A Polícia Federal (PF) desmarcou o depoimento do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, previsto para esta segunda-feira (3), no âmbito da investigação sobre supostas irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
O adiamento ocorreu a pedido dos advogados do dirigente e uma nova data ainda não foi definida. A investigação apura se Valdemar, sem mandato eletivo, teria influenciado o direcionamento de ao menos 21 emendas, somando R$ 119,2 milhões, com auxílio de servidores da Câmara dos Deputados.
O depoimento estava marcado para as 14h, em Brasília, mas foi cancelado. A defesa confirmou o pedido e afirmou que não comenta o andamento da investigação. Não há previsão de nova data.
A investigação que motivou a convocação apura um suposto esquema em que funcionários da Câmara dos Deputados teriam atuado de forma coordenada para destinar emendas parlamentares conforme interesses atribuídos ao presidente do PL.
Segundo a Polícia Federal, ao menos 21 emendas, totalizando R$ 119,2 milhões, teriam sido indicadas de forma irregular. O ponto central da suspeita é direto: a indicação de emendas é prerrogativa exclusiva de deputados e senadores em exercício do mandato, e Valdemar Costa Neto é ex-deputado, sem essa prerrogativa legal.
A apuração integra a Operação Transparência, que investiga a atuação de pessoas sem mandato na destinação de recursos orçamentários por meio da estrutura administrativa da Câmara.
Defesa de Valdemar e decisão do STF
Em manifestação enviada ao STF, os advogados Marcelo Luiz Ávila de Bessa e Thiago Lôbo Fleury sustentam que Valdemar Costa Neto “não dispõe de cota, reserva, titularidade, propriedade, cessão ou poder jurídico de disposição sobre emendas parlamentares”.
A linha argumentativa da defesa é que o dirigente apenas formula “sugestões políticas” submetidas ao crivo dos parlamentares. “Se a sugestão for rejeitada, não há indicação”, afirmam os advogados no documento.
O próprio Valdemar foi além em entrevista à GloboNews: defendeu abertamente que presidentes de partido participem da definição do destino das emendas, argumentando que a cúpula partidária teria uma “visão nacional” das necessidades da legenda, enquanto cada deputado foca em sua base local.
“É lógico. A função do presidente é cuidar do partido”, declarou. Questionado se outros dirigentes adotariam a mesma prática, respondeu que sim.
A declaração teve consequências imediatas. Em julho, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão das emendas investigadas e decretou a indisponibilidade de bens de Valdemar Costa Neto até o limite de R$ 119,2 milhões, medida cautelar destinada a resguardar eventual ressarcimento aos cofres públicos.
Dino também intimou 21 partidos a explicarem se suas presidências participam da definição, gestão ou distribuição de emendas parlamentares.
Valdemar reagiu à medida afirmando que seu patrimônio está muito abaixo do valor bloqueado: “Não tenho este dinheiro, nem perto, nem se eu acertasse duas vezes na Mega-Sena eu teria esse dinheiro”, disse.
Implicações políticas e o papel do PL
O caso coloca em evidência uma questão que vai além do processo individual: a investigação sugere que a distribuição de recursos públicos via emendas parlamentares pode ter funcionado, no PL, como instrumento de controle centralizado pela cúpula do partido, e não como exercício autônomo do mandato de cada deputado.
Se as suspeitas forem confirmadas, o que está em jogo não é apenas a conduta de Valdemar Costa Neto, mas o próprio modelo de funcionamento interno da maior bancada da Câmara.
O adiamento do depoimento, a pedido da defesa sem nova data fixada, prolonga a indefinição sobre um dos nós centrais da investigação.
Do ponto de vista da estratégia jurídica, o movimento permite que os advogados reavaliem o conjunto de evidências reunidas pela PF antes de expor o dirigente a um interrogatório formal.
Do ponto de vista político, mantém o presidente do PL em posição de suspeito ativo às vésperas do ciclo eleitoral de 2026, ano em que o partido precisará articular candidaturas e distribuir apoio em todo o país, justamente o tipo de operação que, segundo as investigações, dependia do controle sobre o destino das emendas.
Fugiu? Depoimento de Valdemar Costa Neto sobre emendas é adiado a pedido da defesa
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