O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o ex-presidente Jair Bolsonaro de “homicida” durante a convenção nacional do PSB, realizada em Brasília na quarta-feira (29), evento que oficializou Geraldo Alckmin como seu vice na chapa presidencial para as eleições deste ano.
Lula responsabilizou Bolsonaro por mais da metade das mortes registradas no Brasil durante a pandemia de Covid-19 e elogiou Alckmin como garantia contra qualquer tentativa de golpe.
O vice-presidente, por sua vez, atacou “extremistas” que, segundo ele, deturpam os valores de Deus, pátria e família para promover ódio e violência, e defendeu a democracia como única guardiã da liberdade.
Lula acusa Bolsonaro de ‘homicida’ e exalta Alckmin
O presidente Lula não poupou palavras ao falar do ex-presidente Jair Bolsonaro diante da plateia do PSB.
“Veio a Covid e o SUS finalmente conseguiu ter a visibilidade por causa da decência dos médicos, das enfermeiras, dos faxineiros, dos motoristas, que colocaram a sua vida em risco para salvar quem estava nas mãos de um homicida chamado Bolsonaro, que é responsável por mais da metade das pessoas que morreram neste país”, declarou o presidente.
A acusação é direta e politicamente carregada: ao nomear Bolsonaro como “homicida”, Lula ancora a crítica na gestão da pandemia e na memória das 700 mil mortes registradas no país durante a crise sanitária.
A escolha de creditar ao SUS e aos seus trabalhadores a resistência à pandemia, e não ao governo anterior, é também uma disputa de legado.
Lula posicionou médicos, enfermeiros, faxineiros e motoristas como protagonistas de uma resposta que ocorreu apesar, e não por causa, da condução federal da época.
O enquadramento não é acidental: é o eixo central de uma narrativa que a chapa pretende consolidar ao longo da campanha.
Sobre Alckmin, o tom foi de gratidão e confiança explícita.
“O Alckmin é aquela garantia que todo mundo precisa. É aquela pessoa que você pode deitar com a certeza absoluta de que ele está trabalhando para que as coisas deem certo no país. E eu posso dizer que, com o Alckmin, a gente nunca vai pensar que vai dormir e vai ter um golpe no dia seguinte de manhã. Porque o Alckmin, antes de tudo, é um homem de muita lealdade, de muita capacidade de trabalho e de muita honestidade”, afirmou Lula.
A referência ao golpe não é retórica vaga.
Bolsonaro foi condenado pela tentativa de ruptura institucional ocorrida entre 2022 e 2023, e Lula usou a figura de Alckmin para contrastar diretamente com esse histórico.
O elogio ao vice funciona, ao mesmo tempo, como defesa do parceiro de chapa e como acusação implícita ao adversário.
Lula também comentou a tensão diplomática com os Estados Unidos, afirmando que pretende “fazer a guerra da narrativa” contra Donald Trump, e recusou-se a responder às provocações do presidente argentino Javier Milei, que o insultou em evento de Flávio Bolsonaro.
“Não vou ficar trocando coisa com aquela coisa”, disse o presidente.
Alckmin critica ‘extremistas’ e o legado bolsonarista
Geraldo Alckmin subiu ao palco da convenção do PSB com um discurso que desmontou, ponto a ponto, o bordão que marcou o bolsonarismo.
“Há não muito tempo atrás, a gente via andar pelas ruas do Brasil um bordão dos extremistas, e esse bordão era ‘Deus, pátria, família e liberdade'”, disse o vice-presidente, antes de desconstruir cada um dos termos.
Segundo Alckmin, usar o nome de Deus “para promover a violência, promover o ódio, para propor, arquitetar, o assassinato daqueles que o povo legitimamente elegeu pelas urnas” é uma contradição inaceitável.
“Pátria é a união, não é entreguismo, não é você trabalhar lá fora contra o interesse do nosso país, contra o emprego, contra as empresas, de maneira servil. Família é a paixão. Não é possível falar de família com nós tendo 700 mil famílias enlutadas pela displicência, pelo descaso do governo frente à doença. Não é possível falar em liberdade querendo derrubar a democracia.”
A menção às 700 mil famílias enlutadas conecta o discurso de Alckmin diretamente ao de Lula, reforçando a coerência da narrativa da chapa: a pandemia como síntese do que o bolsonarismo representou para o país.
O vice-presidente foi além ao criticar o uso do aparato estatal para impedir votos no segundo turno da última eleição e a tentativa de derrubar o governo eleito, episódios que remetem diretamente à condenação de Bolsonaro.
Alckmin encerrou sua fala com uma afirmação que resume a posição da chapa sobre o adversário: “A democracia é a guardiã da liberdade. Quem não acredita na democracia não devia nem disputar a eleição.”
A frase é ao mesmo tempo princípio e provocação, dirigida a um campo político que chegou às urnas em 2022 depois de meses questionando o sistema eleitoral.
Contexto da convenção e a guerra de narrativas
A convenção do PSB foi o segundo evento de partido aliado em que Lula participou em sequência, após o encontro do PDT na semana anterior, ambos realizados em Brasília.
O rito de convenções partidárias que oficializam apoios e confirmam chapas é protocolar, mas o conteúdo dos discursos desta quarta-feira foi além do protocolo: Lula e Alckmin usaram o espaço para estabelecer os termos da disputa que se aproxima, com acusações diretas, linguagem de campanha e enquadramentos que devem se repetir ao longo dos próximos meses.
A oficialização de Alckmin como vice consolida uma parceria que, desde 2022, une o PT ao PSB e representa uma das apostas centrais da chapa: a de que a combinação entre a base histórica petista e o eleitorado de centro que Alckmin representa é suficiente para vencer.
O elogio efusivo de Lula ao companheiro de chapa, com ênfase em lealdade e na ausência de risco de golpe, serve também para diferenciar a dupla do que foi o governo anterior.
A “guerra da narrativa” mencionada por Lula em relação a Trump não ficou confinada à política externa.
O conceito atravessa o discurso inteiro: a disputa é por qual versão da pandemia, da democracia e do papel do Estado vai prevalecer no imaginário do eleitorado.
A chapa aposta que a memória das mortes na Covid, da tentativa de golpe e do “entreguismo” são ativos eleitorais, e os discursos desta quarta-feira foram um ensaio geral dessa estratégia.
O cenário que se desenha é de uma campanha travada em torno de narrativas já conhecidas, mas agora com os candidatos em campo aberto e o calendário eleitoral em movimento.
Lula chama Bolsonaro de ‘homicida’ em convenção que oficializou Alckmin como vice
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