PT denuncia rede de “laranjas” ligada ao clã Bolsonaro que usa IA para atacar Lula

PT denuncia rede de “laranjas” ligada ao clã Bolsonaro que usa IA para atacar Lula
laranja - Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

O PT denunciou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma rede de 31 perfis laranjas ligada ao ecossistema digital da família Bolsonaro que, segundo a ação, usa inteligência artificial para produzir e espalhar ataques contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estrutura reúne 1.464.245 seguidores compartilhados e 23.828 publicações, além de ter seus conteúdos impulsionados por Flávio Bolsonaro e outros políticos bolsonaristas com audiências milionárias.
Protocolada nesta quinta-feira (30) pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, a representação pede à Justiça Eleitoral a remoção imediata das publicações, a identificação dos responsáveis pelas contas, a preservação dos registros de conexão e o bloqueio de eventuais receitas obtidas com a monetização dos ataques. O processo, de número 0601342-80.2026.6.00.0000, foi distribuído ao ministro Nunes Marques.
A íntegra da representação protocolada no TSE aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os deputados federais Mario Frias (PL-SP), Gustavo Gayer (PL-GO) e Gilvan da Federal (PL-ES), além de André Marinho, pré-candidato do Novo ao governo do Rio de Janeiro, como amplificadores de materiais produzidos originalmente por contas anônimas ou apócrifas.
PT liga rede de perfis laranjas ao entorno de Bolsonaro
A ligação com a família Bolsonaro aparece principalmente na atuação de Flávio Bolsonaro. O senador é formalmente representado na ação e, segundo a Federação, compartilhou vídeos criados pelos perfis investigados, mencionou páginas responsáveis pela produção dos materiais e levou os ataques contra Lula a milhões de usuários.
A petição não afirma que todos os 31 perfis sejam administrados diretamente pela família Bolsonaro. A denúncia sustenta que existe uma rede de contas anônimas ou apócrifas vinculada ao campo bolsonarista, que produz conteúdos contra Lula e recebe impulso, validação e audiência de Flávio Bolsonaro e de outros aliados políticos.
Parte das publicações também promoveria a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro enquanto associa Lula, o PT e integrantes do governo a crimes, corrupção e outras acusações depreciativas.
Flávio Bolsonaro levou vídeo da rede a um milhão de visualizações
Um dos principais exemplos apresentados na ação ocorreu em 31 de maio. Flávio Bolsonaro publicou no Instagram, acompanhado da frase “caiu na rede”, um vídeo produzido com inteligência artificial que retratava Lula de maneira ofensiva.
De acordo com a representação, o material havia sido publicado no dia anterior por um grupo de perfis anônimos. A postagem original somou 429 mil curtidas. Depois de compartilhado pelo senador, o vídeo chegou a um milhão de visualizações diante de uma audiência de 3,7 milhões de seguidores.
A Federação afirma que Flávio Bolsonaro também mencionou diretamente as páginas responsáveis pela criação do vídeo. Para os autores da ação, a exposição dada por um senador e pré-candidato à Presidência funciona como uma chancela política, aumenta a relevância das contas e incentiva a continuidade da produção de ataques.
Outra publicação feita por Flávio no X, com estética semelhante e texto contra Lula, teria alcançado 1,1 milhão de usuários.
Apenas os perfis de Flávio Bolsonaro, Mario Frias, Gustavo Gayer, Gilvan da Federal e André Marinho reuniriam uma audiência de 9,5 milhões de seguidores. As postagens citadas na representação teriam acumulado 5,8 milhões de visualizações.
Mario Frias, Gustavo Gayer e Gilvan ampliaram conteúdos de IA
O deputado Mario Frias aparece na ação por publicações geradas com inteligência artificial que alcançaram milhões de visualizações em seu perfil, acompanhado por 2,4 milhões de pessoas. Algumas das postagens associam Lula a crimes ou o retratam em situações fictícias e depreciativas.
Gustavo Gayer, que possui cerca de 3,1 milhões de seguidores, também é citado pela divulgação de vídeos sintéticos contra o presidente. A representação inclui ainda publicações de Gilvan da Federal que, segundo a Federação, sequer apresentavam informação clara sobre o emprego de inteligência artificial.
André Marinho, com aproximadamente 374 mil seguidores, é apontado como responsável por compartilhar vídeos de IA contra Lula que teriam alcançado cerca de 280 mil visualizações.
Para a Federação, a publicação desses conteúdos por titulares de mandatos eletivos retira os materiais de páginas anônimas com alcance limitado e os projeta para audiências muito maiores. A ação afirma que a circulação nas contas oficiais também confere aparência de legitimidade aos ataques.
Rede usa collabs para simular rejeição popular a Lula
O PT afirma que a coordenação entre os perfis foi identificada pelo uso recorrente da ferramenta collab do Instagram. O recurso permite que uma mesma publicação apareça simultaneamente em duas ou mais contas, distribuindo o conteúdo para a soma das audiências envolvidas.
Diferentemente de um compartilhamento comum, uma collab depende da autorização dos perfis participantes. A Federação sustenta que essa característica demonstra uma atuação deliberada e coordenada, e não uma sequência espontânea de republicações.
