Como Lula pode virar o jogo: jornalistas apontam estratégias de comunicação para o presidente

Como Lula pode virar o jogo: jornalistas apontam estratégias de comunicação para o presidente
- Foto: Ricardo Stuckert

Para virar o jogo no segundo turno, Lula precisa corrigir os erros da campanha, apresentar propostas que dialoguem com as necessidades da população e ampliar sua capacidade de comunicação com eleitores que ainda não estão convencidos. Essa foi a avaliação dos jornalistas Renato Rovai (Fórum), Kiko Nogueira (DCM) e Leonardo Attuch (Brasil 247) durante uma live em que analisaram o resultado do primeiro turno e discutiram os caminhos para a disputa decisiva, nesta sexta-feira (9). 
Entre as críticas, os comentaristas destacaram a dificuldade de traduzir as realizações do governo em mensagens simples, a falta de uma estratégia digital mais eficiente e a necessidade de reduzir a rejeição ao presidente. Ao mesmo tempo, apontaram a mobilização nas ruas como um sinal de força que pode contribuir para mudar o cenário eleitoral.
Confira cinco estratégias discutidas pelos jornalistas para Lula tentar conquistar novos votos.
1. Traduzir o discurso político para a realidade da população
Um dos principais desafios apontados na live é aproximar a comunicação de Lula das preocupações cotidianas dos brasileiros. Para Rovai, a campanha precisa abandonar discursos excessivamente abstratos e mostrar como temas políticos se relacionam com a vida concreta dos eleitores.
“A gente sabe que soberania é importante, a gente sabe que cidadania é importante, mas tem que traduzir essas coisas”, afirmou.
Na avaliação do jornalista, a campanha precisa apresentar de maneira mais clara os benefícios das políticas públicas e dialogar especialmente com setores da população que não estão plenamente identificados com o governo. A disputa exige transformar conceitos políticos em respostas para questões como emprego, renda, moradia e serviços públicos.
2. Apresentar propostas concretas para o futuro
Outro ponto levantado por Rovai é a necessidade da campanha ir além da lembrança dos governos anteriores de Lula. Em vez de se apoiar principalmente no legado histórico do presidente, a comunicação precisa demonstrar o que pode ser realizado daqui para a frente. Um
“A gente conversou com uma pessoa da campanha que disse que o pessoal do programa de governo não entregou para eles o Tarifa Zero, que eles consideravam fundamental para poder trabalhar como perspectiva de futuro. Se o programa político de governo não tem um Minha Casa Minha Vida, 10 milhões de empregos, coisas que já teve em outros governos, fica difícil você fazer o marketing também”, disse.
A crítica envolve tanto a comunicação quanto a formulação política. Para o jornalista, propostas concretas dão à campanha uma perspectiva de futuro e oferecem ao eleitor motivos objetivos para apoiar a continuidade do projeto. A mensagem precisa mostrar não apenas o que já foi feito, mas também o que pode melhorar na vida da população.
3. Apostar na mobilização popular e nas ruas
Apesar das críticas à condução da campanha, Kiko Nogueira destacou a movimentação de apoiadores como um fator capaz de alterar o cenário eleitoral. Na avaliação do jornalista, a presença de jovens e militantes nas manifestações demonstra que existe uma capacidade de mobilização que não pode ser subestimada.
“O que mudou de verdade e que está sendo um espetáculo é a mobilização nas ruas. Uma coisa subterrânea e acho decisiva, e que mostra que o PT ainda tem força na base, ao contrário do que dizem aí. Tem uma juventude que está articulada com a UNE e também que tem uma capacidade de encher as ruas, uma coisa que nós achávamos que estava perdida”, afirmou.
Kiko também ressaltou a participação da juventude e a capacidade de organização de setores ligados ao movimento estudantil. Para ele, essa energia pode ajudar a impulsionar a campanha. O desafio é transformar a mobilização em engajamento mais amplo, fazendo com que a presença nas ruas contribua para ampliar o alcance das propostas e estimular a participação eleitoral.
4. Fazer uma campanha digital direcionada a diferentes públicos
A presença nas redes sociais também foi apontada como um caminho importante para ampliar o alcance de Lula. No entanto, Rovai avalia que não basta reproduzir na internet as mesmas mensagens utilizadas nos atos de campanha. É preciso produzir conteúdos específicos para diferentes segmentos da sociedade.
“O que sinto é que a campanha, mesmo no digital, é muito analógica ainda. Vamos dar um exemplo. Concurseiros. O que a gente está falando para os concurseiros sobre o que será o governo Bolsonaro? Tem um vídeo falando ‘olha, vão acabar os concursos’?”, criticou.
O jornalista defendeu uma comunicação capaz de conversar diretamente com trabalhadores, motoristas de aplicativo, concurseiros e servidores públicos, por exemplo. A ideia é apresentar informações e propostas que respondam às preocupações de cada grupo, mostrando como as decisões políticas podem afetar sua realidade.
A estratégia também permitiria divulgar realizações do governo que, segundo Rovai, nem sempre recebem a atenção necessária. Para ele, uma campanha digital eficiente precisa ir além de vídeos genéricos e alcançar públicos que ainda não acompanham o presidente.
5. Reduzir a rejeição e conquistar eleitores fora da base
Além de mobilizar seus apoiadores, Lula precisa buscar votos entre eleitores que não têm uma identificação consolidada com o campo progressista. Esse foi um dos pontos defendidos por Atos, que considera fundamental construir pontes com setores do centro político e com pessoas que votaram na oposição por rejeição ao PT.
“Eu acho que o Lula tem que tentar também, nesses dias finais, fazer um movimento de redução da rejeição.Eu teria, por exemplo, se fosse ele, dado uma entrevista para o Valor Econômico, para o Infomoney, para a Exame, na primeira semana, para fazer uma mensagem para o mercado, também. Porque é óbvio que ele tem que fazer a mensagem para o trabalhador, da escala 6×1, de tudo isso, mas ele pode falar com vários públicos ao mesmo tempo. ”, afirmou.
Na avaliação do jornalista, o presidente pode ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade, inclusive empresários e eleitores preocupados com a economia, sem abandonar pautas voltadas aos trabalhadores. Ele também sugeriu valorizar figuras como Geraldo Alckmin, Fernando Haddad e Simone Tebet para reforçar a imagem de uma candidatura capaz de dialogar para além de sua base tradicional.
O desafio, portanto, é combinar a defesa dos direitos sociais com sinais de estabilidade e propostas que transmitam confiança a quem ainda tem dúvidas sobre o governo.
Comunicação e propostas no centro da disputa
As análises dos três jornalistas convergem para uma questão central: a possibilidade de Lula virar o jogo depende não apenas da mobilização de sua base, mas também da capacidade de corrigir os problemas identificados no primeiro turno. Apresentar propostas concretas, melhorar a comunicação digital e reduzir a rejeição são caminhos apontados para ampliar o alcance da campanha.
A mobilização nas ruas, por sua vez, pode funcionar como combustível para essa estratégia, desde que esteja acompanhada de mensagens claras e de uma perspectiva de futuro capaz de dialogar com diferentes segmentos da população.
Veja a live dos jornalistas na íntegra

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