A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (15) a Operação Unha e Carne 8 e prendeu o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo mais votado para a Alerj nas últimas eleições, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil do Rio de Janeiro. A ação, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, cumpriu seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão em sete municípios fluminenses, com foco em desarticular uma organização criminosa suspeita de usar postos de combustíveis para lavar dinheiro num esquema que, segundo relatório do Coaf, movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Prisões e Operação
Canella foi preso em casa, num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Marcus Amim, que além de ex-secretário de Polícia Civil já ocupou a presidência do Detran estadual, foi detido na mesma manhã. Os mandados alcançaram ainda endereços em Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios.
A operação desta quinta é a oitava fase de uma investigação que se arrasta há meses e que já havia colocado Canella e Amim na mira da PF anteriormente. A defesa de Canella informou que não se pronunciaria até ter acesso aos autos.
Esquema de R$ 7,6 bilhões e agentes públicos no centro da investigação
Segundo a PF, o alvo é uma organização criminosa armada que utilizava uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio como plataforma de lavagem de dinheiro. “O grupo investigado conta com a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”, afirmou a corporação em nota.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações.
O volume financeiro apurado chega a R$ 7,6 bilhões movimentados nos últimos seis anos, conforme Relatório de Inteligência Financeira do Coaf enviado à PF. Além de Canella e Amim, foram presos os inspetores da Polícia Civil Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Júnior e Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. O delegado Glaucio Paz da Silva foi alvo de buscas. A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou o cumprimento dos mandados contra os policiais investigados.
Decisão de Moraes e o histórico da Operação Unha e Carne
As prisões desta quinta foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes e representam um desdobramento direto da 6ª fase da operação, realizada em julho. Naquela ocasião, Canella e Amim já haviam sido alvo de buscas. Canella acabou preso em flagrante no dia 7 de julho, quando agentes encontraram um fuzil calibre 5,56 em seu veículo. A defesa sustentou que a arma pertencia a um policial militar da escolta, e Moraes revogou a prisão preventiva por considerar a versão verossímil, com base em registros das armas em nome de PMs identificados pela corporação.
A investigação se insere no âmbito da ADPF 635/RJ, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou à PF conduzir apurações sobre relações entre agentes públicos e facções criminosas no Rio. A operação integra ainda a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela PF para combater grupos criminosos no estado. Canella, que presidia o União Brasil no Rio e tinha Rogéria Bolsonaro indicada como primeira suplente em sua frustrada candidatura ao Senado, conquistou o quarto mandato consecutivo na Alerj mesmo com a candidatura questionada pela Procuradoria Regional Eleitoral por conta das investigações. Moraes também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão da atividade econômica de 112 empresas investigadas no esquema, a maioria postos de gasolina.
Aliado de Flávio Bolsonaro
A prisão de Márcio Canella atinge um aliado que, até poucos meses atrás, ocupava lugar central no projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro. O ex-prefeito de Belford Roxo era o nome apoiado pelo presidenciável para disputar uma das vagas ao Senado e chegou a ter Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, como primeira suplente na chapa.
Em abril, Flávio declarou em vídeo: “Estou aqui para reafirmar o meu apoio integral, 100%, ao meu amigo Márcio Canella como pré-candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro”. O senador ainda classificou Canella como “competente” e afirmou que o aliado estaria ao seu lado na missão de “resgatar o nosso Brasil”.
Um mês depois, Flávio voltou a tratar Canella como parte de sua chapa. A composição começou a desmoronar em julho, quando Canella foi alvo da sexta fase da Operação Unha e Carne e acabou preso em flagrante depois que a PF encontrou um fuzil em seu veículo. Logo após a operação, integrantes do PL passaram a avaliar que ele não tinha mais condições políticas de permanecer na disputa ao Senado e defendiam sua substituição para evitar desgaste à chapa de Flávio. Posteriormente, Moraes revogou as restrições relacionadas ao episódio do fuzil após a Polícia Militar informar que a arma pertencia a um policial da escolta de Canella.
No início de agosto, menos de um mês após a prisão, Canella anunciou que desistia da candidatura ao Senado e decidiu disputar novamente uma cadeira na Alerj. Com isso, também caiu a composição que colocaria Rogéria Bolsonaro como sua primeira suplente. Ele acabou eleito deputado estadual e, nesta quinta-feira (15), voltou a ser preso pela PF na nova fase da mesma investigação que já havia abalado o palanque de Flávio Bolsonaro no Rio.
Márcio Canella, aliado de Flávio Bolsonaro e um dos deputados mais votados do RJ, é preso pela PF
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