A petição enquadra a estratégia como uma forma de astroturfing, técnica usada para fabricar apoio ou rejeição aparentemente espontâneos nas redes sociais.
Segundo a denúncia, a repetição dos ataques em diferentes páginas e formatos busca produzir no eleitor a impressão de que existe uma rejeição popular ampla e orgânica contra Lula, quando o volume seria resultado de uma operação organizada para dominar parte do debate político digital.
Perfil articulador realizou collabs com 25 contas
O perfil @narrativascuriosastv é apontado pela Federação como um dos principais articuladores da rede. Conforme o levantamento anexado ao processo, a página reunia 320 mil seguidores, 3.364 publicações e havia realizado colaborações com 25 contas do grupo.
A ação afirma que o perfil publica prioritariamente ataques contra Lula e o PT, além de conteúdos favoráveis a Flávio Bolsonaro. O senador teria feito referência direta à página em uma de suas postagens.
Outro perfil destacado é o @iamemesvideos, apontado como produtor e distribuidor de vídeos feitos com inteligência artificial para degradar a imagem de Lula, do PT e de aliados.
Ao todo, a Federação apresentou ao TSE uma análise detalhada de 67 publicações realizadas em colaboração. Os materiais incluem vídeos sintéticos, imagens estáticas, animações, montagens, vozes artificiais e outras peças audiovisuais produzidas com inteligência artificial.
Perfis transformaram ataques contra Lula em negócio
A representação afirma que parte da rede converte a produção de ataques políticos em modelo de negócio. A obtenção de receita ocorreria pela venda de cursos sobre inteligência artificial, pedidos de doação via Pix, arrecadação em criptomoedas e mecanismos de monetização oferecidos pelas próprias plataformas.
Segundo a ação, algumas contas usam o alcance obtido com os conteúdos políticos para anunciar cursos que ensinam a criar vídeos com inteligência artificial. Outras divulgam chaves Pix ou carteiras digitais para receber dinheiro diretamente dos seguidores.
Para a Federação, a remuneração aumenta o incentivo à produção contínua de conteúdos ofensivos e permite que os ataques contra Lula sejam financiados pela própria audiência construída pela rede.
O uso de avatares e personagens sintéticos na política já havia motivado outras ações. Em abril, o PT pediu ao TSE a suspensão de um perfil feito com inteligência artificial por desinformação e ataques contra Lula.
A Fórum também revelou que o avatar bolsonarista “Dona Maria” havia acumulado mais de 100 mil seguidores enquanto divulgava ataques políticos produzidos por IA. Após sair do ar no TikTok, o perfil reapareceu em outra conta e desafiou a atuação da Justiça Eleitoral.
Em maio, um estudo identificou ao menos 18 influenciadores políticos criados por inteligência artificial no Brasil, com uso recorrente de desinformação e ataques contra autoridades.
Jingles contra Lula abastecem milhares de vídeos no TikTok
A denúncia também alcança trilhas sonoras criadas para serem reutilizadas em vídeos no TikTok. Segundo a petição, os jingles contêm acusações, insultos e ataques contra Lula e o Partido dos Trabalhadores.
Uma vez publicado na plataforma, o áudio pode ser incorporado por outros usuários a milhares de vídeos diferentes. Um dos jingles identificados pela Federação, chamado “Fazueli”, aparecia associado a 12,8 mil publicações. Outro áudio ofensivo contra petistas acumulava 12,7 mil usos.
A ação sustenta que a irregularidade não está apenas nos vídeos individualmente, mas também nas próprias trilhas, que funcionam como matéria-prima para a produção massiva de propaganda eleitoral negativa.
Segundo a Federação, o sistema de remuneração do TikTok também pode gerar pagamentos aos responsáveis pelos áudios conforme as trilhas são reutilizadas. A denúncia afirma que o mecanismo transforma ataques políticos em fonte recorrente de receita.
PT pede remoção, identificação dos responsáveis e bloqueio de receitas
O principal pedido da Federação Brasil da Esperança é a concessão de uma liminar para interromper imediatamente a circulação dos conteúdos. A ação solicita que o TSE determine a remoção das publicações indicadas no Instagram, no TikTok e no X.
A Federação também pede que as plataformas preservem e entreguem os dados cadastrais e os registros de conexão dos perfis anônimos, incluindo endereços de IP, telefones, e-mails e outras informações capazes de identificar os administradores.
Outro pedido é a suspensão de eventuais mecanismos de monetização vinculados às contas e aos responsáveis pelas publicações. A medida busca impedir que os autores continuem recebendo dinheiro enquanto os conteúdos contestados permanecem sob análise da Justiça Eleitoral.
No julgamento definitivo, o PT, o PV e o PCdoB pedem que o TSE reconheça a prática de propaganda eleitoral antecipada negativa e divulgação anônima de conteúdo eleitoral. A Federação solicita ainda a aplicação de multas individuais, por publicação, no valor máximo previsto na legislação.
As regras aprovadas pelo TSE para as eleições de 2026 disciplinam a divulgação de conteúdo sintético gerado ou modificado por inteligência artificial e autorizam medidas contra perfis que descumpram as exigências de identificação ou incidam nas proibições eleitorais.
Até o protocolo da representação, ainda não havia decisão sobre os pedidos de urgência.

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