O Itamaraty negou, na última semana, os vistos de Riley M. Barnes e Samuel D. Samson, funcionários do Departamento de Estado dos EUA ligados ao governo Trump, que pretendiam vir ao Brasil alegando discutir liberdade de expressão no contexto eleitoral. Segundo integrantes do governo brasileiro, os dois diplomatas revelaram, nos contatos para agendamento de reuniões, a intenção de se encontrar com Flávio Bolsonaro, candidato do PL à presidência da República. A negativa ocorreu antes mesmo da publicação de uma reportagem do Washington Post que expôs o plano estadunidense, e levou em conta a avaliação de que a visita poderia ser usada para questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras.
Itamaraty nega vistos a diplomatas de Trump
O Itamaraty negou os vistos de Riley M. Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado dos EUA, e de Samuel D. Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo escritório. Os dois são funcionários do governo Trump e pretendiam vir ao Brasil com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no contexto das eleições. A negativa foi dada na sexta-feira (25), antes da publicação da reportagem do Washington Post que tornaria o caso público.
A justificativa apresentada pelos diplomatas para a viagem é, por si só, politicamente carregada: “liberdade de expressão no contexto das eleições” é formulação que, no vocabulário da direita trumpista e bolsonarista, costuma funcionar como moldura para questionar regulações eleitorais e instituições de controle. O Itamaraty não precisou esperar a repercussão internacional para agir: a decisão de barrar a entrada dos dois funcionários foi tomada com base na avaliação interna do próprio governo brasileiro sobre os riscos que a visita representava.
A intenção de encontro com Flávio Bolsonaro
Ao mesmo tempo em que solicitaram os vistos às autoridades brasileiras em Washington, Barnes e Samson pediram à Embaixada dos EUA em Brasília que agendasse conversas com membros do governo brasileiro. Foi nesses contatos que os diplomatas revelaram a intenção de também se encontrar com Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República.
A agenda com membros do governo poderia, em tese, ser enquadrada como interlocução diplomática ordinária. O encontro pretendido com Flávio Bolsonaro, no entanto, não se encaixa nessa lógica: Flávio não ocupa cargo no Executivo federal, e sua inclusão na agenda dos diplomatas aponta para um objetivo político específico. A viagem de Barnes e Samson veio à tona na mesma semana em que Flávio Bolsonaro pediu a representantes diplomáticos estrangeiros que enviassem observadores internacionais ao país, após levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas com base em informações desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde 2017. A coincidência de timing não passou despercebida pelo governo brasileiro.
O risco de instrumentalização e o contexto eleitoral
A avaliação que levou à negativa dos vistos considerou diretamente o momento político em que o pedido foi feito. Integrantes do governo brasileiro relatam que Flávio Bolsonaro havia questionado as urnas eletrônicas inclusive em um evento com diplomatas, e que esse histórico recente pesou na decisão. O diagnóstico foi objetivo: havia risco concreto de instrumentalização da visita para questionar a integridade do processo eleitoral brasileiro em um contexto pré-eleitoral.
“Foi constatado um risco de instrumentalização da visita em um contexto pré-eleitoral”, segundo integrantes do governo brasileiro.
O episódio ganhou reforço externo quando o Washington Post publicou, na última sexta-feira, reportagem informando que o governo de Donald Trump planejava enviar funcionários ao Brasil para questionar a integridade das urnas eletrônicas, citando Barnes e Samson entre os envolvidos. O detalhe relevante é que a negativa brasileira foi anterior à publicação: o Itamaraty agiu por avaliação própria, não como reação à pressão da imprensa internacional.
Lula confirma negativa dos vistos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta quarta-feira (29), durante a convenção nacional do PSB em Brasília, que não permitirá interferência estrangeira nas eleições brasileiras, mandando recados diretos a Donald Trump e a Javier Milei. Lula confirmou que o Itamaraty negou visto a dois funcionários dos EUA enviados pelo governo Trump e chamou de “patacoada” os ataques do presidente argentino, que dias antes havia discursado na convenção do PL ao lado de Flávio Bolsonaro.
“Enquanto eu for presidente, ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras”, declarou Lula.
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