Contador de Flávio Bolsonaro, ligado ao Careca do INSS, está preso por fraudes em aposentadorias

Contador de Flávio Bolsonaro, ligado ao Careca do INSS, está preso por fraudes em aposentadorias
- Flávio Bolsonaro em ato de campanha (Vitor Salles / Divulgação)

O contador do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está preso desde dezembro de 2025 no caso dos descontos ilegais em benefícios do INSS e foi alvo de duas fiscalizações do Conselho Regional de Contabilidade do Distrito Federal (CRC-DF). Em uma delas, o órgão apontou irregularidades em dez de 21 declarações emitidas pelo profissional.
Alexandre Caetano dos Reis é dono da Voga Serviços Contábeis, empresa responsável pela contabilidade da banca de Flávio Bolsonaro. A irmã dele, Letícia Caetano dos Reis, administra o escritório de advocacia do senador. As informações foram reveladas pela colunista Natália Portinari, do UOL.
Caetano dos Reis foi preso por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na investigação sobre descontos irregulares aplicados a aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social.
O contador também era responsável técnico pela Brasília Consultoria Empresarial, principal empresa de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. A relação entre o núcleo investigado e o escritório de Flávio Bolsonaro já havia sido detalhada pela Revista Fórum.
Contador de Flávio teve dez declarações consideradas irregulares
A primeira notificação do CRC-DF contra Alexandre Caetano dos Reis ocorreu em julho de 2018. O conselho pediu à Voga Serviços Contábeis uma relação de clientes com CNPJ, regime de tributação e data de início de cada contrato.
A empresa conseguiu uma liminar para impedir a entrega das informações. Em 2022, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que o contador não era obrigado a fornecer os dados solicitados naquela fiscalização.
Uma segunda apuração, aberta em 2019, analisou 21 Declarações Comprobatórias de Percepção de Rendimentos, conhecidas como Decores. O CRC-DF encontrou irregularidades em dez documentos emitidos pelo escritório.
Segundo a análise do conselho citada pela reportagem, o contador deixou de observar disposições legais na elaboração das declarações. Os documentos teriam sido preenchidos de forma incompleta, o que levantou dúvidas sobre a consistência das informações apresentadas.
As Decores são emitidas por profissionais de contabilidade para comprovar rendimentos, especialmente de trabalhadores autônomos. Os documentos podem ser usados na contratação de empréstimos e na participação em licitações.
Nesse segundo processo, a Justiça reconheceu o direito do CRC-DF de exigir os dados. A defesa recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mas o recurso foi negado em junho de 2026.
Prisão no caso do INSS e ligação com o Careca
A decisão que determinou a prisão afirma, segundo o UOL, que Caetano dos Reis teria exercido papel central na ocultação de patrimônio e na internacionalização do esquema investigado. Uma das operações envolveria uma empresa mantida com o Careca do INSS nas Ilhas Virgens Britânicas.
A ligação chegou à CPMI do INSS, que recebeu pedidos de convocação de Letícia Caetano dos Reis por causa do elo entre o escritório de Flávio Bolsonaro e o núcleo do Careca do INSS. A Fórum mostrou que Flávio Bolsonaro também foi alvo de um pedido de convocação na comissão.
O relatório final elaborado por parlamentares governistas na CPMI apontou que a Voga Serviços Contábeis teria atuado para facilitar uma suposta lavagem de dinheiro e o desvio de recursos retirados de aposentados por associações investigadas.
O documento também propôs o indiciamento de Flávio Bolsonaro por formação de organização criminosa. A conclusão e os vínculos citados pelos parlamentares foram detalhados em reportagem da Fórum sobre o relatório encaminhado à Polícia Federal.
Em depoimento à Polícia Federal, Caetano dos Reis negou participação nas movimentações financeiras. Ele afirmou que atuava apenas como contador e que nunca teve acesso às contas bancárias das empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes.
Voga aparece na contabilidade de nota de R$ 500 mil
A ligação da Voga com o escritório de Flávio Bolsonaro aparece em uma nota fiscal de R$ 500 mil, emitida em abril de 2025 por supostos serviços de assessoria jurídica prestados à Contábil Corrêa, de São Caetano do Sul, no ABC paulista.
O documento apresenta um endereço de e-mail da Voga como contato da contabilidade da banca de Flávio. A Fórum revelou que o escritório do senador teve apenas dois clientes e quase não mantinha atividade operacional.
A Contábil Corrêa pertence a Rogério Lourenço Novo, também apontado como dono da Copenhaguen, empresa instalada no mesmo endereço e que recebeu R$ 58 milhões do Banco Master.
O advogado de Caetano dos Reis, Willer Tomaz, mantém relação próxima com Flávio Bolsonaro. Os dois viajaram juntos aos Estados Unidos em 2025, segundo a publicação.
Outro vínculo envolve Rodrigo Martins Corrêa, sócio de Caetano dos Reis na Voga Serviços Contábeis. Ele é funcionário da DJ Agropecuária, fazenda do senador Weverton Rocha (PDT-MA), que foi alvo de uma fase da Operação Sem Desconto.
Flávio Bolsonaro foi procurado pelo UOL por meio de sua assessoria de imprensa, mas não respondeu. A defesa de Alexandre Caetano dos Reis também não se manifestou sobre as fiscalizações. O CRC-DF informou que não comenta casos concretos ainda em andamento, para preservar o devido processo legal, a ampla defesa e o sigilo dos procedimentos.

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