Isolado, Flávio Bolsonaro anuncia vice no último dia de prazo para convenções

Isolado, Flávio Bolsonaro anuncia vice no último dia de prazo para convenções
O senador Flávio Bolsonaro - Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciará nesta quarta-feira (5), às 11h, em coletiva de imprensa em Brasília, o nome de seu vice para a disputa presidencial de 2026. A campanha confirmou a escolha na noite de terça-feira (4), sem revelar o nome. O anúncio ocorre no último dia do prazo para as convenções partidárias, após semanas de negociações frustradas com partidos do Centrão, que declararam neutralidade um a um, empurrando o candidato para uma provável chapa “puro-sangue” dentro do próprio PL.
O anúncio do vice e o prazo final
A campanha de Flávio Bolsonaro divulgou nota na noite de terça-feira (4) informando que “foi definido o nome do candidato ou da candidata à Vice-Presidência da República”, sem antecipar a identidade do escolhido. O anúncio oficial está marcado para as 11h desta quarta-feira (5), no Teatro Juca Chaves, no complexo Brasil 21, em Brasília, mesmo prédio onde funciona a sede nacional do PL.
A data não é coincidência: esta quarta-feira é o último dia do prazo para a realização das convenções partidárias, etapa em que os partidos oficializam candidaturas e deliberam sobre coligações. O registro das chapas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode ser feito até 15 de agosto, mas a equipe jurídica da campanha e advogados do PL alertaram que deixar o anúncio do vice para depois do encerramento das convenções poderia abrir espaço para questionamentos judiciais. O próprio Flávio havia dito, em sabatina promovida pelo site O Antagonista e pela empresa G4 na terça-feira (4), que tinha “até o dia 15” e que a “novela” poderia se estender por mais alguns dias. A pressão interna reverteu o cálculo.
O isolamento político e as recusas do Centrão
A decisão de última hora é o desfecho de semanas de negociações que não foram a lugar nenhum. União Brasil, PP, Republicanos e Podemos recusaram aliança com Flávio Bolsonaro e declararam neutralidade na disputa presidencial, um após o outro, esvaziando as principais apostas da campanha para a vaga de vice.
O resultado prático foi a inviabilização de uma série de nomes que chegaram a ser negociados concretamente. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) chegou a aceitar o convite, segundo relatos de bastidores, mas foi barrada pela decisão do PP de permanecer neutro, seguida pelo União Brasil, que forma federação com os progressistas. O Republicanos, por sua vez, realizou convenção na terça-feira (4) em que 17 dos 27 diretórios estaduais votaram pela neutralidade, derrotando os estados do Sudeste que defendiam a aliança com o PL. “Eu não posso ser contrário à maioria do partido. Dezessete estados optaram pela independência. Eu não posso impor a minha vontade”, disse o presidente da sigla, deputado Marcos Pereira (SP), após a convenção. O Podemos completou a sequência de recusas no mesmo dia. O contraste com 2022 é direto: PP e Republicanos integraram a coligação de Jair Bolsonaro na última eleição presidencial. A neutralidade dessas siglas agora sinaliza uma reconfiguração do campo da direita que não favorece o herdeiro da candidatura.
A busca por um vice e os nomes cotados
Flávio Bolsonaro havia declarado publicamente, em diversas ocasiões nas últimas semanas, sua preferência por uma mulher na vice-presidência. A estratégia tinha motivação eleitoral clara: reduzir a resistência que o candidato enfrenta entre o eleitorado feminino, que representa 52,8% do total de eleitores. Os nomes buscados fora do PL tinham esse perfil: Tereza Cristina (PP-MS), com trânsito no agronegócio e no mercado financeiro, e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e filiada ao Republicanos, que chefiava a área econômica da própria campanha de Flávio. A deputada federal Renata Abreu (Podemos-SP), presidente do partido, também foi avaliada pelo entorno do candidato. As três foram descartadas pela neutralidade de suas respectivas legendas.
Com o Centrão fechado, os nomes passaram a vir de dentro do PL. Entre os mais citados por aliados e integrantes da sigla estão o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha, o senador e ex-astronauta Marcos Pontes (PL-SP), e as deputadas federais Priscila Costa (PL-CE) e Julia Zanatta (PL-SC). A deputada Bia Kicis (PL-DF) também foi mencionada. Segundo relatos de interlocutores, a escolha estaria entre Marinho, Priscila Costa e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, lançada à disputa pelo Senado no Distrito Federal e citada por aliados como nome cotado para a vice.
Implicações da chapa ‘puro-sangue’
Se confirmada a chapa formada exclusivamente por integrantes do PL, Flávio Bolsonaro disputará a presidência contando apenas com o tempo de propaganda eleitoral e os recursos partidários de sua própria sigla. A ausência de PP e Republicanos na coligação, partidos que em 2022 ampliaram significativamente o tempo de TV e rádio da campanha de Jair Bolsonaro, representa uma desvantagem concreta no horário eleitoral gratuito, instrumento ainda relevante para candidaturas que precisam ampliar reconhecimento nacional.
Flávio não estará sozinho nessa condição. Ronaldo Caiado (PSD) tem o presidente de seu partido, Gilberto Kassab, como vice; Romeu Zema (Novo) anunciou o senador Eduardo Girão (Novo-CE) para a chapa; e Renan Santos, do Missão, terá o correligionário Aroldo Medina ao lado. A tendência de chapas fechadas em torno de uma única sigla, porém, tem peso diferente para cada candidato: para Flávio, significa disputar sem a estrutura de aliados que seu pai teve em 2022. O precedente histórico mais próximo é o próprio Jair Bolsonaro em 2018, que também deixou a definição do vice para o último dia das convenções, em busca de uma composição fora do PSL. A diferença é que, naquele ano, a estratégia funcionou. Em 2026, o filho chega ao mesmo prazo sem a mesma margem de manobra.

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