Encontros, mensagens e pagamentos ocorridos enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) analisava uma disputa relacionada a interesses econômicos do Banco Master colocam novamente sob atenção a relação entre Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques.
Reportagem exclusiva da revista piauí, publicada nesta sexta-feira (23), revela que Vorcaro manteve uma relação de proximidade com Nunes Marques durante o período em que a Segunda Turma do STF julgava uma ação envolvendo créditos do setor sucroalcooleiro nos quais o Master tinha interesse econômico.
A investigação, baseada em mensagens extraídas do celular de Vorcaro, registros e documentos financeiros, mostra ainda que a Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025.
A mesma empresa repassou R$ 281,6 mil a Kevin Marques, filho do ministro. Kevin afirma que o dinheiro remunerou serviços jurídicos especializados prestados à Consult e nega ter trabalhado ou recebido pagamentos do Banco Master.
Desembargador aproximou Vorcaro e Nunes Marques
As mensagens obtidas pela piauí apontam o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), como um dos responsáveis pela aproximação entre Vorcaro e Nunes Marques.
Em abril de 2024, Ramos escreveu ao banqueiro: “Queria ver se tomávamos um vinho eu, vc e o Min Kassio”.
Segundo a reportagem, as conversas registram ao menos nove encontros presenciais articulados pelo desembargador entre Vorcaro e o ministro.
Kevin Marques também esteve na sede do Banco Master. Em junho de 2024, participou de uma reunião no banco, em São Paulo. Em outubro, retornou ao local acompanhado de Francisco Craveiro de Carvalho Junior, responsável pela Consult.
As mensagens também revelam uma conversa do então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, que enviou o contato de Kevin a Vorcaro acompanhado da pergunta: “Esse aqui, 500 mil mês, mantém?”.
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Voto de Nunes Marques desempatou julgamento
A aproximação ocorreu enquanto a Segunda Turma do STF analisava uma disputa envolvendo a Destilaria Alcídia, que buscava indenização da União por prejuízos relacionados à política de preços do setor sucroalcooleiro.
O Banco Master não era parte formal da ação. Segundo a piauí, a instituição havia adquirido créditos judiciais de outras usinas e tinha interesses econômicos relacionados a disputas semelhantes.
Nunes Marques chegou a se declarar impedido de participar do julgamento, mas posteriormente afastou o impedimento. Segundo o ministro, a declaração inicial havia ocorrido por equívoco de sua assessoria.
Em outubro de 2024, Nunes Marques votou a favor da tese das usinas e desempatou o julgamento da Segunda Turma.
Mensagens obtidas pela reportagem mostram que integrantes do Master comemoraram o resultado. Em uma delas, Luiz Rennó escreveu a Vorcaro após o desfecho: “Dominado aqui”.
A sequência de encontros, pagamentos e decisões ocorreu em períodos próximos, mas os documentos apresentados pela reportagem não comprovam que o voto de Nunes Marques tenha sido comprado, negociado ou condicionado às relações mantidas com pessoas ligadas ao Master.
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Contrato milionário e relação com Newton Ramos
A investigação também alcança Newton Ramos. O escritório de Camilla Ramos, mulher do desembargador, firmou contrato para representar interesses do Master em processos relacionados às indenizações de usinas que tramitavam no TRF1.
O acordo previa honorários de êxito equivalentes a 5% dos benefícios econômicos obtidos em determinadas ações, envolvendo disputas de valores bilionários.
Segundo a piauí, mensagens mostram ainda pedidos relacionados a viagens, hospedagens e outros benefícios envolvendo Newton Ramos e Vorcaro.
O escritório de Camilla afirma que não atuou no julgamento da Destilaria Alcídia no Supremo e que não recebeu os honorários de êxito previstos no contrato.
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Nunes Marques e filho negam irregularidades
Procurado pela piauí, Nunes Marques afirmou que “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro”, que nunca pediu nada ao banqueiro, não recebeu pedidos dele e jamais autorizou terceiros a falar em seu nome.
O ministro argumenta ainda que o julgamento da Destilaria Alcídia não tinha o Banco Master como parte e que a decisão não teve alcance geral nem serviu como precedente para outros processos do setor.
Sobre o filho, Nunes Marques afirmou que Kevin “nunca recebeu nada do Banco Master”. O advogado sustenta que os R$ 281,6 mil recebidos da Consult correspondem a serviços jurídicos prestados à própria consultoria.
Newton Ramos também nega ter interferido em processos de interesse do escritório da mulher ou utilizado sua posição para favorecer o Banco Master.
As revelações ganham dimensão adicional porque Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, atualmente preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pela condução das eleições de 2026.
A reportagem da piauí documenta uma rede de encontros e relações financeiras no entorno de Nunes Marques durante o período em que processos de interesse econômico do Master passavam pelo Judiciário.
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