeu regras mais flexíveis de negociação da jornada. Na quinta-feira (8), porém, o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), afirmou que Flávio lhe disse que votaria a favor do fim da escala 6×1 caso a proposta chegasse ao plenário.
Igrejas, prefeitos e abstenção aparecem com peso menor
O levantamento de Boni também examinou fatores frequentemente apontados como responsáveis pela mudança no comportamento eleitoral, entre eles o crescimento da abstenção, a presença de igrejas evangélicas e a influência dos prefeitos.
A abstenção nacional passou de 20,95% em 2022 para 21,08% em 2026. Nas 711 cidades analisadas, foram aproximadamente 83 mil ausências adicionais, diante de uma redução de 534 mil votos para Lula.
A presença de evangélicos também não acompanhou a intensidade da queda do petista. Nos municípios onde mais de 35% da população é evangélica, Lula perdeu 4,8 pontos percentuais. Nas localidades com menos de 15% de evangélicos, o recuo foi de 5,4 pontos.
O partido do prefeito apresentou diferenças pequenas. Nas cidades administradas pelo PT, Lula caiu aproximadamente cinco pontos percentuais. Nas governadas pelo PL, perdeu 5,3 pontos. Entre os 711 municípios que mudaram de vencedor, apenas 47 possuem prefeitos do PL, enquanto 18 são administrados por petistas.
O segundo turno de 25 de outubro colocará novamente em disputa esses municípios, que somam quase 11 milhões de eleitores, além dos demais colégios eleitorais do país. O mapa apresentado por Boni mostra duas realidades distintas: o interior dependente do agronegócio, onde Lula registrou quedas proporcionais maiores, e as cidades industriais e metropolitanas, onde diferenças menores de votos mudaram o vencedor.

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