O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo das investigações sobre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e autorizou o monitoramento de seu celular por dez dias, em decisão tornada pública na quinta-feira (30). A medida foi tomada no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa ligadas ao extinto Banco Master. Com o levantamento do sigilo, vieram a público detalhes do relatório da Polícia Federal (PF) que apontam ligações frequentes com um ex-sócio do banco, a negociação de um apartamento em Salvador e a preocupação do ministro com o risco de vazamento da operação.
Decisão do STF e o monitoramento
A decisão de Mendonça foi assinada em 17 de junho, mas permaneceu sob sigilo por mais de quarenta dias. Ao torná-la pública, o ministro informou que as diligências autorizadas já haviam sido encerradas, o que justificava o levantamento do sigilo. A medida autorizada não permite o acesso ao conteúdo de conversas ou mensagens: o que a PF pôde acessar foram registros de antenas de telefonia (ERBs), histórico de chamadas e outros metadados capazes de reconstruir deslocamentos e identificar contatos entre os investigados.
Mendonça acolheu parcialmente o pedido da PF. De dez alvos listados pelos investigadores, apenas seis tiveram o monitoramento em tempo real autorizado, entre eles Wagner e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master apontado como um dos principais operadores do esquema investigado. Para os outros quatro, o ministro negou a medida por entender que, naquele momento, eles não ocupavam posição de protagonismo suficiente para justificar restrição mais intensa ao sigilo de dados.
Segundo os investigadores, os alvos utilizavam chamadas de voz, encontros presenciais e mensagens temporárias de forma deliberada para reduzir a produção de provas documentais. O relatório aponta ainda o uso de linguagem cifrada em parte das conversas. Para a corporação, o monitoramento em tempo real era necessário também porque Wagner, com mandato parlamentar em pleno exercício e agenda intensa entre Salvador, Brasília e outros estados, tornava o acompanhamento por meios convencionais de campo praticamente inviável sem risco de expor a investigação.
As suspeitas da PF contra Jaques Wagner
O relatório da PF, agora público, descreve uma relação que os investigadores classificam como de “notória proximidade” entre Wagner e Augusto Ferreira Lima. Foram identificadas 74 chamadas de áudio entre os dois entre novembro de 2023 e 25 de maio de 2025, totalizando mais de cinco horas e trinta minutos de conversa em 555 dias, o equivalente a uma ligação a cada 7,5 dias. Os dados foram extraídos do celular de Lima, apreendido durante a operação. Segundo a PF, o número de Wagner estava salvo no aparelho de Lima desde janeiro de 2022, e as mensagens trocadas incluíam demonstrações de afeto entre as famílias e envio de “lembranças” de final de ano.
A suspeita central da investigação envolve a compra de um apartamento de 245 metros quadrados no empreendimento Poème Horto, no bairro Horto Florestal, em Salvador, avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões. Segundo a PF, o imóvel teria sido adquirido por Lima por meio de uma cadeia de fundos de investimento ligados ao Banco Master e à gestora Reag, com o objetivo de repassá-lo ao senador. Os investigadores apuram se Wagner atuou para beneficiar o banco em troca dessa e de outras supostas vantagens. O que agrava o quadro, na avaliação da PF, é que as tratativas sobre o apartamento não pararam com a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Master, na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Segundo documentos apreendidos, novas manobras contratuais foram realizadas depois da prisão com o propósito explícito, segundo os investigadores, de impedir que a negociação fosse descoberta.
Além do imóvel, o relatório da PF lista outras supostas vantagens, como ingressos para shows da cantora Taylor Swift destinados a familiares do senador, no valor de R$ 63 mil; viagens em jatinho emprestado de Lima; e a viagem da esposa de Wagner, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça, à chamada “Ilha da Paixão”, propriedade de Lima no litoral de Candeias, na Bahia, em helicóptero do empresário. Para a PF, o conjunto desses episódios integra uma relação de troca de favores associada ao exercício do mandato parlamentar.
O risco de vazamento e a reação de Wagner
André Mendonça registrou que, no dia 9 de junho, mesmo dia em que os pedidos da PF para essa fase da investigação chegaram ao STF, seu gabinete recebeu uma solicitação de audiência de um dos investigados, inclusive em horário anterior à distribuição formal de parte das representações. “Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa”, escreveu Mendonça na decisão. O episódio, na avaliação do ministro, “agudiza os riscos de vazamento indevido da operação”.
A operação foi deflagrada em 18 de junho. Durante o cumprimento das medidas, foram encontrados US$ 49 mil e 33,5 mil euros em espécie, além de relógios de luxo, em locais ligados ao senador. Uma semana depois, Wagner se afastou da liderança do governo no Senado.
Em sua defesa, o senador negou qualquer irregularidade. Por meio de seus advogados, afirmou que “jamais atuou no Congresso Nacional para favorecer o Banco Master” e requereu ao STF a anulação da operação, alegando “erros graves” na investigação. Sobre o apartamento, Wagner disse que pediu a Lima para intermediar a compra do imóvel como presente para sua filha. A defesa sustenta ainda que o senador atuou contra a chamada “emenda Master”, que tentava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, e que a única emenda de sua autoria sobre o tema propunha limitar juros e proteger consumidores. A PF, por sua vez, aponta a emenda como exemplo de atuação parlamentar em favor do banco. O afastamento da liderança do governo, justificado por Wagner como forma de “provar sua inocência”, ocorreu após conversa com o presidente Lula.
Mendonça autorizou monitoramento do celular de Jaques Wagner
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